Teatro Negro de Praga chega com ‘Antologia’, um espetáculo visual

Como forma de ludibriar a ação de vigilância aos artistas pela União Soviética, o Teatro Negro de Praga fez da…


Como forma de ludibriar a ação de vigilância aos artistas pela União Soviética, o Teatro Negro de Praga fez da ilusão a trilha para alcançar um estado de felicidade, compartilhado com seu público. Estreia nesta quarta, 6, em única apresentação, o espetáculo Antologia – O Original Teatro Negro de Praga, no Teatro Opus, uma seleção das melhores cenas da companhia fundada em 1961.

À primeira vista, o negro no nome da companhia pode sugerir algo relacionado à questão racial, mas se refere à técnica utilizada, tradicional na região, que recupera um fazer teatral chinês que utilizava velas. “A base do teatro negro está na obscuridade”, conta o diretor Jirí Srnec, aos 87 anos. “Brincamos com a incapacidade do olho humano de ver preto sobre preto. Com este efeito, fazemos todo efeito possível.”

Ao longo do tempo, a luz ultravioleta (black light) foi incorporada à cena e responsável por acentuar o aspecto de ilusão que nega a gravidade, criando a impressão de que objetos ganham vida e passam a flutuar pelo palco.

E isso foi tudo. Já que o diretor parecer resistir às transformações tecnológicas que poderiam transfigurar seu palco. “Digo que somos muito clássicos. A tecnologia é nossa amiga e somos amigos das coisas clássicas, e nosso público está conosco. O esforço está em exercitar a técnicas, muito mais que a tecnologia.”

Em Antologia, a companhia selecionou cenas de suas melhores produções, criadas ao longo dos últimos 60 anos. Em uma delas, um par de calças passeia no varal enquanto uma mulher tenta pendurar as roupas. Em outra, um homem bebe tanto que os postes da rua ficam tortos, como ele, e passam a amparar o bêbado. “Não se trata de um espetáculo mudo”, defende Srnec. “A base é a fantasia e o efeito provocado por uma câmera negra. Mesmo assim não é um espetáculo silencioso, nem falado, mas as histórias comunicam-se com diferentes público.”

A ideia da câmara negra resgata o conceito de black cabinet desenvolvido por Georges Méliès e pelo teatro revolucionário de Stanislavski. A técnica se liga à arte expressiva da dança e da mímica com efeitos de ilusão. Stanislavski descobriu que ao cobrir o chão do palco com veludo negro, eliminava-se a terceira dimensão da cena, bem como a profundidade, criando um ambiente propício para efeitos visuais, como mágicos.

No elenco, onze artistas viajam em turnê pelo Brasil, que já passou por Fortaleza, Natal, Rio, chega a São Paulo e segue para Porto Alegre. “São artistas visíveis no palco e também invisíveis, todos treinados nesta técnica de gestão do escuro”, afirma o diretor.

Com espetáculos vistos em mais de 100 países, Srnec lembra que a companhia nasceu como alternativa à produção artística mais militante ou abertamente política, em período de regimes opressores. “Nosso teatro continua em vigor depois de tantos anos, já que nos mantivemos fora de qualquer situação política e social”, conta. “Nosso único interesse e razão de existência é oferecer ao público algo fantástico que os afasta por um tempo da realidade e levá-los à fantasia.”

Ele conta que apesar da produções que visavam entretenimento, o teatro negro também precisaria confirmar seu valor. “Na época, tivemos o apoio de muitas entidades. O mais importante foi conquistar o apoio do público.” Com o tempo, o reconhecimento chegou. Além das inúmeras turnês, em 2011, o então presidente do país concedeu a medalha de mérito cultural e artístico pela atuação de Srnec na cena.

ANTOLOGIA
Teatro Opus.
Av. Nações Unidas, 4.777. 4º Piso. 4ª, 20h. R$ 80 / R$ 200. Até 6/2.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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