Peça ‘nacionaliza’ tragédia grega

Versão de "Gota d’Água", dirigida por Rafael Gomes, mostra embate entre casal envolvendo o contexto sociopolítico


Em dezembro de 1975, Bibi Ferreira subia ao palco do Teatro Tereza Rachel (Rio de Janeiro) para estrear “Gota D’Água”, transposição da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes, para a realidade de um conjunto habitacional do subúrbio carioca. Com um arrojado texto em versos de Chico Buarque e Paulo Pontes e canções como “Basta um Dia”, o espetáculo marcou época e se tornou um clássico moderno do teatro brasileiro.

Mais de quatro décadas depois, a história voltou à cena com uma adaptação absolutamente inédita do diretor Rafael Gomes. Batizada de “Gota D’Água [a seco]”, a nova versão estreou no Rio de Janeiro em maio de 2016. Contemplado pelo edital da BR, o espetáculo chega em Campinas nesta sexta, sábado e domingo, no Teatro Iguatemi. No palco, Laila Garin e Alejandro Claveaux são acompanhados por cinco músicos sob a direção musical de Pedro Luís.

Foto: Silvana Marques
Montada pela primeira vez em 1975, texto de Chico Buarque volta aos palcos por sua atualidade

Chico Buarque e Paulo Pontes começaram a trabalhar no texto original a partir de uma transposição que Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) havia feito para a televisão. A feiticeira Medeia virou Joana, moradora do conjunto habitacional Vila do Meio-Dia, mãe de dois filhos, frutos de seu casamento com Jasão, alguns anos mais novo do que ela. Compositor popular, Jasão é cooptado pelo empresário Creonte, que o ajuda a fazer sucesso, e termina por largar Joana para se casar com a filha do milionário.

A trama passional, que transita por um desejo de vingança de Joana, tem como pano de fundo as injustiças sociais pelas quais os moradores do local passam, vítimas da exploração de Creonte, todo-poderoso da região. O enredo é costurado não apenas por embates com o outro, mas também por conflitos internos, sempre diante da iminência de adoção de medidas decisivas.

Como o termo “a seco”’ do título já indica, a montagem busca chegar à essência da história, através dos embates entre os protagonistas, Joana e Jasão, ainda que outros personagens do original também apareçam na adaptação. Mesmo com parte da trama sociopolítica reduzida na versão, Rafael Gomes reitera que a sua leitura da peça é focada em sua natureza política, cruelmente atual.

“A Gota D’Água original possui uma trama política bastante latente em seu embate entre opressores e oprimidos. Ao concentrar a história em Joana e Jasão, em suas ideologias, ações e sentimentos, eu gostaria ainda assim de falar sobre essa política mais essencial da vida, do dia a dia, essa que a maioria das pessoas sublima, esquece ou finge que não é com elas”, afirma o diretor, que manteve toda a estrutura formal da peça e inseriu novas canções e pequenas citações de letras de Chico Buarque em algumas passagens do texto.

ACONTECE: O espetáculo “Gota D’Água [A Seco]” será apresentado nesta sexta-feira, às 17h, no sábado, às 21h30, e no domingo, às 17h30 e 20h, no Teatro Iguatemi Campinas. Os ingressos custam R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia) – Avenida Iguatemi, 777, Vila Brandina.

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