Ópera de Rossini estreia no São Pedro


No início dos anos 1900, Clory, então com 17 anos, resolveu ir sozinha a uma audição no Teatro Argentina, em Roma. Estavam à procura de cantores para La Bohème, de Puccini. E o compositor, encantado com sua voz, a escolheu para interpretar Musetta.

Sem acreditar no que acabara de acontecer, ela voltou para casa e contou à família as novidades. A recepção não foi das melhores. Ela precisava fazer uma escolha: ou seria uma artista ou se casaria com o oficial da Marinha que namorava. Não era possível ter as duas coisas. E Clory resolveu que nunca mais cantaria.

Mais de um século depois, sua bisneta, a maestrina Valentina Peleggi estará à frente, a partir desta sexta, 2, da nova produção do Teatro São Pedro, em São Paulo, de LItaliana in Algeri, de Rossini, ao lado da diretora cênica Livia Sabag.

“O canto está na minha vida mesmo antes de eu nascer”, conta a maestrina italiana, que é regente do Coro da Osesp e recentemente passou a trabalhar também na English National Opera, de Londres, onde, aliás, recentemente regeu justamente La Bohème – e onde, no segundo semestre, comanda uma produção de Carmen, de Bizet.

“Minha paixão pela música está intimamente ligada ao canto. Foi cantando em um coral infantil, interpretando Carmina Burana, sob regência do maestro Zubin Mehta, que me apaixonei e me dei conta de que queria trabalhar com a música”, explica.

A paixão pelo canto casa bem com o repertório italiano – e com Rossini. O compositor faz parte de um período que se chama bel canto, que significa “cantar belamente” e cuja característica mais marcante talvez seja a agilidade da voz.

Mas Valentina faz questão de ressaltar que não se trata apenas da voz. “Para mim, o bel canto é todo um universo, uma forma de abordar a música”, ela diz. “Tem a ver com a concepção de cada frase, com a leveza, a elegância, o equilíbrio. Mas isso não apenas no que diz respeito ao cantor, mas também na forma de a orquestra tocar.”

Caos

LItaliana in Algeri foi escrita por Rossini em 1813, quando o compositor tinha apenas 21 anos. Poderia-se dizer que é uma obra de juventude, mas no caso de Rossini esses parâmetros precisam ser relativizados: antes, ele já havia escrito dez obras do gênero e, nas duas décadas seguinte, escreveria mais 30, antes de se aposentar aos 37 anos. É um conjunto impressionante, como impressiona a rapidez com que trabalhava o compositor: LItaliana foi escrita em apenas 18 dias.

Na comédia, Mustafá (o baixo Stephen Bronk), cansado de sua esposa Elvira (a soprano Ludmila Bauerfeldt), encanta-se por Isabella (a mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti). Ela, por sua vez, está à procura de Lindoro (o tenor Aníbal Mancini), escravizado por Mustafá; a história, que resvala em alguns momentos no absurdo, tem ainda figuras como Taddeo (o barítono Douglas Hahn), que pretende se casar com Isabella, e Haly, um capitão corsário (o barítono Rodolfo Giuliani).

A diretora cênica Livia Sabag conta que, após estudar detalhadamente o libreto e a música, procurou os temas que lhe pareciam mais interessantes na obra de Rossini. Ao mesmo tempo, se deu conta de que o compositor é bastante aberto com relação à época e aos locais da ação. “Então não quis deixar passar batido o fato de que há temas na história que são profundamente atuais e poderiam ser usados para falar de hoje.” Para ela, a ópera trata do machismo e do modo como as mulheres são tratadas.

“Mustafá é um contrabandista que fala abertamente do modo como acredita que as mulheres devem ser subjugadas, escraviza as pessoas. Isabella, por sua vez, trata da maneira como as mulheres devem agir para lidar com os homens, para contornar situações e não se deixar oprimir. É uma personagem profundamente atual.”

A diretora faz uma ressalva. “Que esses são temas da ópera não deve soar como novidade. Mas o desafio foi encontrar uma maneira de destacá-los. Mustafá vira então um líder que rouba cargas e pessoas. Entre Isabella e Elvira há também um contraste a ser explorado, de um lado uma mulher moderna, de outro uma mulher recatada. O objetivo foi trazer a própria crítica que já está no texto e também na música, que em alguns momentos ridiculariza a figura de Mustafá, mas fazer isso de forma clara.”

Peleggi também chama atenção para a riqueza da dramaturgia musical rossiniana, que coloca alguns desafios. “Há momentos, como no final do primeiro ato, em que a linguagem explode, que Rossini escreve passagens extremamente rápidas, cria um caos, uma loucura, que precisa ser construída da maneira correta, no limite”, ela explica. “Já para a diretora cênica, o desafio é encontrar a função teatral de momentos como esse, em que a ação para enquanto o caos toma conta do palco.”

LITALIANA IN ALGERI
Teatro São Pedro. R. Barra Funda, 161, tel. 3661-6600.
6ª (2) e dias 7, 9 e 11, às 20h; dom., às 17h.
R$ 30 a R$ 80

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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