Espetáculo aproxima cotidiano de questões existenciais

Adaptação da Broadway encabeçada por Debora Bloch, “Os Realistas” confronta o trivial com as fraquezas humanas e será encenada em Campinas


Casa própria parecida com aquela anunciada na TV. Casamento, estabilidade profissional e… medos escondidos. “O sonho médio vai te conquistar”, como diria a letra da banda Dead Fish. O tédio sobre a vida, a sombra da morte e a ocultação dos medos e fraquezas perambulam pelo enredo de “Os Realistas”, adaptação da peça da Broadway de Will Eno que chega ao Teatro Iguatemi, em Campinas, a partir desta sexta-feira, com Debora Bloch no elenco e produção e direção de Guilherme Weber.

No enredo, dois casais com o mesmo sobrenome: Silva. As padronizações são levemente quebradas pelo fato de que João e Júlia (Fernando Eiras e Mariana Lima) têm uma vida a dois estática e pouco empolgante, enquanto José e Pônei (Ernani Mello e Debora Bloch) aparentam um sinônimo de felicidade. A maior parte dos diálogos ocorrem nas varandas das casas, quando desejos, aflições e incertezas vêm a tona em meio a uma camada cômica, às vezes em frases incompletas, que ecoam pelo silêncio da cidade interiorana onde moram.

Foto: Ricardo Brajterman
Os Realistas: peça chega ao Teatro Iguatemi, em Campinas, a partir desta sexta-feira

Durante o convívio dos dois casais, a morte aparece como uma ameaça que deflagra crises e as características de cada personagem na maneira como cada um se relaciona com essa ameaça, explica Debora. “São dois casais, os maridos estão doentes, e enquanto uma das esposas assume um lugar de cuidadora, maternal, pragmática, a outra esposa age de forma imatura, quase infantil, sem querer lidar com a doença e negando-se a enxergar o problema. Assim como os maridos, que também vão se relacionar com própria doença de maneiras opostas”, detalha.

Homem comum. Para a atriz a beleza do texto é tocar em questões existenciais através do homem comum, do cidadão médio, alternando momentos de humor com momentos de densidade dramática. “Acho que no teatro o ser intelectualizado deve andar sempre de mãos dadas com os seres populares […] O público tem relatado um estranhamento inicial com a linguagem da peça que se transforma em compreensão e identificação, ainda que não seja a linguagem do mainstream com a qual estão acostumados”, conta.

“A criação deste texto nasceu justamente da busca por este equilíbrio [entre o meio popular e o intelectualizado]. […] A delícia aqui é justamente ver o cotidiano ser invadido pelo existencial. E que isso se dê através de uma comédia é um triunfo absoluto de linguagem”, reflete o diretor. Não à toa, lembra Weber, Will Eno é chamado de Samuel Beckett da nova geração. “Beckett foi o grande clown, popular e filosófico, que fez o mais absoluto casamento entre forma e conteúdo de toda a história do teatro”.

Íntimo da obra de Eno, da qual já trouxe cinco textos para o Brasil, o diretor afirma que o enredo de “Os Realistas” aparece como um exercício Tchecoviano de realismo, que usava tão bem a natureza como contraponto ao pequeno da existência humana.

ACONTECE: “Os Realistas” terá apresentações nesta sexta, às 21h, sábado, às 21h30, e domingo, às 19h. Os ingressos custam R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia) e podem ser comprados na bilheteria ou em www.ingressorapido.com.br. O Teatro Iguatemi fica na Avenida Iguatemi, 777, Vila Brandina.

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