Palhaço é tema de estudo de americanense na Unicamp

Americanense propõe em tese de mestrado uso do personagem do palhaço para eliminar o distanciamento entre as pessoas


Pode parecer ficção, mas foi real. O palhaço americanense Luis Godoy seguia com companheiros de ofício para um espetáculo que ele dirigiria e, pouco antes de chegar ao local, descobriu que a pessoa responsável pela paróquia onde se apresentariam havia morrido. A solução inusitada: a apresentação dos palhaços ocorreu no mesmo local onde o corpo foi velado, cinco minutos antes da cerimônia fúnebre. E foi elogiada.

Foto: Eduardo Motta/Divulgação
Envolvimento de Luis Godoy com o ofício começou aos 16 anos

Este é o exemplo que o artista cita para dizer que o palhaço ultrapassou os limites do palco e está nas ruas, nos campos de refugiados, nos hospitais e em todos os espaços possíveis. Luis, que já viveu várias destas experiências, agora prepara uma tese de mestrado que aborda o icônico personagem circense como um agente sociopolítico “responsável por causar afetações na sociedade contemporânea frente a todos os distanciamentos que nós vivemos”.

Luis, que hoje tem 31 anos, se envolveu com o ofício quando tinha 16. Ator, bacharel em Ciências do Esporte e mestrando em Ciências Humanas e Sociais, ele dá aula, é formador e tutor de palhaços na ONG (Organização Não Governamental) Hospitalhaços, em Campinas. Também ministra cursos e oficinas pelo Brasil e mantém o grupo InHouse Clowns e Circus. Estima formar 1,5 mil palhaços por ano.

Mas tudo começou em Americana. Depois de experiências não profissionais como ator, Luis conheceu a palhaçaria e, mais tarde, formou a ONG Medicina do Riso, entre 2005 e 2006. Sua referência era a instituição Palhaços Sem Fronteiras, grupo que desenvolve ações humanitárias em regiões vulneráveis pelo mundo. Depois de viajar por cerca de 12 Estados com a ONG, ministrando oficinas, espetáculos, intervenções e palestras.

Nesta época trabalharam na região da tragédia de desabamentos na região serrana do Rio, em 2010. Mais tarde, criaram o Medicina do Riso pelo mundo, passando por 12 países, inclusive por um campo de refugiados na Bósnia. Após isso, Luis realizou um sonho: realizou trabalhos com o Palhaços Sem Fronteiras na Espanha.

Após tais experiências, passou a se aprofundar na área acadêmica e foi premiado com um trabalho de iniciação científica voltado ao palhaço. “Hoje eu faço esse mestrado interdisciplinar em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, onde eu observo o palhaço como um agente sociopolítico responsável por causar afetações na sociedade contemporânea. Nós vivemos em um constante distanciamento, um distanciamento das relações pessoais, e o palhaço vem como essa figura que tensiona as relações. Ele provoca para que as relações voltem a acontecer novamente”, explica.

Ridículos sociais
Os estudos do artista apontam o personagem circense como a figura que expõe todos os ridículos sociais do homem, em contraponto a uma utopia que o coloca como uma figura invencível e vigorosa. “Quando a pessoa ri do palhaço ela está rindo dela mesma. Porque o palhaço serve com um espelho”, reflete.

O autor da tese cita Friedrich Nietzsche (1844-1900) ao colocar o palhaço como agente responsável por mostrar que, antes de qualquer coisa, o ser humano precisa reconhecer suas fraquezas para, assim ascender para um novo homem. A tese vai ser apresentada na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em fevereiro.

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