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Cultura

Pais e filhos resgatam o divertimento para a saúde das crianças

Por Agência Estado

02 Maio 2021 às 07:30 • Última atualização 02 Maio 2021 às 08:32

Algumas coisas são naturalizadas na relação entre pais e filhos e você começa uma família achando que é só repetir o que os outros já fizeram e vai dar tudo certo. O único pormenor é que maternidade e paternidade não possuem um manual de instrução. Na seara das brincadeiras, é preciso aprender o tempo inteiro, isso porque ser criança ficou distante de nossas rotinas. Assim sendo, para cultivar e colher frutos dessa extensão de terra que foi quase apagada da memória, é preciso reaprender a brincar. “Essa parte é a mais difícil porque, nesses últimos meses, ganhei uma hérnia, então, para eu abaixar e ficar com a Gabriela está sendo sofrido, mas estou tentando fazer um esforço para melhorar”, desabafa Cristiano Bichara Leal.

Ele e Vanessa Marques de Medeiros Leal moram no Rio de Janeiro e são pais de Mariana, de 10 anos, e de Gabriela, 5, que teve diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em meio à pandemia do coronavírus. “Sempre o trunfo paras as brincadeiras é a Mariana, porque ela adora brincar com a irmã. Seguindo com a terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada), a gente vai vendo o aprender a brincar e a se comunicar com a criança”, afirma. “Além de ser um período difícil para todos, pois não há como brincar com muitas pessoas, socializando livremente, as crianças com atrasos no desenvolvimento, como TEA e Síndrome de Down, costumam ficar ainda mais agitadas. Por isso, é importante que os pais ou responsáveis mesclem atividades”, esclarece a neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto.

Antes de ser diagnosticada com TEA, Gabriela enfrentava problemas na comunicação. Assim que nasceu, teve de passar por uma cirurgia para a retirada de um tumor. Além disso, o teste da orelhinha, responsável por verificar o funcionamento da audição, registrou alteração. “Gabriela usa aparelho auditivo desde bebê, mas a gente começou a perceber que, com sete meses, ela respondia a alguns sons, porém o aspecto motor não estava respondendo como outras crianças. A gente já tinha a Mariana e é natural que os pais comparem o desenvolvimento de uma filha com a outra na mesma idade. A pediatra sempre falava que cada uma tem seu tempo, mas a gente ficava com a pulga atrás da orelha, né?”, lembra Leal.

Mesmo sem falar, Gabriela desenvolveu uma comunicação não verbal que a família entende. “Ela passou por uma infinidade de neurologistas. Ninguém descobriu. Então, o meu sobrinho foi levado ao especialista com suspeita de autismo e sugeriram essa médica para Gabriela. Conseguimos o diagnóstico de TEA em agosto”, afirma o pai.

A mãe é enfermeira e também enfrenta uma rotina de trabalho puxada, sobretudo por causa da pandemia. Mesmo com a correria, Cristiano e Vanessa se engajaram e aprenderam a se comunicar melhor com a filha, que, antes da terapia comportamental, não conseguia olhar para os pais. “Agora ela olha para alguém que quer brincar. Antes, ela não sabia a utilidade, por exemplo, dos blocos de encaixe. Não fazia ideia que era para colocar em um espaço vazio. Ficava com a peça na mão ou brincava arremessando. Agora, sabe brincar. E eu aprendi que tenho que ficar na altura dela, falando de maneira clara, sucinta, para que ela possa entender e cumprir seu papel”, diz Leal.

Uma peça do bloquinho de montar encaixada. Um olhar. Um sorriso. O que parece um detalhe para muitos, no desenvolvimento atípico, é uma grande evolução. “A melhor coisa é ver aquela gargalhada que dá depois. Ainda mais que os dentinhos de leite caíram, está com uma cara de levada que fica mais fofa ainda. Cada vez que ela reconhece uma coisinha nova é importante. Nesses últimos dias, Gabriela passou a reconhecer a irmã, a procurá-la, coisa que não fazia antes. Isso não tem preço, porque a Mariana sempre a amou demais”, se emociona Cristiano Bichara Leal.

Uma simples interação no mundo da fantasia infantil pode fazer a diferença no desenvolvimento cognitivo das crianças como atenção, memória, raciocínio, resolução de problemas simples do cotidiano e outras funções executivas. “De maneira geral, toda brincadeira é estimulação, pois trabalha os aspectos sociais, comunicativos, motores e cognitivos. Quando a família entende as dificuldades da criança e foca as brincadeiras nos comportamentos-alvo, essas habilidades ficam fortalecidas”, explica Bárbara Calmeto.
A neuropsicóloga acrescenta que os pais precisam aproveitar todas as chances de interação. “O banho, as refeições, o parquinho, a hora de dormir, todos esses momentos podem se tornar oportunidades de estimulação”, diz. Se a comunicação com o seu pequenino não está acontecendo da maneira como você esperava, além de buscar o apoio de especialistas, uma simples atitude como sentar no chão, deixar o celular de lado e dar atenção para ele fará a diferença. O ditado popular diz que “ninguém nasce sabendo”, mas não explica que criar filhos é um eterno aprendizado, com tentativas, erros e acertos, incluindo o brincar com eles. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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