‘O que é, o que é?’: samba no Rio busca reinvenção e verba

Agremiações enfrentam problemas que desta vez parecem mais ameaçadores: falta de dinheiro e de credibilidade da organização dos desfiles


A elite do samba de avenida do País vai à Sapucaí às 21h15 deste domingo. O desafio do Império Serrano de tornar o clássico “O Que É, o Que É?” um samba-enredo se assemelha à dificuldade geral. Embora não faltem atrações – baterias afinadas, passistas com gingado improvável e presença de artistas -, as agremiações enfrentam problemas que, se não são novos, desta vez parecem mais ameaçadores: falta de dinheiro e de credibilidade da entidade organizadora dos desfiles.

Até a metade desta década não faltavam patrocinadores, especialmente públicos: o aporte da prefeitura chegou a R$ 2 milhões por escola, em 2016; a Petrobrás manteve durante quase uma década um patrocínio que em 2015 chegou a R$ 1 milhão. Também era comum as escolas “venderem” os enredos em troca de um apoio financeiro nem sempre admitido para exaltar entidades, produtos e até países, com resultados bem distintos – a Beija-Flor louvou Guiné Equatorial, uma ditadura africana, e foi campeã em 2015, e a Porto da Pedra exaltou as qualidades do iogurte em 2012 e acabou rebaixada.

Foto: Liesa / Reprodução
A elite do samba de avenida do País vai à Sapucaí às 21h15

O patrocínio minguou com a crise da Petrobrás, depois com a mudança na gestão da Prefeitura do Rio – saiu o portelense Eduardo Paes (então no MDB e hoje no DEM), figura sempre presente aos desfiles, e entrou Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que recomenda aos fiéis distância da festa e reduziu os aportes. O próprio Crivella não vai à Sapucaí nem para entregar a chave da cidade ao Rei Momo, tradicional evento de abertura do carnaval.

Os enredos patrocinados também se tornaram raros, pela crise econômica e porque muitas empresas desistiram de ligar suas marcas ao evento. Ainda no fim de novembro, a Uber desistiu de patrocinar as escolas (daria R$ 500 mil a cada uma das 14), após a prisão de Chiquinho da Mangueira, presidente da Mangueira e deputado estadual acusado de envolvimento em um esquema de propinas. Ele permanece detido.

Sem ensaios

Um dos reflexos da falta de dinheiro foi o cancelamento dos ensaios técnicos, que eram gratuitos e lotavam o sambódromo nos fins de semana anteriores ao carnaval. Em 2018, eles já não aconteceram e neste ano só voltaram depois de um patrocínio fechado às pressas com a Light. Antes organizados e divulgados com antecedência, em 2019 foram confirmados apenas três dias antes do início.

Outro problema é o descrédito em que a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) mergulhou. Nos dois últimos anos, o rebaixamento foi cancelado depois da apuração. Em 2017, a Unidos da Tijuca se salvou, e no ano passado Império Serrano e Grande Rio foram as beneficiadas. Embora os motivos oficiais sejam outros, a virada de mesa é atribuída à influência dos dirigentes na entidade. Com as duas mudanças, o grupo de elite passou a contar com 14 escolas, em vez de 12. Salvo nova virada de mesa, neste ano duas escolas serão rebaixadas e só uma subirá. O mesmo deve ocorrer em 2020.

Enredos

Apostando na superação, o Império Serrano abrirá a festa, entoando o clássico O Que É, o Que É, de Gonzaguinha – samba que teve o ritmo acelerado para virar samba-enredo sob críticas de compositores e outros grupos da agremiação. A escola faz uma reflexão sobre os sentidos da vida.

A Viradouro desfila em seguida, com um enredo sobre imaginação. A grande aposta da escola é no badalado carnavalesco Paulo Barros, vencedor em 2010, 2012, 2014 e 2017. A Grande Rio, na sequência, apresentará um enredo sobre os erros e deslizes cometidos pelas pessoas, enquanto o Salgueiro, um dos favoritos, vai homenagear Xangô.

A Beija-Flor, atual campeã, vai comemorar seus 70 anos, relembrando os grandes momentos de sua história. Em seguida, a Imperatriz vai discorrer sobre o dinheiro, e a última escola a desfilar será a Unidos da Tijuca, com um enredo sobre o pão, que vai ter como um dos intérpretes o padre Omar Raposo, guardião do Cristo Redentor e cantor que já gravou músicas com os grupos Molejo e Fundo de Quintal. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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