‘O Pasquim’ usava inteligência como arma

Para festejar meio século de lançamento do jornal, o Sesc Ipiranga inaugura, na terça-feira, a exposição "O Pasquim 50 Anos"


O que seria apenas uma frase de efeito logo se tornou premonição: se o jornal fosse independente, seria fechado – se não fosse fechado, era porque deixara de ser independente. Foi o que Millôr Fernandes escreveu em tom jocoso no primeiro número de O Pasquim, que chegou às bancas no dia 26 de junho de 1969. Nascia ali o mais subversivo dos tabloides nacionais, aquele que abriu uma brecha na imprensa ao utilizar a inteligência e o deboche como resistência à rigorosa censura imposta pelo regime militar.

Para festejar meio século de lançamento do jornal, o Sesc Ipiranga inaugura, na terça-feira, a exposição O Pasquim 50 Anos, com curadoria de Zélio Alves Pinto e Fernando Coelho dos Santos.

Foto: Reprodução
O Pasquim chega a 50 anos

Trata-se de um conjunto de edições originais, além de fotos, livros e revistas que mostra como um time de craques (como Jaguar, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Claudius, Ziraldo, Fortuna, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Augusto, além do próprio Millôr) confrontava o governo militar usando a escrita e o desenho como armas.

“O Pasquim foi único – não houve e ainda não há nada parecido, na forma, no conteúdo, no impacto, na insolência, na irresponsabilidade, e na absoluta e completa irreverência”, comenta o curador Fernando Coelho dos Santos.

De fato, pressionada – como de resto toda a imprensa brasileira – pela censura imposta pelo AI-5, decretado no final de 1968, a equipe do Pasquim evitava o confronto direto e cutucava o governo militar pelo deboche na área dos costumes e da cultura.

Para constatar isso diretamente, o público poderá, além de visitar a exposição, ter acesso a todas as 1.072 edições que foram digitalizadas e estarão disponíveis, a partir de terça, no site da Biblioteca Nacional.

Em sua primeira fase, o tabloide trazia a fina flor do bairro carioca de Ipanema, a chamada “esquerda festiva”, cuja escrita mais oralizada e o olhar jovial e escrachado para a vida surpreendiam semanalmente o leitor.

“Não foi só a linguagem que a patota do Pasquim mudou”, observa Jaguar, na introdução de um dos volumes comemorativos lançado pela editora Desiderata, a partir de 2007. “As capas também. O nosso negócio era ser do contra. Contra a ditadura, contra as capas (não confundir com contracapas) e a linguagem solene dos jornalões no final dos anos 1960.”

Os militares não gostaram da brincadeira e, em 1970, boa parte da redação foi presa.

Prisões

Em novembro de 1970, onze integrantes da redação do Pasquim foram presos a mando do regime militar, irritado com a edição de número 71, que reproduzia o famoso quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, mas com um balão sobre a cabeça de Dom Pedro I que dizia: “Eu quero mocotó!”. O humor incomodava justamente por ser inteligente. Afinal, em todos os cantos do jornal era possível encontrar algo novo que, além de provocar risadas, transmitia uma mensagem subliminar.

Bastava, por exemplo, ler o lema que tradicionalmente aparecia abaixo do logotipo e que mudava a cada semana como uma coleção de bofetadas: “Quem é vivo sempre desaparece”, “Tesoura sim, alicate não”, “Pasquim – um folião no velório”.

Ou a famosa seção Gip Gip Nheco Nheco, cartuns para os quais Ivan Lessa criava frases lapidares, um mosaico de ‘desaforismos’ que ganharam notoriedade com o tempo: “No Brasil, morre-se muito de médico”, “O brasileiro é um povo com os pés no chão e as mãos também”, “Vomitar no Nordeste é símbolo de status” e aquele que se tornou lema para muitos historiadores: “A cada 15 anos, os brasileiros esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos”.

O Pasquim testava os limites do humor e da contestação, era um jornal sempre no ataque contra tudo aquilo que era desfavorável às pessoas. “O humor, ao contrário da raiva ou apatia, era a principal arma daqueles artistas”, observa a cineasta e cenógrafa Daniela Thomas, que assina a expografia da mostra Pasquim 50 Anos ao lado de Felipe Tassara e Stella Tennenbaum. “O jornal era um manual de sobrevivência contra a ditadura, pois oferecia repertório para que o leitor soubesse contestar e não se vitimizar.”

Quando pequena, Daniela frequentava a redação do Pasquim, acompanhada do pai, Ziraldo. Lá, também encontrava o tio, Zélio. “Era um ambiente muito festivo e eu, criança, ficava com medo de que meu pai não quisesse mais voltar para casa”, diverte-se.

Tamanha intimidade favoreceu Daniela a criar os espaços expositivos que se espalham pelo Sesc Ipiranga.

A começar pela ala chamada A Gripe do Pasquim, que se refere justamente à prisão da cúpula do jornal, em 1970. Foi proibido publicar a notícia sobre a prisão. Assim, em janeiro de 1971, quando todos foram soltos, uma nota no Pasquim informava que finalmente havia passado o surto de gripe que assolou toda a equipe. Mas, para mostrar que a cadeia não intimidou a trupe, a edição seguinte à soltura dos jornalistas trouxe a atriz Maria Claudia na capa, com a língua de fora e uma legenda sugestiva: “Estamos aqui, ó!”.

Tal extroversão marcava principalmente a entrevista da semana, encontros cuja conversa era reproduzida na íntegra, inclusive com falas secundárias, como alguém se desculpando por ir ao banheiro. A mais notória foi a de Leila Diniz, em 1969, cujos 72 palavrões foram prudentemente substituídos por asteriscos para não irritar a censura – e Ziraldo teve a genial ideia de compactar palavras criando neologismos como ‘duca’ e ‘sifu’.

A exposição traz ainda 33 totens que reproduzem em tamanho natural os colaboradores mais proeminentes, além de uma Redação com 26 rotativas de diversos trabalhos publicados para o público imergir na realidade do periódico, que chegou a atingir a tiragem de 200 mil exemplares semanais.

E hoje?

Como seria o Pasquim hoje? Uma revista eletrônica, sem periodicidade fixa e em permanente atualização, uma mídia social, com o punch e a dinâmica do Twitter e o generoso espaço do Facebook. As bombas com que, durante a ditadura, vez por outra os militantes da extrema-direita jogaram nas bancas de jornais para forçá-las a não vender o Pasquim seriam substituídas pelos torpedos e fake news da milícia digital que ajudou a eleger o presidente da República, Jair Bolsonaro.

Seu humor continuaria cáustico e debochado, porém menos “incorreto” como, naquele época, era o de todos os humoristas, daqui e d’além-mar.

Mesmo sem o tacão da censura, não teria mais condições de ser a válvula de escape, a catarse que o Pasquim foi desde o primeiro número, por falta de concorrência, pois a internet já atende bem – e de graça – essa demanda.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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