Waters elenca Bolsonaro entre neofascistas e leva embate político a show

Usando a hashtag #EleNão, ex-Pink Floyd criou disputa entre vaias e aplausos em apresentação na qual palavras tiveram mais peso do que cenário físico


Parecia uma discografia inteira composta para uma noite. Com um Brasil rachado ao meio, mergulhado em uma das disputas eleitorais mais acirradas de sua história, Roger Waters subiu ao palco do Allianz Parque, em São Paulo, após uma cena contemplativa no imenso telão de fundo no qual um longo silêncio de uma jovem sentada às margens de uma praia é quebrado pelo metafórico fim do mundo trazido pela ganância, intolerância, autoritarismo e segregações. Começava ali a ser desenhado o estopim para uma exaltação de ânimos que eclodiu mais à frente, com um posicionamento claro do ex-baixista do Pink Floyd contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro, cujo nome foi acrescentado em uma lista de ameaças do neofascismo pelo mundo que também tomou a apoteótica tela atrás da banda.

Foto: Emerson Santos - Fotoarena - Estadão Conteúdo
Waters e os demais integrantes do Pink Floyd são conhecidos pelo seu envolvimento com a política ao longo de suas carreiras

Com o uso da hashtag #EleNão, o dono de obras-primas que tratam de governos ditatoriais e que restringem direitos, como “The Wall” e “Animals”, viu o estádio se transformar em uma disputa aberta entre vaias e aplausos por vários minutos.

Para uma apresentação com tamanho peso político, um respiro inicial. “Breathe” abre a noite seguida por “One of These Days”, “Time” e “Great Gig in the Sky”, denotando um prólogo com prioridade ao célebre disco “Dark Side of The Moon”, que invade as entranhas humanas mais obscuras, da transformação do tempo em capital à loucura e a ambição desmedida.

Com “Welcome to the Machine”, então, o embate com o homem capitalizado. A transformação de uma vida insensível e “mecanizada” em produto é complementada com o grande jogo de imagens que são escancarados no telão, como o de um lagarto androide que rasteja por um terreno árido.

Após apresentações de músicas da carreira solo, é com “Wish You Were Here” que o ex-Pink Floyd conquista uma união da plateia que se romperia mais adiante. O coro para a balada ecoa pela arena, mas com “Another Brick in the Wall” os signos começam a ficar mais claros para quem está diante do espetáculo. Doze pessoas são levadas para a frente do palco encapuzadas, com uniforme alaranjados e numerados, como os de detentos. Atrás delas, algozes, como se estivessem prestes a decapitá-las. Quando os capuz são retirados é possível ver que se tratam de crianças e adolescentes, identificados depois como brasileiros. Na tela, os dizeres “Resista”, em inglês, em vermelho gritante.

NOME EM LISTA E HASHTAG. O “Resista” deixa de ser apenas palavra para se tornar frase no intervalo, na primeira grande exaltação de ânimos. Surge a mensagem “Resista ao neofascismo” e, em seguida, uma lista que diz que o neofascismo está em ascensão em alguns países, incluindo com Bolsonaro no Brasil. Uma manifestação inicial de aprovação, com gritos de “Ele Não” e aplausos, ganha logo a concorrência de vaias, “Ele Sim” e “Fora PT”.

No retorno ao palco, uma dobradinha entre “Dogs” e “Pigs”, do excelente “Animals”, baseado no livro George Orwell, “A Revolução dos Bichos”, que traz uma fábula na qual animais representam a disseminação de uma onda ditatorial em uma fazenda que parte de uma suposta revolução. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se torna o grande alvo no telão. Frases dele em relação a tensões raciais, imigrantes, gays e outros temas polêmicos ganham corpos garrafais.

Mas é ao final de “Eclipse”, antes da última parte do show, que surge a hashtag #EleNão estampada diante de todos. Vaias e aplausos após o final da música tornam difícil até para Waters falar com a plateia. Visivelmente emocionado, serra os punhos em cruz e aceita as aprovações e desaprovações. Após um discurso mais ameno, de conciliação, é mais direto e se posiciona verbalmente.

“Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar em um lugar em que seu líder não acredita que a ditadura é uma coisa boa. Lembro das ditaduras da América do Sul e não foi legal”, sentenciou o músico, que seguiu com a apresentação e encerrou com o clássico “Comfortably Numb”.

POSICIONAMENTO HISTÓRICO. Waters e os demais integrantes do Pink Floyd são conhecidos pelo seu envolvimento com a política ao longo de suas carreiras, não apenas nas letras ácidas como em posturas adotadas. Waters não tem realizado apresentações em Israel, acusando o governo de defender uma supremacia racial e oprimir a população negra local. No começo dos anos 90, fez uma histórica apresentação em Berlim após a derrubada do muro que dividia territorialmente a Alemanha.

Com tamanha carga de tensões e o contexto apresentado, a passagem da turnê US+Them pela Allianz Parque em 9 de outubro de 2018 tratou-se de um show político que será lembrado ao longo da história. Foi o dia em que palavras ganharam mais destaque do que adereços de magnitude física extraordinária, como uma imensa fábrica que “rompeu” as barreiras de um telão de onde ela brotou; a emulação da capa de “Dark Side of The Moon” por meio de feixes de luz, no meio da plateia; ou o passeio de um porco gigante por cima da cabeça dos presentes. Mas, claro, tudo ali integrava a construção um discurso. Um discurso que, até então, parecia não estar muito claro para parte do público.

Página de Roger Waters vira campo de batalha

Milhares de brasileiros estão entrando na página de Facebook do ex-integrante da banda Pink Floyd, Roger Waters, para criticar as mensagens que o músico colocou em seu show, na terça-feira, 9, em São Paulo, contra o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro. Boa parte das mensagens exigiam que o ex-baixista e também vocalista do grupo britânico pedisse desculpas a Bolsonaro pelas mensagens utilizadas no show, no Estádio Allianz Parque, associando o candidato do PSL a uma onda de políticos fascistas que estão chegando ao poder em todo o mundo. Eleitores contrários a Bolsonaro perceberam a invasão de eleitores do candidato do PSL à página do músico e passaram a enviar mensagens de agradecimento a Waters.

Ao longo de toda a manhã e início da tarde desta quarta-feira, 10, a página do músico inglês se transformou em mais um campo de batalha política, emulando a extrema polarização que toma conta do País. Enquanto alguns eleitores de Bolsonaro tentavam “explicar” a Roger Waters o que se passava no País, outros partiram para o ataque, acusando o músico de ignorância e de ter realizado um “showmício” no Estádio do Palmeiras na noite desta terça.

“Você acha que o comunismo é o melhor para nós? Você vive em Cuba, você vive na Venezuela?, Você não sabe do que está falando, você perdeu milhares de fãs”, escreveu um. Eleitores de Bolsonaro estão fazendo uma campanha para que as pessoas que compraram ingressos e pretendem ir ao show na noite desta quarta-feira, 10, saiam de casa com camisas amarelas para mostrar a Roger Waters o apoio que Bolsonaro tem no Brasil.

Roger Waters teve o pai morto por nazistas na Segunda Guerra Mundial e é autor da letra de The Wall, uma das canções mais famosas do Pink Floyd e que faz uma crítica enfática ao autoritarismo e ao fascismo.

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