Sesc Jazz abre com uma programação que destaca Arturo Sandoval


Um dos maiores focos de espetáculos de jazz na agenda anual de São Paulo começa nesta terça, dia 8. O Sesc Jazz, uma versão ampliada do que foi por anos o projeto Jazz na Fábrica, será aberto hoje com o combo norte-americano Sun Ra Arkestra, criado pelo músico, filósofo e poeta Sun Ra (1914-1993) e mantido de pé por seu amigo, o saxofonista Marshall Allen, de 95 anos. Ao todo serão 81 shows por três semanas até 27 de outubro, com uma programação estendida, além do Sesc Pompeia, na Capital, para cidades do interior e do litoral. Além do Brasil, os músicos chegam de 11 países, Cuba, Espanha, Estados Unidos, França, Hungria, Inglaterra, Israel, Nigéria, Noruega, Suíça e Tunísia.

Um dos nomes da temporada será o trompetista e pianista cubano Arturo Sandoval, das maiores referências em seu instrumento, uma das vias por onde passa o jazz cubano do final dos anos 1970 com a formação da Orquestra Cubana de Música, a gênese do grupo Irakerê, de Chucho Valdés. Sandoval tem sua importância aferida pela música e pela história de vida, com um episódio dramático de deserção com a ajuda do trompetista Dizzy Gillespie. O norte-americano, deslumbrado com o cubano, o levou para integrar sua banda em 1990, em turnê pela Europa. Arturo decidiu não voltar mais a Cuba e Gillespie o ajudou, usando seus contatos na embaixada norte-americana em Roma para seu ingresso nos EUA. Sandoval se naturalizou norte-americano em 1998.

Sua vida acabaria se tornando um filme em 2000, quando foi lançado For Love or Country, com Andy Garcia no papel do jazzista, e sua técnica atingiria níveis impressionantes que permitiria chegar às regiões mais agudas de um instrumento já agudo por natureza, imprimindo uma velocidade vibrante. Arturo falou com o Estado por e-mail, para comentar como serão seus shows dias 16, no Sesc Bauru; 17, Sesc Araraquara, e 19 e 20 no Sesc Pompeia. Ele só não respondeu às perguntas com cunho político, como sua opinião sobre os governos de Cuba e dos Estados Unidos.

Sobre o que prepara para mostrar no País, ele se sai como um típico jazzista. O improviso é quem vai dar as cartas. “Eu tenho uma das melhores bandas em turnê neste momento, então estamos realmente nos divertindo no palco e essa é a parte mais importante. Vamos tocar muitas peças diferentes, não tenho o repertório exato, mas sei que será divertido.” A banda à qual se refere é, de fato, um timaço, com John Belzaguy (baixo), Tiki Pasillas (percussão), Michael Tucker (sax), Johnny Friday (bateria), Maxwell Haymer (piano) e William Brahm (violão e guitarra). Um grupo grande e quente, como mostram suas apresentações anteriores.

Arturo Sandoval conta com 10 prêmios Grammy e tem um largo reconhecimento na comunidade acadêmica. Ele responde então se, depois de 21 anos em território norte-americano, sente-se mais um músico dos Estados Unidos ou de Cuba. “Eu sou um cidadão norte-americano apenas desde 1998, quando isso me foi concedido. Creio que minha música não reflete um país específico.”

É impossível não lembrar de Dizzy Gillespie nas conversas com Arturo Sandoval. Seu padrinho artístico, uma das maiores influências ao lado de Charlie Parker e Clifford Brown, ganha sua consideração: “Dizzy era meu mentor e sempre seria meu herói e meu irmão. Ele salvou a minha vida, e quando alguém mostra que o amor é incondicional, você o carrega para sempre em seu coração e em sua alma”.

O mesmo traço musical que o colocou nas alturas também trouxe críticas. A velocidade de Arturo, assim como seus ataques nas regiões mais altas, já foi considerada excessiva. E o que ele pode dizer a respeito é algo esperado: “Eu não me concentro nos críticos, mas na prática, na execução, na composição, na aprendizagem e no crescimento musical. Às vezes, toco notas altas e, em outras, elas soam como um baixo; às vezes toco um bebop e, em outras, a mais gentil das baladas. O que faço não é sobre os críticos, é sobre música”.

Quando se recusa a falar de política, Sandoval pega outro caminho aos tomados pelo padrinho Gillespie. Em 1964, durante a campanha presidencial entre Lyndon Johnson e Barry Goldwater, o trompetista lançou uma espécie de candidatura independente à Presidência dos Estados Unidos. Eram tempos duros, de tensões raciais e homens sendo enviados para a Guerra do Vietnã, e o candidato livre Gillespie decidiu anunciar logo sua equipe ministerial caso fosse eleito. Miles Davis seria chefe da CIA; Louis Armstrong, o ministro da Agricultura; Duke Ellington estaria no posto de secretário de Estado; e Malcolm X, o procurador-geral. Um de seus projetos era trocar o nome da Casa Branca (White House) para Blues House, a Casa do Blues.

Maurício Einhorn

O maior gaitista do País, de 87 anos, tem datas marcadas para dia 18, no Sesc Bauru; e 20, em Sorocaba. Ele também falou com o jornal, com muita disposição para contar boas histórias, colhidas dos tempos em que se apresentou com o baixista Ron Carter e o gaitista Toots Thielemans. É sua gaita cromática também a que aparece no disco Donato/Deodato, de Eumir Deodato e João Donato.

Maurício diz ter descoberto recentemente composições que fez com amigos e que nunca foram gravadas. “É verdade. Durante muito tempo amigos próximos e outras pessoas sempre me cobravam para que eu tocasse mais as minhas composições e que gravasse um disco novo. Eu, geralmente, atendo em shows a esses pedidos e fico grato pelo carinho do público com meu trabalho.” Algumas dessas músicas inéditas devem estar em seus shows.

Ele diz que, desde jovem, é “um apaixonado pelo jazz”. “Pela liberdade da linguagem da improvisação e de como ela surgiu por aqui, por meio de aficionados como eu, na forma dos gêneros modernos do samba jazz e da bossa nova. Essa foi a minha escola e por isso, por anos, muitas das minhas apresentações continham mais do repertório desse estilo.” Ele fala ainda que “a fonte não secou”. “Modéstia à parte, tenho composto com muita frequência nos últimos anos. Componho à noite, de madrugada. A fonte não secou e sou grato por isso.”

Mas o que quis dizer Maurício Einhorn quando falou, certo dia, que não se sentia à vontade ao tocar lendo partituras? “Não chega a ser preguiça, pois tentei várias vezes, na verdade. Cheguei a ser aluno de Moacir Santos. Por vezes, me aventuro a escrever algo, mas sou muito lento e não domino a leitura como alguns amigos.
Acredito que, talvez, um estudo mais formal tiraria a minha força que é a improvisação.” Ele conta que o saxofonista Paulo Moura, que lia, escrevia e improvisava “magnificamente bem”, disse certa vez que Maurício não tentasse forçar essa coisa de saber teoria. “Ele dizia que isso poderia me engessar. Tenho que agradecer pelo ouvido com que fui agraciado e toda a informação sobre harmonia e repertório que tenho no ouvido, na cabeça e no coração.”

Outra questão é sobre sua carreira internacional. Por que, mesmo tendo a bênção de nomes como o belga Toots Thielemans e o guitarrista norte-americano Barney Kessel, não estabeleceu uma longa residência fora do Brasil em nenhum momento de sua carreira, como fizeram músicos como Airto Moreira e Sérgio Mendes? “Eu não decido sozinho a minha vida, levo minha família em consideração e foi basicamente isso o que aconteceu.”

SESC JAZZ
SESC POMPEIA
R. CLÉLIA, 93; TEL. 3871-7700.
3ª (8/10) A DOM. (27/10), 21H.
SHOWS TAMBÉM EM VÁRIAS UNIDADES DO SESC NO INTERIOR E EM SANTOS
R$ 15 A R$ 50. MAIS INF. SESCSP.ORG.BR
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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