Roqueiros guardam boas lembranças do Hitchcock Bar

Show após a morte de Kurt Cobain e divisão de palco com bandas de sucesso são lembrados por quem tocou no Hitchcock Bar


Peregrinação a pé, calor escaldante, apresentação após morte de Kurt Cobain e divisão do palco com bandas de referência no cenário nacional são memórias que ficaram claros na mente de músicos da região em relação ao extinto Hitchcock Bar, que existiu em Santa Bárbara d’Oeste entre 1992 e 1994 e se tornou um dos redutos do rock alternativo na região.

Baterista da banda piracicabana Happy Cow, Mauricio Bueloni ressalta que nenhum bar foi maior que a cena, mas o Hitchcock Bar é um dos que se destaca.

Foto: Arquivo Pessoal
A banda Scum Noise toca no apertado palco do Hitchcock Bar, no começo dos anos 1990

“Algo que não me esqueço foi o dia que Kurt Cobain faleceu. Tocamos lá, imagina como foi. Me lembro de dividirmos palco lá com o Rip Monsters (banda do Gastão Moreira, ex-VJ da MTV), com as bandas Concreteness, No Class, Lucrezia Bórgia, no lançamento da coletânea lançada pelo selo Banguelas, dos Titãs, chamada ‘Pircórócócór’. Vivíamos algo que não sabíamos que iria marcar aquela geração e com certeza marcou a história do rock no Brasil”, recorda.

O crescimento da casa de shows gerava “peregrinações” a partir de cidades vizinhas. “Tempos atrás ouvi da galera do SHN (estúdio de artes visuais), Magüerbes (banda americanense de rock alternativo), eles ainda com seus 14, 15 anos saíam a pé de Americana e se deslocavam até o Hitchcock, outras vezes de ônibus para Piracicaba (Bar do Garoa), para curtir as bandas e as baladas”, acrescenta Mauricio.

“Sempre saía uma caravana daqui para Santa Bárbara, porque além da gente, outras bandas daqui tocavam direto lá. Posso citar várias, como No Class, Lucrézia Borgia, Linguachula, Lethal Charge, Mullekadas e os Neighbours”, conta Daniel Ete, baixista do grupo campineiro de
punk Muzzarelas.

Sergio Giacomassi, vocalista da banda de hardcore/crust barbarense Scum Noise, conta que o espaço era uma exceção na cena local. “Para ver shows, tínhamos de nos deslocar para outras cidades. Com o Hitchcock Bar em Santa Bárbara d’Oeste, as bandas vinham para cá e assim tornou-se um ponto de encontro para os barbarenses e aos poucos para todos os apreciadores do rock e alternativo da região e capital”, acrescenta.

Paixão

Ete classifica seu envolvimento com a casa como “passional”. “Nosso primeiro show, para mim, foi monstruoso, no bom sentido, o segundo num calor de 45 graus e suando igual a um chuveiro. Era uma casa que apresentava uma nova proposta do que se entendia por rock, do que se entendia de como se comportar dentro desse novo universo dos fanzines, das trocas de fitas K7 pelo correio. O Hitchcock fazia parte de um circuito muito forte que se criou aqui no interior de São Paulo no começo dos anos 1990, junto com o SOHO e com o Garoa, em Piracicaba”, recorda.

Várias formações do período ainda permanecem na ativa

Apesar de algumas bandas da época terem terminado, como a Happy Cow e a própria Concreteness, formada pelos proprietários do Hitchcock Bar, outras seguem na ativa, como a barbarense Scum Noise e a campineira Muzarellas.

“Após algumas mudanças na formação e uma pausa em nossas atividades, em 2018 retomamos com a banda realizando alguns shows pela região e começamos a compor novas músicas para lançar um novo álbum ainda esse ano”, afirma Sergio Giacomassi, vocalista da banda barbarense. O grupo se propõe tocar “músicas rápidas, objetivas e pesadas”, com letras que abrangem literalmente a realidade atual do Brasil como um país do terceiro mundo.

“Estamos mixando um disco novo para ser lançado esse ano ainda. Botamos o [álbum] ‘Lotus Rock’ na rede recentemente, a mesma versão lançada em CD em 2002, que tem algumas diferenças da edição de vinil de 2003. Em breve, todo nosso catálogo e mais algumas raridades estarão disponíveis nas plataformas digitais”, conta Daniel Ete, baixista do Muzzarelas.

Já o fim da Concreteness, é ligado pelo ex-baterista e vocalista Marcelo Maluf à decadência da geração noventista. “Os espaços foram sumindo, o rock independente, por meio de algumas bandas, conseguiu alcançar o mainstream, o circuito alternativo desmoronou e o interesse foi diminuindo até ficar inviável viver tocando uma música como a nossa. Tentamos retomar algumas vezes, mas nunca conseguimos. Depois que o véio (baixista) faleceu ficou mais difícil ainda”, explica

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