Grupo mistura sons cubanos e brasileiros e quebra tabus em SP

Ao chegar a São Paulo, há 13 anos, o cubano Pedro Bandera trazia um aparelho de telefone celular e três…


Ao chegar a São Paulo, há 13 anos, o cubano Pedro Bandera trazia um aparelho de telefone celular e três tambores. Não sabia onde passaria a noite. Ele desceu do avião, apanhou um número anotado em um papel e recomeçou sua vida do zero. “Olá Yaniel, como fazemos?” O pianista e amigo Yaniel Matos, também cubano, ofereceu ajuda e indicou alguns trabalhos. Bandera dormiu nas dependências da USP. As noites seguintes seriam na casa de uma amiga.

Sua história anterior ao Brasil pode explicar o que logo aconteceria por aqui. Antes de ser percussionista, Bandera foi esportista e militar em Cuba. Estudar música é uma decisão que os cubanos precisam tomar rápido, de preferência na infância, ou o bonde passa e tudo fica mais difícil. Ele só tomaria depois de ouvir os tambores de santeria, o candomblé cubano, tocados pela família. Quando chegaram os anos da faculdade, escolheu Educação Musical e alimentou a ideia de uma pós no Brasil, o país que entrava em seus delírios via Ivan Lins, Chico Buarque, Gil, Milton Nascimento, Gal Costa e Caetano Veloso.

Ao chegar por aqui, Bandera experimentou logo a fatia amarga do bolo. As costas do “gigante continental” estavam voltadas para a América Latina, como se ele não fizesse parte desse lugar, como se não precisasse conhecê-lo. O imenso consumo de música brasileira pelos vizinhos não tem via de retorno e os músicos que desembarcam por aqui mesmo falando portunhol e tocando percussão precisam começar do início. Surgia a primeira inspiração para o Batanga & Cia.

Havia uma segunda deformidade cultural. Quando pensa em música cubana, brasileiros imaginam três coisas: salsa, bolero e Buena Vista Social Club. Nada contra as entidades que deram voz à Cuba, com força suficiente para intensificar o turismo à Ilha, mas seu país tinha mais a mostrar. A começar pelo nome.

O ritmo batanga, apresentado em Havana em 1952 pelo pianista Bebo Valdés (pai do também pianista Chucho) e pelo cantor Beny Moré, acabou sendo atropelado pela explosão do mambo. “Eu queria então uma forma de cumprir meu sonho colocando o Brasil na América Latina ao mesmo tempo em que pudesse mostrar que Cuba não é apenas salsa e bolero.”

O Batanga, grupo que formou há quatro anos, tem uma das propostas mais bem definidas nesse sentido. Seu primeiro EP, Did You Say Songo?, com cinco temas autorais, foi mostrado terça, 11, com um show no Bourbon Street. Um novo será dia 28, no Tupi or not Tupi, com participação da cantora Luedji Luna. Além de Pedro Bandera nos tambores, há o pianista Hanser Ferrer, a flautista e pianista Cláudia Rivera, o baixista Liander Lobo, o percussionista Alexis Damian e o saxofonista Fernando Ferrer Jr, todos cubanos. O coelho da cartola é o percussionista brasileiro Ilker Ezaki, tocando instrumentos como cuíca e pandeiro.

O tiro acerta dois alvos. Mesmo com sua latinidade definida em um território muito particular, o do samba, os padrões rítmicos brasileiros não estão tão distantes das claves cubanas e caribenhas como pregam os acadêmicos. Por telefone, Bandera dá um exemplo tocando batás. Quando subdivide o tempo e passa a tocá-lo em seis por oito, com mais notas, o samba surge quase naturalmente e se acomoda por ali. “Vocês brasileiros fazem isso de forma mais quebrada, o tempo latino é mais reto, mas os dois se encontram.” Ademais, ele lembra que expressões de terreiro como o ijexá têm o mesmo nome e padrão rítmico nos dois países. E há instrumentos com parentescos, como o berimbau e a cuíca. Essa, ele conta, tem uma história curiosa. “Eu não posso usar jamais um ékue (o primo cubano da cuíca). Ele é um instrumento tocado por uma sociedade muito fechada em Havana, considerada por muito tempo uma espécie de seita secreta.”

Nem tudo no repertório do Batanga faz conexões entre os sons dos dois países. Batanga Son é 100% cubana, um tema de Cláudia Rivera, com a sensibilidade esperta dos clássicos. As flautas, os vocais, o tumbao (marcação) do piano, as percussões, as frases de uma letra estendida e em uníssono. Um instante absolutamente contagiante. A segunda, Transición, da mesma autora, começa com uma linha melódica mais elaborada, típica da potência instrumental dos dois países, para logo fazer uma quebra com o piano de Hanser Ferrer, que vai levá-la de volta à Cuba no solo de flauta de Cláudia e no baixo irresistível de Liander Lobo. Haverá ainda solos de percussão e o reforço de algo que cubanos fazem bem melhor do que brasileiros: a insistência rítmica e mântrica que leva quem ouve, quem toca e quem dança a um estado de transcendência. Os brasileiros não têm paciência para grooves longos. Eles querem logo quebrá-los em pedaços, subdividi-los, improvisar em cima.

Oquendo 155, de Hanser, é um danzón (a música mais lenta, de se dançar junto, geralmente pelos mais velhos) e Ornitorrinco e Tatu, do baixista Noa Stroeter, tem de novo um caminho de início mais intrincado porém curto, que escorre até uma linda melodia que poderia ter sido criada pelo guitarrista Pat Metheny (que por sua vez não existiria se não tivesse escutado muito Toninho Horta). É um tema instrumental em que o encontro não se faz no ritmo. O mesmo tom assume Did You Say Songo?, de Pablosky Rosales. Aqui é uma bola bem mais dividida. Um violão brasileiro (no show ele foi tocado pelo especialista Swami Jr, que dirige Omara Portuondo e o próprio Buena Vista Social Club), a cuíca de Ezaki, a percussão afro-latina de Bandera e Alexis Damian e os sopros de Claudia e Ferrer.

Quando tudo acaba sem que nenhuma música do Buena Vista tenha sido tocada, nem salsas e nem boleros, Bandera e seu grupo têm o direito de se sentir vitoriosos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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