Em 86, ‘Slaughter Festival’ marcou cena do heavy metal em Americana

Com Sepultura e várias outras bandas que se tornariam famosas, festival realizado em 1986 em Americana é considerado um “divisor de águas”


Inflação nas alturas e Plano Cruzado. Vazamento nuclear em Chernobyl. Argentina de Maradona bicampeã da Copa. Estreia da série “Cavaleiros do Zodíaco” e lançamento do filme “Curtindo a Vida Adoidado”. Assim era um pouco do mundo em 1986, ano em que a banda Sepultura lançava seu álbum de estreia, o “Morbid Visions”. E foi no estúdio onde gravava esse álbum que o grupo assinou contrato para participar daquele que se tornou um dos eventos mais icônicos para a cena nacional da época: o Slaughter Festival. O local? Americana.

“Esse festival acabou virando uma lenda (…) Foi a primeira vez que bandas de metal brasileiras tocaram aqui na região e para a cena nacional teve uma importância porque foi um divisor de águas para as bandas. Tinha gente de BH, Brasília, do Rio de Janeiro, de Santos, de São José do Rio Preto, Ribeirão, Jundiaí, São Paulo, de todo lado”, relembra o produtor cultural Marcos Leite. O festival foi o primeiro que ele organizou e também teve ainda a apresentação de Dorsal Atlântica, Korzus, Vulcano e Mutilator.

Leite conta que conheceu membros do Sepultura na Galeria do Rock, em São Paulo, onde fãs do estilo se reuniam para trocar materiais. “Eles estavam comprando um disco do Voivod e eu estava comprando um disco do Slayer. E aí a gente trocou correspondência para trocar fita da gravação do disco”. E as trocas de cartas foram o embrião da reunião de bandas, que ocorreu em 20 de setembro daquele ano. “Nesse show de Americana eles emprestaram baixo de um cara de São Paulo. Um baterista de Americana emprestou os pratos pro Igor (Cavalera)”, conta o produtor.

Foto: Arquivo pessoal
Festival realizado em 1986 em Americana é considerado um “divisor de águas” para o heavy metal

Baixista do Korzus, Dick Siebert conta que, na época, a banda se apresentou com o baterista Paulão, do Centúrias, interinamente. “(O Slaughter) foi tão legal. Ele foi tão underground, tão de molecada cara. Ele ficou na memória até hoje. Como não tinha esses festivais, veio gente de tudo quanto é canto. Era na época que o pessoal queria conhecer o Sepultura”, relata o músico.

“Era ali todo mundo no mesmo barco. Todo mundo querendo crescer, chegar no mesmo lugar. Existia muita parceria entre as bandas. O público, em todos os shows, era muito grande, sempre um público muito selvagem. Pra mim, foi o evento número 1 do metal nacional, principalmente pelas bandas que estavam reunidas. Só bandas de muita expressão”, destaca Ricardo Neves Costa, baixista da banda Mutilator.

Ao apresentador Gastão Moreira, no programa Kazagastão, o vocalista e guitarrista da Dorsal Atlântica, Carlos Lopes, também mencionou o show em Americana. “Tem um festival que é mítico até hoje, que é Americana 86 (…) Foi muito louco. Era o período mais ingênuo, quando havia menos concorrência entre as bandas, não havia profissionalismo que dava uma imaturidade que era bacana. E era tudo muito espontâneo”, contou na ocasião.

Foto: Rodrigo Pereira / O Liberal
O Slaughter Festival foi o primeiro evento do empresário Marcos Leite e deu grande prejuízo

Depredação e ‘vaquinha’ marcaram o dia histórico

A invasão de fãs de metal ocorrida em Americana em 20 de setembro de 1986, durante o Slaughter Festival, que reuniu Sepultura, Korzus, Dorsal Atlântica, Vulcano e Mutilator, não foi apenas à cidade. Sem dinheiro para entrar, parte do público pulou o muro do Teatro de Arena e, à época, uma reportagem do Liberal mostrou que também ocorreu depredação do espaço, segundo a prefeitura.

A matéria aponta que cerca de mil pessoas foram ao local e houve arrombamento de uma das portas, pichação de paredes, quebra de chuveiro, vidros, torneira e saboneteira. Cacos de garrafas e seringas também recolhidas, aponta o texto.

Foto: Reprodução
Matéria do jornal O LIBERAL destaca a destruição causada pelo evento no Teatro de Arena

“Tinha um murão alto, de 3, 4 metros. Uma parte pagou, o resto invadiu (…) O produtor veio e falou: ‘não tenho nem dinheiro pra pagar gasolina pra vocês voltarem (por causa do prejuízo)’. Aí nessa, o (Marcello) Pompeu (vocalista da banda Korzus) pegou o boné e começou a pedir grana pra molecada. Aí, o Pompeu chega no camarim com o boné lotado de dinheiro. O produtor olhou e falou: ‘você salvou o festival, mano’. E o Pompeu: ‘isso aqui é pro pessoal voltar pra São Paulo’”, lembra o baixista do Korzus, Dick Siebert. “Veio metaleiro de todo o Brasil, do Piauí, do interior de Minas. E eles não tinham dinheiro para entrar. Provavelmente, tomaram tudo em cerveja. Tinha um velhinho que era o cara que segurava a porta, passaram por cima do velho, abriram. Então, sei lá, tinham 3 mil pessoas sem pagar”, contou o vocalista e guitarrista da Dorsal Atlântica, Carlos Lopes, ao apresentador Gastão Moreira, no programa Kazagastão.

“Tinha um jardim na frente do palco, arrancaram todas as plantas, quebraram torneira (…) Os caras invadiram, pularam o muro do teatro. O primeiro grande prejuízo (da carreira como produtor musical)”, relembra Marcos Leite, organizador do show. Ele explicou que contratou seguranças, mas que eles não contiveram os fãs mais exaltados. Ele ainda recorda que membros das bandas chegaram a dormir no teatro, após o evento, para pegar o trem na viagem de volta, no dia seguinte.

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