Após vencer tumor, estudante volta a tocar com instrumentos adaptados

De Sumaré, Igor Iwanowski venceu tumor no cérebro que atrofiou seus braços e pernas


Vídeo: Assista ao vídeo!

Hoje com 22 anos, o estudante sumareense Igor Iwanowski demonstrava desde cedo o apego pela música, ao tirar ritmos de caixinhas de fósforos em encontros de família. Sanfona, teclado, cavaquinho, bateria… os instrumentos ganhos de presente foram se somando em sua casa, mas um episódio o fez temer nunca mais poder tocá-los.

Prestes a completar 6 anos, viu seus braços e pernas se atrofiarem e, poucos dias depois, um tumor foi constatado em seu cérebro, obrigando uma cirurgia de emergência. Mas, hoje, a única sequela que carrega é uma paralisia no braço esquerdo, o que não o impediu de manter uma vida normal e ativa, que envolveu, inclusive, realizar um de seus maiores sonhos: o de tocar violão, com um instrumento adaptado por um professor e músico brasileiro.

Mãe de Igor, a atriz Patrícia Iwanowski acredita que o caso dele foi um milagre. “A gente viu crianças que perdiam memória, a fala, e o Igor teve cinco cirurgias. Na cabeça foram três, a quarta no olho, e a gente fez uma extensão de músculo no braço”, detalha. Por um ano, o garoto ficou com o lado esquerdo do corpo paralisado e só conseguia se locomover com cadeira de rodas. “Cheguei a ficar sem andar com 7 anos. Era para eu estar cego desse olho [direito] e hoje enxergo melhor nele que pelo esquerdo, que é normal. E fui voltando, fui me adaptando”, conta.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Igor Iwanowski posa com seu inseparável violão em sua casa, na cidade de Sumaré, no início da última semana

O desafio seguinte era voltar a tocar seus instrumentos. Pesquisava na Internet como se adaptar, como no caso da bateria, instrumento que toca colocando uma luva para prender a baqueta no braço com paralisia.

Estudante de Psicologia e atraído também pela área de Engenharia Civil, o jovem gosta de diversos estilos musicais, mas pelo blues tem uma paixão especial. E por gostar de ver músicas do gênero serem tocadas com violão, decidiu pesquisar se havia algum instrumento adaptado para apenas um braço. “E tinha aqui do lado, no interior, em Engenheiro Coelho, o Reinaldo Amorim, que tinha criado o violão adaptado. Surpresa, porque eu achava que se alguém tivesse criado isso seria na Europa, EUA, mas não, aqui no Brasil, a alguns minutos da minha casa”, comemora.

O instrumento possui doze cordas. As quatro primeiras formam o acorde de mi, as quatro do meio formam um lá e as quatro últimas formam um ré. “E você dedilhando consegue alcançar outros acordes”, explica o jovem. Com mais um sonho realizado, ele tem agora o desejo de levar violões adaptados para mais pessoas. “Do mesmo jeito que um dia eu fiquei triste e tinha muita vontade de tocar esse violão, eu quero ajudar quem tenha essa vontade também e não quero que essa pessoa fique triste. Quero mostrar para as pessoas que elas também podem ser feliz musicalmente e tocar. Eu quero realmente poder ajudar, de alguma forma”.

Foto: Divulgação
Reinaldo Amorim com uma de suas invenções: o violão de 12 cordas que hoje é utilizado por músicos com alguma limitação de movimento

Quando dava aulas na Unasp (Centro Universitário Adventista de São Paulo) de Engenheiro Coelho, entres os anos 2000 e 2010, o músico e professor Reinaldo Amorim percebeu que dois alunos com mobilidade reduzida, de cursos diferentes do de Música, sempre estavam presentes nos recitais como ouvintes. Foi quando decidiu estudar um meio de criar um instrumento que permitisse acessibilidade a quem tivesse alguma limitação nos membros inferiores. O resultado foi um violão de 12 cordas que hoje é utilizado por dezenas de pessoas, inclusive pelo estudante sumareense Igor Iwanowski, de 22 anos.

“Depois de quatro, cinco anos, surgiu a ideia de juntar três violões em um, com afinações diferentes, mas que possibilitasse tocar sem fazer os acordes [com o outro braço] e deu certo. Criamos o violão que precisa de uma mão para tocar”, conta.

Ele explica que, no princípio da música ocidental, foram criadas as teorias tônica, dominante e subdominante. O violão que criou é adaptado à teoria tônica dominante. “Creio que, hoje, mais de 100 pessoas com deficiência já usam este instrumento e, agora, estamos em processo de fabricação em série. As experiências são maravilhosas. Com este violão, fiz uma intervenção pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde recebi o título de mestre”, celebra.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!