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Cinema

Metalinguagem fez ‘História Sem Fim’ virar cult

Por Agência Estado

01 jan 2020 às 08:58 • Última atualização 27 abr 2020 às 11:14

Em 1984, o alemão Wolfgang Peterson havia se transformado num dos autores mais quentes do mundo. Três anos antes, fora indicado para os Oscars de direção e roteiro por O Barco, Inferno no Mar, um claustrofóbico drama de guerra, quase todo passado dentro de um submarino, durante a 2ª Grande Guerra – e isso sem que o próprio filme concorresse ao prêmio da Academia. Peterson poderia ter feito o filme que quisesse, a seguir. O cinemão colocou-lhe todos os recursos à disposição. Ele surpreendeu partindo do mais meticuloso realismo para um voo de fantasia e imaginação.

Fez A História sem Fim, que o Telecine Cult apresenta às 22 h deste 1º de janeiro. Bem-vindos a 2020, mas prepare-se para uma das mais intrigantes aventuras do cinema. Para início de conversa, Peterson saiu do horror da guerra não como quem busca uma libertação poética, mas para lançar o espectador em outro tipo de pesadelo. O filme baseia-se no livro de Michael Ende sobre um garoto, Bastian, que perdeu a mãe e sofre bullying na escola. Em fuga, ele busca refúgio numa livraria e encontra o livro mágico com a neverending story. Passa-se num mundo imaginário – Fantasia – habitado pelos seres mais bizarros. Um caracol de guerra, um morcego planador, um dragão da sorte, elfos, a imperatriz criança e o Come-Pedra.

Todo esse universo está ameaçado de destruição pelo avanço do Nada. A esperança reside em outro garoto, o guerreiro Atreyu, mas de cara, para mostrar que a missão não será nada fácil, o cavalo do pequeno herói, Artax, é sugado pela areia movediça, no chamado Pântano da Tristeza. Sim, apesar da censura livre, o filme é um terror psicológico que percorre a vertente do velho Disney. Basta lembrar da floresta em que Branca de Neve fugia do caçador ou da morte da mãe do Bambi. Walt nunca teve medo de submeter as crianças a emoções viscerais.

Nem Peterson

O engenho da narrativa de A História sem Fim é que Bastian/Oliver Barret projeta-se no livro e Atreyu/Noah Hathaway dá-se conta de que não existe, é só uma ficção na cabeça do outro garoto e que esse é o nada que ameaça o mundo da fantasia. Quando Bastian fechar o livro, tudo estará acabado. A questão, então, é prolongar a permanência de Bastian no livro, o que o narrador (Peterson?) só consegue com muitos efeitos e reviravoltas da trama, que também têm por objetivo eletrizar e manter cativo o espectador.

Como exercício de metalinguagem, A História sem Fim virou cult de adultos e até hoje tem gente que ainda sonha com aquela história, e seus personagens. Barret cresceu, adotou uma longa barba e trabalha com envelhecimento da imagem, muitas vezes projetando-se como figura de outras eras. Noah Hathaway, que quase perdeu o olho numa cena de luta, tornou-se tatuador profissional e sua especialidade são as variações do amuleto que Atreyu usa. Peterson acumulou sucessos como Na Linha de Fogo, Força Aérea Um, Troia, mas deixou de ser queridinho da crítica.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.