Poesia em movimento


Eva sobe as escadarias que dão para o quarto do filho. Suas paredes estão repletas de desenhos, como se o garoto acabasse de sair, mas ele está morto. Na sala iluminada da Casa das Rosas, o grupo Núcleo Teatro de Imersão estreia o drama vivido por Eva em Sonata de Outono, de Ingmar Bergman.

A peça As Palavras da Nossa Casa, que estreia nesta sexta, 17, é uma das últimas atrações programadas já que o casarão deve entrar em reforma a partir de abril. A montagem segue a proposta de um drama imersivo e itinerante, abrigado pelo casarão dos anos 1930. A partir da narrativa conturbada escrita por Bergman para Sonata de Outono, o grupo extrai o tumulto entre Eva e sua mãe Charlotte. A jovem, casada com um pastor, recebe a visita da mãe após a morte do marido. Desde o início, o público ocupa as salas amplas da Casa das Rosas, na cena do jantar e dos estudos musicais de Eva.

No filme, Ingrid Bergman e Liv Ullman sentam ao piano para executar o Prelúdio nº 2 de Chopin e, na encenação de Adriana Câmara, a brasilidade começa a tomar conta da peça: “Ah, então você está estudando Tom Jobim?”, a mãe vai perguntar à filha, para que Eva em seguida cante alguns versos de Janelas Abertas: “Sim, eu poderia morrer de dor/ eu poderia morrer/ e me serenizar”.

As primeiras experiências com peças imersivas do jovem grupo fundado em 2014 se deram na adaptação de Tio Vânia, de Chekhov. Com o título Tio Ivan, a companhia percorreu as salas da Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, para narrar o ambiente familiar de uma fazenda até a chegada do professor Alexandre e sua esposa. Como Tio Vânia, Sonata de Outono traz ambientações mais possíveis, em casas e construções, explica a diretora da peça. “No texto de Chekhov aproximamos a fazenda de uma região rural paulista, no início do século 20, durante a República Velha.” Em Sonata, a peça aposta no casarão projetado por Felisberto Ranzini. “A imersão acontece na história e na itinerância pelo espaço”, conta Adriana, que partilha o casarão com Gizelle Menon, no papel de Charlotte, e Clau Gurgel como o marido de Eva. Para fortalecer a experiência, o grupo aposta em despertar os sentidos. Adriana conta que adiciona algumas gotas de óleo essencial no figurino dos atores e que os biscoitos servidos exalam o aroma de baunilha.

“Fizemos muitos testes para perceber como as fragrâncias poderiam ser sentidas como mais um elemento da história”, explica a atriz. No dia do ensaio, visto pelo Estado, o aroma era de capim-limão.

Dividida em quatro pavimentos, a casa possui sótão, porão, andar térreo e andar superior. Durante os 51 anos de existência, a mansão foi ocupada pela família do arquiteto Ramos de Azevedo. Eram 30 cômodos, mais edícula, quadras, pomar frequentados pelos barões do café. Com a desapropriação feita pelo governo do Estado e o tombamento em 1986, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico (Condephaat), teve início um processo de restauro. “A última grande reforma foi realizada há mais de 30 anos”, informa Marcelo Tápia, diretor da Casa das Rosas desde 2016.

Para o projeto de restauro serão destinados R$ 4,2 milhões, oriundos do governo do Estado e do Fundo de Interesses Difusos (FID), em obras para recuperação do desgaste natural, reparos de elétrica, hidráulica, telhado, calhas e a inclusão e adequação de dispositivos de segurança. “Para casarões históricos, há muitos detalhes sobre alteração e manutenção da construção original, que precisa ser mantida”, conta o diretor. De acordo com Tápia, as obras vão durar dois anos.

Nesse período, objetos e móveis da Casa das Rosas serão transferidos de lugar, entre eles, o acervo do poeta Haroldo de Campos. Tápia explica que é preciso manter os materiais à disposição de pesquisadores nas dependências da Oficina Cultural Oswald de Andrade.

SERVIÇO

AS PALAVRAS DA NOSSA CASA
CASA DAS ROSAS
AVENIDA PAULISTA, 37.
TEL. 3285-6986. 6ª, 18H30,
20H30. R$ 60/ R$ 30.
ESTREIA 6ª (17). ATÉ 27/3

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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