Mercado editorial: fantasma da crise volta a assombrar setor


O mercado editorial começava a respirar (não se recuperar), depois de uma sequência de anos em queda livre, e a se acomodar, apesar da crise (ainda em curso) das redes Saraiva e Cultura, quando o coronavírus surgiu para colocar em xeque sua capacidade de resiliência. Embora alguns editores sejam mais esperançosos, acreditando que as pessoas vão aproveitar o tempo em casa para ler mais ou ouvir livros, a conclusão é unânime: o impacto será devastador.

Com as livrarias físicas fechando as portas para brecar a disseminação do coronavírus, a alternativa é apostar na venda online ou na venda do livro digital. Mas a grande maioria das livrarias brasileiras não possui serviço de e-commerce.

Pensando nisso, a Companhia das Letras está se oferecendo para fazer essa logística. “Para contribuir com esse momento extremamente delicado, para as pequenas livrarias, estamos propondo realizar a entrega dos pedidos para quem não possui esse tipo de serviço”, conta o CEO Luiz Schwarcz. Vale apenas para os livros do grupo, claro.

Com relação aos e-books, editoras como a Oficina Raquel estão correndo para ampliar o catálogo e já há quem cogite lançar, pelos menos por ora, os livros apenas na versão digital, caso da Autêntica para os lançamentos de abril e maio, já que a venda nas livrarias físicas, como explica Mauro Palermo, diretor da Globo Livros, é a principal fonte de receita para as editoras. Ou então não lançar nada. É o mercado editorial, e o mundo, em compasso de espera e lutando contra um inesperado, e invisível, inimigo.
Palermo acredita que haverá uma migração para as lojas virtuais. Sônia Jardim, presidente do Grupo Record também. Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta, é um pouco mais realista. “Embora o e-commerce no Brasil tenha uma ótima performance, presume-se que num cenário em que as pessoas estão precisando garantir alimentos e outros itens básicos de sobrevivência não teremos vendas muito significativas também online”, diz.

Presidente da Associação Nacional de Livrarias, que representa as independentes, Bernardo Gurbanov tem certeza de que a pandemia já aprofundou a crise do setor. Um setor que, em suas palavras, “mais do que nunca, precisará aliar a sua habitual criatividade às medidas fiscais, jurídicas, sociais e de ordem econômico-financeiro que o governo federal, os estaduais e os municipais possam continuar implementando para superar este inédito obstáculo e poder recompor o capital de giro, elemento fundamental para a sobrevida da empresas”.

Samuel Seibel, presidente da Livraria da Vila, também está assustado. “Nunca vivemos algo sequer parecido com o que o Brasil e o mundo estão enfrentando neste momento. O fechamento das lojas vai muito além do prejuízo financeiro, a parte mais óbvia dessa inevitável decisão geral”, disse – e ele concorda que essa foi a melhor solução no momento. Enquanto for possível garantir a segurança e o bem-estar dos funcionários, a Vila atenderá pelo telefone e pelo site. “Montamos uma pequena estrutura, com funcionários que não precisam utilizar o transporte público para chegar ao trabalho. Eles ficarão isolados entre si, em um espaço montado especialmente para isso, e seguem regras rígidas de higiene e cuidados, conforme estipulado pela OMS e pelo Ministério da Saúde. Acreditamos que o livro exerce um papel fundamental nesses momentos e julgamos essencial oferecer essas alternativas”, explica.

Nas duas lojas da Martins Fontes, da Paulista e da Dr. Vila Nova, e na editora alguns funcionários seguem a postos, nos bastidores. “A curto prazo, nosso foco será na organização da casa. Vamos arrumar as lojas e os depósitos da editora, fazer nosso balanço anual, avaliar excessos e faltas. Quem não tiver trabalho terá suas férias antecipadas”, conta Alexandre Martins Fontes, que vai concentrar mais sua atenção no e-commerce. Ele revela que na próxima semana a livraria vai fazer uma grande promoção, com desconto médio de 50%. “Acreditamos que isso vai nos ajudará a ganhar fôlego a curto prazo.”

No Rio, a Livraria Da Vinci também está com as portas fechadas, mas atendendo online e por telefone. “Se tiver que fechar totalmente, sem operar sequer a venda online e sem entrega no Rio? Aí não teremos nenhum faturamento e só restará esperar”, diz o proprietário Daniel Louzada. Segundo ele, as perdas já existem e aumentarão. “Queremos ter um faturamento mínimo para manter o fluxo básico de pagamento das nossas obrigações”, completa.

Gustavo Faraon, editor da Dublinense, que está repensando todo seu planejamento para 2020, volta a um problema mais antigo. “A questão é que várias livrarias, de independentes a pequenas e médias redes, já vinham cambaleantes, atrasando pagamentos, renegociando. Temo que essa paralisação, que fatalmente vai se refletir num derretimento da receita de todos, gere um efeito dominó em toda a cadeia. O pior efeito possível que vejo é que isso acabe levando a um enorme cada um por si e ao desmantelamento dos elos da cadeia. Seria catastrófico.”

Rejane Dias, diretora da Autêntica, conta que já há comunicados sobre suspensão de pagamentos e que ainda podem chegar pedidos de prorrogação de prazo. “Compreendo que as lojas ficarão fechadas por semanas, mas duplicatas vencendo significa na grande maioria acertos de consignação de livros já vendidos faz tempo”, comenta.

Ela diz que está “no modo pragmático”, realizando uma série de movimentos para blindar a empresa, e que é difícil ainda imaginar um futuro para o negócio do livro a curto ou médio prazo. “Tudo isso é muito assustador, mais do que frustrante, porque estamos lidando com o imponderável.

Acredito que quem souber lidar com esse imponderável e se reinventar, e conseguir manter suas equipes olhando pra frente, gerando novas ideias, depurando velhas ideias, terá a chance de redesenhar editoras mais leves, catálogos mais enxutos, mas mais assertivos, onde o próprio sentido da competição pode mudar completamente.”

Tomaz Adour, presidente da Liga Brasileira de Editoras, acredita que vai levar meses para o setor se recuperar. “O mercado do livro talvez seja um dos que mais demore a se normalizar, porque livro não é prioridade para a população”, diz.

Para Marcos da Veiga Pereira, sócio da Sextante e presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros, o coronavírus vai redefinir o capitalismo moderno, as perdas de todas as indústrias serão imensas e será necessária uma reorganização da sociedade. “As empresas que sobreviverão serão aquelas com um propósito claro e uma gestão eficiente”, acredita.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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