E-books viram vitrine para carreira de autores iniciantes

Alguns autores chegam a ganhar bem publicando apenas na internet, mas casos ainda são isolados entre os escritores iniciantes


Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
O escritor Thiago Oliveira, de Americana, lançou sua obra de estreia, “O Anjo de Tinta”, pelo aplicativo Kindle, da Amazon

Lançado há um ano pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), CBL (Câmara Brasileira do Livro) e o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), o Censo do Livro Digital apresentou um cenário não muito animador em relação à aposta nas publicações digitais. O faturamento apurado com as vendas de e-books foi de R$ 42.543.916,96, o que corresponde a 1,09% do mercado editorial brasileiro, excluindo nessa conta as vendas ao setor governamental.

Apesar do segmento representar uma ínfima fatia do mercado, escritores da região concordam com o fato de que esse tipo de formato tem se tornado uma via alternativa à dificuldade de publicar um livro impresso e o utilizam como forma de alavancar suas carreiras. Um dos que apostam neste caminho é Thiago Oliveira, de Americana, que lançou sua obra de estreia, “O Anjo de Tinta”, em formato acessível ao aplicativo Kindle, pela Amazon.

O enredo dinâmico do romance/ fantasia envolve a vida do artista visual Gabriel Shepard e a bela e misteriosa Melinda Halász, que revela ao rapaz um segredo sombrio e lhe faz uma proposta. A situação desemboca em uma guerra pelo poder, encabeçada por anjos que desejam ditar os novos rumos da humanidade.

O autor também considera que o mercado ainda engatinha e admite que o retorno financeiro é baixo, mas enxerga a oportunidade de usá-lo como vitrine. “Eu enxergo a internet e todo o processo digital como uma oportunidade extremamente valiosa para os escritores, principalmente os novos, como eu. Não tínhamos isso há vinte anos. A dificuldade em trabalhar com o material físico ao conseguir uma editora acaba por fazer uma diferença bem expressiva nesse meio”, aponta.

Como dificuldades para conseguir lançar um livro físico, ele aponta poucas opções de editoras e condições financeiras pouco atrativas. E não são todas as empresas que publicam e-books. O censo mostrou que, das 794 editoras investigadas, só 294 produzem e comercializam conteúdos digitais no país.

Isso representa apenas 37% do setor. Em números absolutos, o estudo mostra que as editoras pesquisadas publicaram, em 2016, 9.483 novos títulos digitais. O acervo total de e-books no país chegou a 49.622 obras. E, em 2016, foram comercializadas 2.751.630 unidades de livros digitais.

O custo de produção do e-book pode variar conforme os serviços que o escritor possa terceirizar, explica Thiago. “Caso o autor escolha delegar a edição, diagramação e capa para terceiros, geralmente há sim um custo. Fora isso é mais o trabalho mesmo. Mas como no meu caso tenho comigo a famosa frase ‘tempo é dinheiro’, de certa forma é um custo sim”, explica ele, que também é autor do conto “A Ponte Engraçada”, que será lançado em uma coletânea. O artista tem como próximo projeto lançar um livro de ficção-científica. Leia mais na Página 21

Atuar em vários espaços é o ideal

Foto: Pixabay - CC
O custo de produção do e-book pode variar conforme os serviços que o escritor possa terceirizar

O uso da publicação em e-books como uma plataforma de impulso de carreiras iniciantes deu resultado para escritores da região que, depois, realizaram lançamentos impressos. Na internet, eles acumulam milhares de downloads de suas obras.

Autor dos livros “A Comédia Mundana”, “A Viagem de James Amaro”, “Elvis e Madona [Uma Novela Lilás]” e “Virgínia Berlim [Uma Experiência]”, Luiz Biajoni disponibilizou seu primeiro livro para download gratuito na internet após ver ele sendo renegado por várias editoras. “Sexo Anal” acabou sendo resenhado pelo jornal “O Globo”, “possivelmente na primeira vez que resenharam e-books brasileiros”, afirma o autor. O ano era 2004. O texto era acompanhado por um link para acesso ao título, que foi baixado mais de 10 mil vezes. Então, uma editora pequena de São Paulo o procurou e foi lançada uma edição física, em formato pocket.

O americanense acredita que o mercado é viável. “Tem as plataformas de auto publicação, que são fáceis e têm muita gente ganhando dinheiro. Fanfics, ficção, fantasia, pornô… kindle, kobo… Eu apareci na internet, mas logo fui para o impresso… e depois que você entra numa boa editora, com editores de verdade, gente comprometida com a qualidade do livro, do texto, do objeto, fica difícil sair de volta para a internet”, explica ele, acrescentando que muitos autores novos não passam por revisão antes de publicarem seus e-books, o que faz com o texto chegue ao leitor com erros de gramática e ortografia. “É uma faca de dois gumes”, acrescenta.

No entanto, ele destaca que há um contraponto. “Tem muita gente ali que não quer sair não. Conheci uma menina na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) que escreve pornô, vende pacas, ganha R$ 10 mil por mês. Não vai para o impresso não. Essa menina tirava as manhãs só para responder e interagir com os leitores e fãs, escrevia à tarde e contava dinheiro à noite”, brinca.

DO ORKUT AO PAPEL
O também americanense Juliano Schiavo utiliza a plataforma virtual para publicação de livros desde 2008. “Na ocasião, escrevi um livro-reportagem chamado ‘Sociedade Do Lixo’, junto com amigos da graduação de jornalismo. Colocamos em grupos do Orkut na época e tivemos mais de 1.200 downloads na ocasião. Desde então, tenho trabalhado de forma independente utilizando a internet como ferramenta para divulgar meu trabalho. É uma ferramenta viável e indicada principalmente a quem está começando.
Vale a pena”, reforça.

No entanto, ele também realiza lançamentos físicos. O último foi o livro infantil “Raduan”, em setembro, pela editora Adonis. Na fábula, um garoto nascido da flor do mandacaru cativa e inspira mudanças em animais com personalidades típicas de humanos, como arrogância, mau-humor e baixa autoestima. O enredo também valoriza a fauna e flora brasileiras.

Juliano pondera que é difícil ter retorno financeiro no mercado virtual, mas que trata-se de uma boa vitrine. “Uso as plataformas virtuais como Amazon para me divulgar. Desde 2013 na Amazon tenho 4.522 livros baixados. Inclusive, estou sendo até pirateado, mas não tenho problema quanto a isso”, revela.

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