Caetano Galindo entra na ficção com os contos de ‘Sobre os Canibais’


Caetano Galindo é um profissional da indústria do livro com um ritmo frenético de trabalho reconhecido pelos pares: são aulas, orientações e as dezenas de outras atividades na vida acadêmica (ele é professor de linguística na Universidade Federal do Paraná), oficinas, palestras, muitas traduções por ano, trabalhos escritos de não ficção, colunas para jornais e blogs – agora, ele oficialmente entra no time dos escritores de ficção publicados com Sobre os Canibais, lançado pela Companhia das Letras.

Os textos do livro – contos independentes, mas às vezes interligados – correspondem a esse ritmo de trabalho, com frases rápidas abrindo espaço para narradores calculadamente atentos à própria construção de pensamento. Classificar os textos como experimentais, porém, denotaria um tipo de inacessibilidade que não existe no livro. Sobre a obra, Galindo respondeu às seguintes questões.

Os contos do livro empreendem uma exploração contínua da linguagem, o que dá a eles uma característica muito própria. Você diria que para você essa exploração é mais relevante do que a construção de uma trama, por exemplo? Ou são dois elementos intrínsecos?

Eu simplesmente sou ruim de elaborar “tramas”. Nem dou muita bola para isso. Não é mesmo o que me interessa. Em geral o que eu quis ali foram “retratos”. Exames de situações ou ideias. A forma, a linguagem, decorre de eu ter chegado a uma maneira mais eficiente (normalmente mais rápida, mais concentrada mesmo) de conseguir expor aquilo que eu queria. Eu não diria que eu parto de uma premissa tipo “vamos inovar” e tal. O que acontece é que eu não me obrigo a fazer direitinho, pelos modelos mais corretos. Eu só faço como acho que vai funcionar melhor.

Aparecem aqui e ali algumas referências, tanto no ritmo quanto na estrutura dos contos (e da sua tradução, é natural) do David Foster Wallace, estou correto? O que esse autor em específico significou na sua carreira e na sua visão da literatura?

Tem o Wallace, sim. Mas acho que tem até mais da Ali Smith e da Lydia Davis, por exemplo. Em termos de forma. Em termos de abordagem da literatura. O que o Wallace deixou marcado mais a fundo em mim foi uma abordagem… das pessoas. Da vida em volta da gente. E, no caso dele, especialmente, tem esse dado de que muitas vezes os leitores conhecem a prosa dele através da minha, das minhas escolhas… então é meio que uma via de mão dupla. O Wallace de Graça Infinita soa mais parecido com alguns dos meus contos do que o Wallace dos livros que não fui eu que traduzi. Mas devo demais a ele, em todos os sentidos, que fique bem claro.

Como você vê que a universidade, nesses tempos difíceis para o ensino e a cultura, se relaciona com a atual produção da literatura brasileira contemporânea? É uma velha discussão, mas acho que você tem um lugar de fala privilegiado para falar sobre o assunto.

A universidade está em crise. Acho que em crise interna, em termos de redefinição do seu papel, do seu lugar, dos seus instrumentos. E certamente em crise externa, transformada em alvo conveniente de um discurso que precisa aniquilar o pensamento independente. O lugar que ela ocupa agora é, portanto, ainda mais importante, e pode ser a chave para aquela reorganização interna que também parece premente. A gente precisa ficar de pé. A gente precisa falar. E a literatura produzida pelas pessoas que estão ali, também, é uma forma de falar, de agir, de intervir.

Não sei se você chegou a ver aquele filme A Chegada (2017), mas lembro de ter lido em algum lugar que o filme era tão de ficção científica que quando o mundo vai acabar, eles chamam uma linguista para salvá-lo. É uma piada, claro, mas em tempos de convulsão social, como essa parte dos estudos humanos pode se relacionar mais diretamente com a sociedade (sem querer dar uma função utilitarista)?

Mas é uma boa piada. Quer outra? Eu digo para as pessoas que a linguística é tão vanguarda que está há um século lidando com algo que só agora chegou, por exemplo, à física: o fato de que todo mundo se julga tão expert quanto o verdadeiro especialista no campo. A gente entende de crise de autoridade! Agora, falando sério, acho a linguagem sempre importante. Acho que as palavras, os sentidos e usos das palavras, sempre foram campo de batalha, e continuam sendo. E assim como os artistas (poetas, prosadores) têm um papel importante na manutenção da vida das palavras, os linguistas são fundamentais para esclarecer a barafunda discursiva em que estamos afundando. Estudar linguagem é aprender a valorizar diversidade. Estudar linguagem é aprender a analisar sentidos, estruturas, e manipulações de sentidos e estruturas…

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora