Diretor prevê crise com o fim de políticas culturais

Em visita a Americana, produtor executivo de algumas aberturas de novelas e séries da Globo avalia cenário do audiovisual


Se ocorrer um enfraquecimento ou até extinção da Ancine (Agência Nacional de Cinema) pode levar à perda de talentos do audiovisual brasileiro para o exterior ou outros setores e enfraquecer a qualidade das produções locais. A avaliação é de Alvaro Beck, diretor de filmes e produtor executivo de algumas aberturas de novelas, séries e minisséries da TV Globo – como “Órfãos da Terra”, “A Lei do Amor” e “Ilha de Ferro”.

Fundador da Detour, produtora de filmes e fotos dedicada aos mercados de moda, beleza, luxo e lifestyle, com escritórios na França e Brasil, ele esteve em Americana, nesta segunda-feira, para ministrar um Lab na agência Audaz. Atualmente, ele mora na França, onde a Detour abriu uma unidade no final de 2017.

Foto: Audaz / Divulgação
Alvaro Beck em conversa com profissionais da Agência Audaz

Para ele, um corte brusco no fomento a este mercado seria “bastante grave” e afetaria também a área de produção de filmes publicitários.

“Eu vou trabalhar com um diretor de fotografia que, por exemplo, num projeto desses onde ele depende de lei, faz 20 diárias, 15 diárias, e isso reforça o caixa dele anual. Então, vários profissionais nossos que trabalham em publicidade, eles primeiro ganham em experiência e ganham reforço de remuneração vindo desses projetos. A partir do momento em que não houver mais esses projetos para eles trabalharem, só a publicidade não sustenta eles. Corre-se o risco de a gente perder profissionais, ou que um bom diretor de fotografia saia do Brasil ou que vá trabalhar em banco, serviço público”, analisa.

Alvaro relatou que até em sua agência já teve um exemplo do tipo, com uma camareira. “Talvez [a Ancine] não estivesse funcionando juridicamente com algum tipo de problema. Ok, corrija-se isso, mas não elimine-se. Porque eliminar isso seria matar uma boa parte de profissionais que vivem dessa indústria. Tem caras que trabalham em alguns projetos nossos que um terço do ano eles fazem longas, séries, curtas. Então, como é que faz? Um terço desse dinheiro esse cara não vai ter. A publicidade não vai cobrir isso”, acrescenta.

O diretor reforça que nunca utilizou leis de incentivo, mas que assim como todos os profissionais da área acaba dependendo indiretamente delas.

“É uma cadeia. O cara que faz o efeito do filme nosso que ganhou o Leão [de Bronze em Cannes], faz longas. Ele faz efeito para longas, séries. Um terço ou metade do faturamento anual dele vem da lei de incentivo. E ele não é moleque, não é vagabundo. A solução é Corta tudo? Na França também não é uma indústria como a americana. Depende da manutenção estatal, do fomento. Corta o fomento estatal do cinema francês pra ver. Morre. Tu não vai criar uma indústria zerando o fomento. É ingenuidade”.

O filme premiado ao qual Alvaro se refere é “Bird”, para a Neosaldina, lançado em 2006. No Lab realizado na Audaz, Alvaro falou sobre como obter o melhor resultado de uma produção audiovisual. O vídeo da apresentação está disponibilizado no canal https://www.youtube.com/user/AUDAZcombr.

Profissional já participou de aberturas famosas na TV

Alvaro Beck esteve à frente da produção de aberturas recentes da Rede Globo, como as das novelas “Espelho da Vida” e “Órfãos da Terra”, além da minissérie “Ilha de Ferro”. Também realizou a atual introdução de “Malhação” e produziu no final de semana a abertura de uma série, “Segunda Chamada”, que a O2 fez para a Globo. Neste tipo de trabalho, à Detour cabe a produção. Criação, direção e pós-produção ficam a cargo do Núcleo de Aberturas da Globo.

“O trabalho que a gente presta é bem de logística de produção e que, no final das contas, acaba sendo muito semelhante ao que a gente faz para publicidade, ainda que o resultado seja bastante diferente, em função da linguagem. Não é um trabalho que envolva inúmeras diárias, como uma produção de uma série. E a Globo, em especial, é um cliente muito querido nosso porque é um cliente antigo”, explica. A Detour trabalha para a rede desde 2006.

Gerenciamento

Na publicidade, para o diretor e produtor executivo, em um mercado atual onde as verbas disponibilizadas para as produções têm encolhido, o maior desafio é administrar a expectativa de quem contrata. “Acho que isso entra muito na questão de planejamento. Às vezes tu não tem grana, mas se não tem grana e tem tempo você consegue fazer”, lamenta.

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