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Entrevista

‘Diário de um Confinado’: totalmente feito em casa

Bruno Mazzeo se reinventa na quarentena com “Diário de um Confinado”, programa com produção doméstica

Por TV Press

14 jul 2020 às 14:11

Bruno Mazzeo já fez de um tudo na tevê: atuou, dirigiu, escreveu, narrou… Porém, em “Diário de um Confinado”, experimentou algo que jamais imaginou antes: de casa e junto com a mulher, a diretora Joana Jabace, criou um programa durante a quarentena, produzido de forma remota, com todas as limitações que o isolamento social impôs.

“Já trabalhamos juntos em outros dois projetos – “A Regra do Jogo” e “Filhos da Pátria” –, mas nunca tão próximos”, conta Bruno, que contou com a ajuda de Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Veronica Debom no texto da série exibida aos sábados pela Globo e já disponibilizada no Globoplay.

Para o autor e protagonista Bruno Mazzeo, o principal trunfo deste projeto está justamente em todas as limitações impostas na produção dele – Foto: Divulgação

Na história, Bruno interpreta Murilo, um homem que, de repente, se vê obrigado a tocar a vida de dentro de casa. Assim, toda a sua agenda passa a ser cumprida num apartamento do Rio de Janeiro.

Além dele, alguns personagens interagem, vividos por nomes como Arlete Salles, Debora Bloch, Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho e Renata Sorrah. “‘Diário de um Confinado’ é um programa que busca uma identificação. Ao mesmo tempo, tem pitadas de uma loucurinha, que é o que a gente está vivendo, com sentimentos alterados. E é aí que entra a carga do humor”, detalha o autor.

Como surgiu a ideia de escrever “Diário de um Confinado”?

Bruno Mazzeo
A ideia veio da Joana. Já estávamos vivendo o confinamento, ela ainda trabalhando em “Segunda Chamada”, remotamente, e eu pensando em trabalhos mais à frente, porque estava organizado para só atuar este ano. Aí, ela trouxe essa ideia: “E se pensarmos em algo que a gente possa gravar aqui em casa? Você escreve e atua, eu dirijo”.

Começamos, então, a pensar em crônicas de uma pessoa confinada. Chamei a Rosana Ferrão, minha parceira no “Cilada”, pensamos no formato e chegamos nesse, de fazer um diário com situações que a gente passa no confinamento, com algumas neuroses, paranoias…

Alguma das situações vividas por Murilo nesse período de isolamento já aconteceram com você? Você se vê, de alguma forma, nesse personagem que criou e interpreta? Ou se inspirou em pessoas próximas?

Bruno
Como tudo o que escrevo, sobretudo quando escrevo sob o olhar da crônica, normalmente tem um pé na autobiografia e na de cada um que está participando comigo. Tem um ditado italiano que eu gosto muito que diz que “na arte, tudo é autobiográfico”, porque tudo vem de sensações minhas, de referências que recebo do mundo, coisas que vivo, que os amigos vivem. Este é um programa que busca uma identificação. Ao mesmo tempo, ele tem pitadas de uma loucurinha, que é o que a gente está vivendo, com sentimentos alterados, entre a euforia e a melancolia. E é aí que entra a carga do humor. Mas a ideia é partir sempre da realidade.

Não é a primeira vez que você e Joana trabalham juntos, mas essa é uma nova configuração de produção para ambos. Como está sendo levar esse trabalho totalmente para dentro de casa?

Bruno
Diretamente, esta foi a primeira vez, e isso era uma coisa que nós já queríamos muito. Gosto muito de trocar com a Joana, a gente tem muita ideia sempre, ela é muito inteligente, criativa, tem um olhar muito interessante. Sempre quisemos, mas outros trabalhos iam pintando. Eu não esperava que fosse em 2020, porque eu estava programado para atuar em outros projetos neste ano. Muito menos que fosse acontecer nesse momento e fazendo algo que é uma novidade para todo mundo.

Fomos descobrindo juntos como fazer, em casa, com dois filhos, tocando todas as fases. Eu já trabalho muito em casa escrevendo, mas agora tudo passou a acontecer aqui: texto, prova de figurino, filmagem, edição, lançamento. Isso é mais uma novidade.

Confesso que já vivi, no confinamento, uma gangorra de sensações e sentimentos. Num dia, a gente acorda mais para baixo, no outro está tranquilo. Num dia, não quer sair do quarto, noutro, está querendo malhar pela internet. É uma loucura. Com o projeto, eu já vivi isso também: logo que ele foi aprovado, eu fiquei muito feliz e, depois, tenso pelo desafio. Hoje, estou muito animado, achando muito legal o que realizamos.

E é um trabalho com uma equipe envolvida, mas todo feito remotamente, tanto na produção quanto na sua atuação com o restante do elenco. Quais foram os desafios para colocar esse projeto, que, do início ao fim, acontece durante o isolamento, no ar?

Bruno
Da minha parte, a única coisa que já era feita assim, de casa, e que eu faço muito, é o texto. De resto, tudo foi novidade para mim. Desde uma prova de figurino por chamada de vídeo, com a figurinista olhando meu armário e montando o Murilo com o meu guarda-roupa, até o gravar e editar em casa.

Gravar com os filhos aqui, com a vida real seguindo… Olha, desafio não faltou. Adaptamos a nossa casa e, ao mesmo tempo, adaptamos algumas coisas no texto também para coisas que a gente tinha aqui. Não estávamos nos Estúdios Globo, onde um cenário, por exemplo, é construído de acordo com a necessidade do texto. Aqui foi o contrário.

O que fizemos se pareceu um pouco com o teatro, em que o ator também é o contrarregra. Tem ainda o desafio da dramaturgia: não teve uma fuga, uma cena ali na esquina, não teve um personagem que chega. Usamos tudo aqui de dentro, nas nossas possibilidades, mas sem poder usar um efeito especial, por exemplo. E esses desafios tornaram esse trabalho ainda mais prazeroso e animador.

Você se envolveu na escolha do elenco?

Bruno
Fomos pensando juntos. É um elenco muito em casa, são pessoas muito próximas, a gente se frequenta. Próximas a mim, ou à Joana ou aos dois. Curiosamente, finalmente contracenei com a Nanda (Fernanda Torres), depois de um fazer texto do outro.

E tive a honra de fazer cenas pela primeira vez com Arlete Salles e Renata Sorrah, que estão entre minhas atrizes preferidas. Com Nanda e Lucinho (Lúcio Mauro Filho), o fato de termos total intimidade ajudou muito. E, finalmente, realizei o desejo de contracenar com Debi (Débora Bloch), mesmo que em condições completamente diferentes das de um set normal.

Você já atuou algumas vezes em obras escritas por você. Durante a escrita, já se imaginar como o personagem facilita o processo? A experiência como ator ajuda a escrever?

Bruno
Nesse caso, das crônicas, me ajuda muito. Vou colocando na minha embocadura. Como eu também atuo, vou escrevendo, lendo, interpretando e já vou colocando numa embocadura próxima do natural de falar. Eu penso como eu falaria.

Uma tragédia real

De maneira geral, o humor funciona como uma espécie de crítica social. Em “Diário de um Confinado” não é diferente. Mas, até em função do momento que toda a população brasileira vive, o tom melancólico virou uma característica marcante do programa, apesar do olhar cômico.

“A melancolia é uma característica que eu gosto muito, porque, para mim, caminha junto. O humor vem de uma tragédia, e o que a gente está vivendo é uma tragédia”, avalia Bruno Mazzeo.

Para o autor e protagonista, “a maneira de escrever, a maneira de produzir, os roteiros, as soluções são o grande diferencial desse projeto. E como a gente solucionou as impossibilidades em todos esses setores, inclusive criativamente na dramaturgia”, explica.

Essas condições também determinaram outro fator importante de “Diário de um Confinado”: os episódios curtos. “Pelo formato possível, a gente não podia fazer uma coisa muito longa. Por isso, tive de ir mais direto ao assunto, mais direto na graça”, argumenta.

União de forças

Se tem algo que Bruno Mazzeo valoriza nesse momento de pandemia do novo coronavírus é a união familiar. O ator e autor garante que as crianças ficaram extremamente contentes por terem, em tempo integral, a companhia dos pais. “Eles nunca têm a oportunidade de estar só com pai e mãe o tempo todo, como tem acontecido”, conta.

Mesmo assim, algumas dificuldades pesam. “Trabalho, as tarefas domésticas, eu com meu filho mais velho longe, a Joana longe dos pais… Acho que isso também fez a gente ficar muito unido, nos ajudando e convivendo harmonicamente”, diz Bruno, que passou o próprio aniversário confinado, no dia 3 de maio, quando completou 43 anos.

Instantâneas

  • Bruno é filho do falecido humorista Chico Anysio e da atriz Alcione Mazzeo, irmão dos comediantes Nizo Neto e Lug de Paula e primo da diretora Cininha de Paula e do ator Marcos Palmeira.
  • Bruno e Joana estão juntos desde 2012, mas foi em 2017 que os gêmeos José e Francisco, filhos do casal, nasceram.
  • Bruno também foi casado com Renata Castro Barbosa, entre 2004 e 2008, com quem teve seu filho mais velho, João, hoje com 15 anos.
  • Um dos criadores de “Os Filhos da Pátria”, série da Globo, Bruno revelou no ano passado que pensa em uma terceira temporada para o projeto utilizando Brasília como cenário.