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Consciência Negra

Consciência Negra no meio cultural de Americana

Artistas e profissionais atuantes em Americana comentam sobre o racismo sentido através de olhares, a esperança de dias melhores e a importância de figuras desconsideradas pela Fundação dos Palmares

Por Isabella Holouka

19 nov 2020 às 09:05 • Última atualização 19 nov 2020 às 09:27

Em uma sociedade praticamente estruturada sobre mais de três séculos de escravidão, com comportamentos ainda marcados pela violência do racismo, artistas e profissionais negros que atuam na área cultural resistem aos olhares de estranheza e desaprovação, garantindo seu espaço ao provar competência.

Às vésperas da data em que é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, o LIBERAL buscou profissionais do setor cultural para dividirem suas trajetórias e opiniões sobre o racismo na atualidade.

Aos 44 anos, Ronaldo Britto é produtor cultural, ator, diretor e escritor, além de primeiro secretário do Comcult (Conselho Municipal de Cultura) de Americana. Ele afirma que o racismo nem sempre aparece como um “um falatório”, mas sim com olhares.

Ronaldo Britto: Esperança nas novas gerações – Foto: Ernesto Rodrigues / O Liberal

“Eu não entendo se é um olhar assim ‘nossa, que legal, um afrodescendente à frente de tudo isso aqui, isso é interessante’ ou um olhar tipo ‘como assim? Ele é negro! Como ele tem tanto potencial assim?’”, conta.

Ator e diretor de teatro do GTT (Grupo Teatral Talento) e do Espaço Cultural Fábrica das Artes, de Americana, com experiência de mais de 25 anos no teatro e mais de 10 anos dando aulas, Marcelo Porqueres, de 43 anos, comenta que as pessoas negras precisam constantemente provar o seu valor.

“Eu tive que provar para mais de uma pessoa branca que eu sou capaz. Hoje em dia eu trabalho com a arte e sou artista, já conquistei o meu espaço, mas é uma luta constante para buscar e mostrar que o negro e a negra são muito inteligentes e não precisam se diminuir perante a sociedade”, afirma ele, que também diz perceber o racismo no olhar das pessoas.

Cantora Sandra Rodrigues: maior representatividade – Foto: Divulgação

De Piracicaba, mas conhecida em Americana pelo “Samba da Maria”, em bares da cidade, a cantora Sandra Rodrigues, de 55 anos, conta que o preconceito é dobrado contra os artistas negros, mas diz que tenta reagir com suavidade.

“Eu quero entender mais as pessoas, dar a oportunidade de elas viverem a alegria que nós vivemos, de sorrir da forma como sorrimos, e enxergar a luz que a gente enxerga. Eu sinto e desejo isso. Mas nós sofremos muito sim, e amigos da gente também, principalmente pela nossa profissão”, conta.

Apesar disso, ela acredita que a união entre o povo negro está aumentando, bem como a representatividade nas diferentes esferas culturais. A opinião é compartilhada por Ronaldo, que defende o incentivo às novas gerações de artistas pretos e acredita que a mentalidade das crianças de hoje em dia é mais evoluída quando o assunto é racismo.

“A garotada está crescendo e, com a internet, quando o pai fala alguma coisa sobre alguma etnia, elas discordam. As crianças estão nos defendendo”, opina Ronaldo.

Sobre a data em alusão à Consciência Negra, ele se diz contrário ao feriado, mas afirma que é preciso intensificar o debate racial no país.

“O que está faltando na escola é o mês da Consciência Negra. Eu sou contra o feriado, para deixar bem claro. Mas acho que as escolas têm que ter um movimento sobre a história do país. Foi construído pelos nossos afrodescendentes. Seria legal a escola trabalhar um pouco mais em cima disso”, defende ele.

Professor e coordenador da escola municipal de música “Heitor Villa Lobos”, Valterci Hulkinho afirma que o atual governo federal faz um constante desserviço à população em geral, em especial à população negra.

Ele cita como exemplo a decisão da Fundação Palmares de retirar da lista de personalidades negras que marcaram o Brasil nomes como Gilberto Gil, Elza Soares, Milton Nascimento, Leci Brandão, Martinho da Vila, Sandra de Sá e Zezé Motta, divulgada no perfil de Sérgio Camargo, presidente da instituição, no último dia 10.

“Ele comete um grande erro ao publicar no Diário Oficial da União que só poderiam ser homenageadas pessoas mortas. O país já absorveu a história dessas pessoas e isso é o mais importante. A história não esquece”, diz.

“Eu, como descendente afroameríndio, digo que ele não representa o movimento negro, apesar de ser negro. Foi uma nomeação à revelia, sem consulta às bases e movimentos. É uma pessoa desinformada, a serviço de algo que não entende ainda”, opina.

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