Região entra na rota dos filmes de suspense psicológico com “Máscaras”

Rodado em Limeira, filme “Máscaras” traz elementos subjetivos por meio da fotografia, trilha-sonora e roteiro


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Que uma nova safra do suspense psicológico vem se consolidando no cinema não é novidade. Em 2018, o reconhecimento maior veio com o Oscar para o roteiro de “Corra!”. Meses depois “Um Lugar Silencioso” e “Hereditário” conquistaram grandes bilheterias ao redor do globo. Mas, agora, chegou a vez do gênero ganhar assinatura e proximidade física com a região. Até o dia 19 deste mês, o americanense Andre Camargo dirige o filme “Máscaras” em uma chácara situada em Limeira, nas proximidades do limite com Americana. O Liberal esteve nos bastidores das filmagens do longa-metragem e mostra desafios da equipe de direção e elenco durante os trabalhos, a preocupação do uso da técnica a favor da mensagem a ser transmitida e o trabalho de desenvolvimento de personagens pelo elenco.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
Atores e equipe técnica em intervalo das filmagens que ocorrem em casarão da cidade de Limeira durante este mês

O enredo gira em torno do encontro que o filho de um casal separado organiza com os pais em uma casa de campo da família, a única das locações da produção. Para esta reunião, o pai leva sua atual namorada e a mãe é acompanhada por seu namorado. “E durante esse encontro, na união dessa desunião, começam a surgir alguns conflitos do passado e algumas coisas vão vindo à tona. Tem uma atmosfera de suspense o tempo todo. Então a gente está em um tic tac constante de que tem alguma coisa estranha para acontecer”, sugere Andre. A partir daí, relações familiares começam a se degradar e mostrar rachaduras nas máscaras sociais.

Um dos primeiros desafios enfrentados pela equipe, explica o diretor, foi o clima. Além do forte calor que prevaleceu na maior parte das filmagens, um dia antes da reportagem visitar o set, uma tempestade deixou a área sem energia e internet, o que atrasou o cronograma de filmagens em cinco horas. Uma situação que levou à necessidade de se intensificar ainda mais o ritmo, que já era forte, uma vez que a previsão inicial era gravar dez páginas de roteiro por dia (a média no meio cinematográfico é de cinco páginas).

Outro dos desafios é o encaixe das filmagens na agenda dos atores. Dois deles precisaram chegar após o início da produção, então a captação de material deles foi programada para ocorrer em uma linha cronológica diferente e de forma mais comprimida.

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Veronica Valois, que interpreta Helena, mãe do protagonista Ramiro e ex-mulher de Sérgio, aponta como principal desafio a construção da relação psicológica que tem com o filho

Grande segredo. Veronica Valois, que interpreta Helena, mãe do protagonista Ramiro e ex-mulher de Sérgio, aponta como principal desafio a construção da relação psicológica que tem com o filho, um dos pontos chaves para a trama. “Helena é uma mulher reprimida, mas que por fora se demonstra forte através da sua máscara, através dos seus gatilhos, para poder se relacionar e manter um segredo muito grande que ela tem”, avalia a atriz, que faz estreia no cinema, mas tem experiência no teatro e é cantora.

Já Pedro Moutinho, que interpreta Sérgio, pai de Ramiro, aponta que certa comparação com vivências pessoais acaba sendo inevitável. “Acho que o primeiro material de pesquisa é essa memória da experiência do próprio ator, ou pelo menos foi assim que eu comecei a trabalhar aqui”, revela o ator, que tem mais de 25 peças no currículo.

Filme busca transmitir mensagens via detalhes

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal.JPG
Ritmo de produção tem sido intenso em casarão localizado entre as cidades de Limeira e Americana

Um dos principais objetivos de equipes de direção cinematográfica, ao chegar ao set de filmagens, é conseguir transmitir a mensagem do roteiro não apenas por meio das interpretações do elenco, mas também por meio de escolhas técnicas, como uma lente específica para cada ambiente, um tipo de enquadramento ou uma trilha sonora. Esses tipos de rimas visuais povoam o filme “Máscaras”, que o diretor americanense André Camargo está filmando em uma chácara localizada em Limeira, até o dia 19 deste mês, com roteiro assinado por James Salinas.

Filmagens de um lago, de uma bomba d’água e reprodução intermitente do barulho deste equipamento foram alguns gatilhos escolhidos pelo cineasta para criar a ambientação de seu suspense psicológico baseado em um encontro que o protagonista organiza com seus pais, que são separados, e os atuais companheiros deles. Uma reunião que culmina em revelações do passado e o afloramento de tensões latentes. “Aos poucos, esses poucos pedaços subjetivos vão se encaixando, e deixam aberto para pelo menos umas três leituras que você pode ter. Além do conceito de que cada personagem, de fato, traz uma máscara consigo. Esteticamente é muito importante a gente trabalhar com essa união de signos”, conta André.

A intenção é que as subjetividades inseridas permitam até que o espectador possa encontrar novas significações ao assistir o filme pela segunda vez, após conhecer a revelação principal da trama, em seu desfecho.

“A gente trabalhou com muita luz vermelha, nada muito marcado, porque o filme já tem uma pegada não muito realista. E eu não gosto de exageros, de gore, sangue só quando necessário. A realidade, às vezes, traz estranhezas suficientes pra gente”, explica o diretor.

SIGNIFICADO. Outro membro da equipe com a responsabilidade de denotar significados por meio da imagem é Isiel Miranda, diretor de fotografia. “A gente está trabalhando com uma câmera Red Epic-W. Uma câmera que tem um sensor de cinema, filma em 8K. É uma câmera que é utilizada nos grandes filmes de Hollywood. A câmera, realmente, é um diferencial. Aí, nós temos um restante de equipamentos para movimentação de câmera, tem plano com grua, com travelling, tem bastante plano com câmera na mão, porque o filme tem essa dinâmica de ter momentos mais densos, em que a câmera mexe, treme”, detalha Isiel.

Ele conta que seu pensamento tem de ser sempre em criar o clima, transmitir o sentimento da cena, daquele plano, enquadramento, para o espectador. “Então, tem cenas no filme que pedem alegria. O início do filme é um filme alegre, você nem sabe que é um filme de suspense, é um filme normal. Então, a gente vai trabalhar com a iluminação que mostre isso. De repente, no decorrer do filme, as coisas vão ficando mais densas, então, mesmo cenas diurnas internas, você vai percebendo que elas estão mais escuras”, revela. Outra escolha para os momentos de tensão são as tomadas em locais menores e fechados, para transmitir sensação claustrofóbica. “A casa representa mesmo uma carga negativa no filme”.

Trama evidencia jogo de aparência entre pessoas

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O ator paulistano Pedro Moutinho faz o pai do personagem principal do filme

Ator que interpreta Sérgio, pai do protagonista Oscar e ex-marido de Helena, o paulistano Pedro Moutinho avalia que a trama tem como um de seus principais diferenciais expor o jogo de aparências que existe em qualquer meio social. “Quando você está em casa com seus pais, você se comporta de uma maneira, quando você está no bar com seus amigos, você se comporta de outra, se está em um ambiente profissional vai se controlar de uma outra maneira. E algumas pessoas, às vezes, têm comportamentos secretos surpreendentes”, reflete.

Relacionar-se e entender as diferentes faces de sua personagem, Helena, foi um dos trabalhos de desenvolvimento de personagem da atriz baiana Veronica Valois. Principalmente no que diz respeito ao relacionamento conturbado de Helena com seu filho, Oscar.  “Eu tenho um instinto maternal, sou baiana, que é uma sociedade com um matriarcado muito forte. As mulheres são muito protetoras, leoas, guerreiras, então é muito distante da minha realidade, do dia a dia. Tenho certeza que para a personagem Helena é um conflito muito grande”, conta.

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