Locadoras: Os últimos dos moicanos

Em meio à ascensão do streaming, locadoras de filmes e games se mantêm apostando em lançamentos mais baratos e serviços agregados


O ano era 1999. Para devolver o filme tinha de rebobinar a fita VHS. Se alugasse dois na sexta-feira, devolvia na segunda ou terça-feira. Era preciso prestar atenção se estava alugando a fita dublada ou a legendada.

Nessa época, com 21 anos, Wilson Aparecido de Oliveira vendeu seu carro para comprar um estoque de VHS de uma loja que estava fechando. Estava realizado um sonho de infância: ter sua própria locadora de filmes e jogos de videogames.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Wilson vendeu um carro para comprar estoque de filmes em VHS quando montou locadora, em 1999

Um dos “heróis da resistência” do ramo, ele chega neste mês há 20 anos de atividade com a Veneza Vídeos, que hoje fica na Avenida da Amizade, em Santa Bárbara d’Oeste e tem um estoque de 5 mil DVDs, 600 Blu-Rays e 200 jogos. Uma longevidade que a grande maioria dos outros estabelecimentos não teve.

“Chegou a ter 12 comércios do gênero só nessa região do Jardim Europa, Parque Gramado, Parque da Liberdade e Jardim da Paz. Todo mundo saiu do serviço e falou: ‘vou abrir uma locadora’. Tinha uma grande concorrência”, relembra. Ele estima que toda a cidade de Americana chegou a ter 30 comércios exclusivos para a locação de filmes e games.

O tempo passou, veio o DVD, o Blu-Ray, os downloads piratas e, finalmente, os serviços de streaming, o que derrubou unidades de grande porte na região.

“100% Vídeo, Mega Mil, foi tudo fechando. No dia que fechou a 100% Vídeo meu coração entristeceu. Aí que caiu minha ficha e pensei: ‘está acabando’”, conta o comerciante.

Atualmente, Wilson calcula que seu volume de locações é 70% menor que no começo. Fã de filmes de ação com Jean-Claude Van Damme, Silvester Stalone e Arnold Schwarzenegger, ele não baixou a guarda e decidiu lutar com as armas que ainda tem às mãos.

“O que mantém a gente são os lançamentos. ‘Aquaman’ não tem na Netflix. Aqui chegou ontem [quarta-feira]. Por exemplo, tem plataforma digital com locação dos filmes de lançamento, mas você vai lá e tá R$ 14,90, R$ 16,90. Aí vem aqui e aluga por R$ 4,50. Blu-Ray é R$ 6”, compara.

“O custo é muito caro para ter um pacote daqueles lá [de aluguel digital]”, avalia o calheiro Willian Rocha Rodrigues, de 35 anos, que aluga no local desde os 15 anos.

Outros serviços

Wilson, que estima ainda ter 500 clientes cativos, também agregou outros serviços, como sorveteria, venda de peças de aparelhos eletroeletrônicos e prestação de assistência técnica para videogames.
“Eu espero sobreviver mais uns cinco anos trabalhando com filmes. Aí, depois, vou ter que me adaptar. Invisto só no sorvete ou manutenção e venda de jogos”.

E não é o único a agregar os serviços. Um amigo seu aluga filmes em sua loja de roupas. A Prefeitura de Americana revela que 38 estabelecimentos da cidade ainda têm em seu registro a atividade de “locação de filmes” (é possível ter mais de uma).

Em Santa Bárbara d’Oeste, são mais quatro além da Veneza, detalha a administração municipal.

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