Giordana e sua aula de arte e política


Marco Tullio Giordana terá um dia agitado nesta quinta, em São Paulo. Pela manhã, às 11h, ministra uma masterclass no Espaço Itaú de Cinema e, à tarde, apresenta no mesmo cinema a exibição da primeira parte de A Melhor Juventude (a segunda será na sexta). Ele está de volta à cidade que conheceu nos anos 1990, quando veio prestigiar Pasolini – Um Delito Italiano na Mostra. Na quarta, encontrou-se à tarde com a reportagem do ‘Estado’. Estava relaxado, apesar da longa viagem desde a Itália. A versão restaurada de O Melhor da Juventude é uma atração muito especial da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano que começou na quarta, 7, e até dia 21 deve rodar por 16 cidades brasileiras.

La Meglio Gioventú é de 2003. Além de seu longa sobre o assassinato de Pier Paolo Pasolini, Giordana já colhera outro grande sucesso internacional, inclusive aqui mesmo no Brasil, com Os 100 Passos, baseado em outra história real, a do assassinato de um político siciliano idealista pela Máfia. Giordana sempre gostou de embasar suas ficções na realidade. Escreve quase tudo o que filma, menos O Melhor da Juventude.

“O filme me foi proposto como série de TV, e eu tenho de admitir que, de cara, disse não. Não acreditava muito nesse formato de drama para TV, mas principalmente o que me fez recusar foi que a série teria seis horas, quatro episódios de 1h30 cada. Muitos personagens, muito tempo de filmagem. Não queria me comprometer por tanto tempo. Mas os produtores insistiram e me tranquilizaram quanto a aspectos essenciais. Temia, numa estrutura de televisão, não ter tanta liberdade, mas tive. Eles até me permitiram, num material que não era originalmente meu, fazer algumas mudanças que considerava necessárias.”

Como já ocorrera com 1900, de Bernardo Bertolucci, O Melhor da Juventude foi a Cannes, apresentado em duas partes. “Até tentamos cortar, mas seria impossível. O filme passou em duas partes de mais 3 horas cada. A versão para cinema é um pouquinho maior que a de TV, mas cortei uma cena da qual gostava muito, em que Adriana Asti, como a velha mãe, está morrendo. Nunca contei a Adriana que fiz isso com ela.”

O Melhor da Juventude conta a história de dois irmãos, interpretados por Luigi Lo Cascio e Alessio Boni, Nicola e Matteo. Envolvem-se com a terrorista Giulia/Jasmine Trinca. O filme atravessa 40 anos da história italiana, saltando de quatro em quatro anos. Eventos reais são ficcionalizados. “Lá pelas tantas comecei a achar que era muita desgraça para uma família só. Cada episódio tinha um atentado, uma grande explosão. Mas o público adorou, e a crítica também.”

Até por trabalhar para TV – naquele tempo não havia as telas de home video, enormes; as pessoas viam no que se chamava de telinha -, Giordana trabalhou muito com planos próximos, de detalhe. “Mostro um rosto em primeiro plano e um pedaço do fundo, o que (Sergio) Leone fazia bastante. Mostrava pedaços de corpos, de rostos. Nada disso era frequente, mesmo na linguagem televisiva, mas o público terminou por se acostumar, e no cinema aquilo foi visto como ousadia.”

Esse desejo de ser um cronista da grande História tem origem no cinema italiano do pós-guerra, nos grandes mestres do neorrealismo. Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica. Embora a Itália tenha abraçado o fascismo, seus grandes autores, mesmo um católico como Rossellini, eram de esquerda. Mesmo fazendo um cinema de denúncia, político, Giordana nunca se sentiu de sinistra/esquerda.

“Sou mais um conservador, mas o que quero conservar é uma cultura italiana que cada vez mais está sendo aviltada, negligenciada. Somos um país com uma história muito rica. Muitas igrejas, muitos museus que testemunham nosso passado, e sinto que estamos a ponto de perder essa tradição. É nesse sentido que sou conservador.” A Operação Mãos Limpas, que inspirou a Lava Jato, não lhe inspira nenhum grande comentário, mas “daria um filme polêmico”.

Quando jovem, seu sonho era ser pintor. Venerava o artista figurativo anglo-irlandês Francis Bacon. No começo dos anos 1970, foi a Paris para ver uma grande exposição de seu trabalho. “Conhecia-o só de fotos, e ao ver aquelas telas dei-me conta de que nunca seria um grande pintor.” Dramático, chegou a pensar em se matar. Procurou uma ponte do Sena, de onde se jogar. Viu um burburinho. Uma filmagem. Aproximou-se, e viu que as pessoas falavam italiano. Quem é, perguntou? “Bertolucci, que faz um filme.” Era Último Tango em Paris. Giordana achou que aquilo poderia fazer. Fez muito bem. O fato de estar em São Paulo para uma masterclass é prova disso.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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