Duras de matar, as heroínas de Besson


Só mesmo Luc Besson para fazer do mundo da moda a fachada para uma trama violenta de espionagem. É o que ele propõe em seu novo longa, Anna – O Perigo Tem Nome, em cartaz nos cinemas. Estrelado por Sasha Luss, é a história de top russa que esconde um segredo. Na verdade, é uma agente do governo russo numa missão secreta em Paris. Ao comprar o ingresso, a única coisa que você precisa saber é que Anna foi muito bem treinada para esse confronto entre KGB e CIA, que Besson situa nos anos 1980, num momento crítico da Guerra Fria. As mulheres de Besson não são fatales nem meros objetos de desejo em pancadarias levadas por machos violentos. Têm ‘camadas’. Anna é das mais complexas.

Criado na Grécia por pais franceses que eram instrutores de mergulho de um Club Mediterranée, Besson desde cedo aprendeu a amar o mar. Transformado em cineasta, um de seus primeiros sucessos – em 1988 – foi justamente a Imensidão Azul. Há mais de 30 anos, ele faz um cinema espetacular, grandioso – e que os críticos se esmeram em odiar. Mesmo assim, há que reconhecer em Besson um fazedor de sucessos, com uma queda pela ficção científica (O Quinto Elemento) e a ação.

Só que – e esse é o toque europeu -, ele não é atraído somente por heróis (Leon, O Profissional), mas também por heroínas. Fez de Anne Parrillaud uma mulher treinada para matar – La Femme Nikita -, e o filme ganhou uma versão em Hollywood (A Assassina), estrelada por Bridget Fonda. Mais recentemente, dirigiu Scarlet Johansson em Lucy, e o filme, particularmente execrado pela crítica – até para os padrões de Besson -, misturava duas tendências, ficção científica e espionagem, propondo uma espécie de interpretação para a gênese de Hal 9000, o computador do clássico 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Lucy, ou a incrível história da mulher que virou computador.

Mesmo que o cinema industrial tenha banalizado o choque tempo-espaço – que esculpiu o imaginário de um grande da cinematografia francesa, Alain Resnais -, Besson ainda consegue surpreender. Em vez de revelar de cara o mistério de Anna, ele recorre ao choque de tempo para ir mostrando aos poucos quem é essa mulher. Como foi treinada e como chegou à posição em que agora se encontra. Essas camadas evocam as matrioscas, bonecas russas que vão sendo retiradas umas de dentro das outras.

No roteiro escrito pelo diretor, Anna é esmiuçada a partir da aparência. A modelo secreta, a espiã da KGB, esculpida na menina órfã. E, a despeito de sua aparente fragilidade, ela é treinada para superar com sua força interior os momentos de fraqueza. Nesse sentido, consegue ser mais forte do que qualquer homem – os personagens interpretados por Luke Evans e Cillian Murphy – que cruza seu caminho.

De forma muito interessante, a trama fornece os elementos para se entender a prisão psicológica em que Anna se sente. Ao se rebelar, tudo o que ela faz é para adquirir autonomia. Anna quer ser livre, como qualquer mulher empoderada dos tempos modernos. No processo, ganha algumas ajudas inesperadas, como a da rainha Helen Mirren, sua superior hierárquica – Olga – na agência russa de espionagem. E é tudo, menos objeto. No passado, sofreu abuso, mas agora, nem na condição de modelo, para não levantar suspeitas, ela se deixa usar – a cena em que constrange o fotógrafo é exemplo disso.

Besson, que já foi casado com Milla Jovovich, é atraído pelo feminino, mas não por mulheres fracas. Prefere as fortes. Na ficção, elas são sempre poderosas – Milla, Anne, Scarlett. À lista, soma-se Sasha Luss, uma top russa que o diretor transformou em estrela. O filme é bem divertido como espetáculo de ação. Só existe um senão. Para um homem que celebra tanto as mulheres, Besson vem sofrendo, na trilha aberta pelo movimento #MeToo, sérias acusações de assédio e até estupro. Cinco mulheres, incluindo uma atriz, uma ex-assistente e duas ex-funcionárias da empresa produtora EuropaCorp, que ele criou, o levaram à Justiça. É como se o feitiço do empoderamento que Besson estimula na ficção se voltasse contra ele na realidade, mas cabe ressaltar que ele nunca aceitou acordo e briga para provar sua inocência.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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