‘Downton Abbey’ e a arte dos diálogos ferinos


Sem querer entrar em litígio com fãs de uma e outra, as séries Downton Abbey e Game of Thrones viraram referências. Uma fantasiosa, a outra mais realista – em termos. Mas ambas mostrando casas/reinos divididos.

Downton Abbey virou filme que estreou em plena Mostra. Dá para entender perfeitamente sem ter assistido a nenhum episódio. A experiência é muito interessante. Pelo menos na sessão de domingo à noite no Center 3, a plateia era formada predominantemente por espectadores mais maduros. Muitos pares – gays e heteros. Todo mundo rindo com as tiradas ferinas do roteiro de Julian Fellowes e a excelência do elenco para esgrimir frases epigramáticas.

Downton Abbey nasceu de uma encomenda do produtor Gareth Neame a Fellowes, depois que ele ganhou o Oscar de roteiro original por Assassinato em Gosford Park, de 2001. O filme de Rolbert Altman, um dos melhores do diretor, passa-se numa mansão no campo, onde convivem os habitantes de cima – a aristocracia – e os de baixo – a criadagem. Há um fluxo, e até intercurso quando as relações tornam-se íntimas. Instado por Altman, Fellowes promoveu uma espécie de encontro entre Jean Renoir, a dinâmica social e a luta de classes de A Regra do Jogo, e o mistério à Agatha Christie, pois há um assassinato e, consequentemente, suspeitos – quem matou?
Não há assassinato em Downton Abbey – O Filme, mas diversos personagens, de ambos os andares, cometem transgressões que poderiam colocá-los em dificuldades. O plot gira em torno dos efeitos de uma carta que chega nas primeiras cenas – o palacete dos Crawley foi escolhido para abrigar – por uma noite – o rei e a rainha, que estarão viajando pela região.

O fato vira um caso que provoca alvoroço. Da criadagem à nobreza, recepcionar a família real vira uma questão de honra, mas é tudo muito complicado. A cozinheira, o mordomo, o valet de Downton Abbey não são considerados dignos de servir ao rei. O protocolo da corte o obriga a viajar com seu staff. Cria-se uma conspiração para deixar esse pessoal de lado, permitindo que a criadagem de Downton Abbey brilhe.

Há uma velha rixa entre a matriarca dos Crawley e uma prima que serve à rainha. Abrigá-la em casa talvez ajude a resolver o desentendimento, que se baseia no direito a uma herança. Mais do que na luta de classes, que aflora aqui e ali, o roteiro de Fellowes aposta no entendimento de opostos. Até o republicano vira monarquista e ajuda a salvar a realeza, tudo em meio a requintes cenográficos e de interpretação. O apogeu é um baile, como em O Leopardo, mas o diretor Michael Engler não é nenhum Luchino Visconti. Isso não retira o prazer que é ver a grande Maggie Smith, como a matriarca. E o filme ousa, com cenas LGBT quando sexo entre iguais era crime na Inglaterra.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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