De Contagem para as telas, os corpos periféricos


Eles são todos de Contagem, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Maurílio Martins e Gabriel Martins, apesar do nome, não têm parentesco. Moram em bairros próximos, Lorena e Milanez. Affonso Uchôa, de Arábia, mora ali perto, André Novais Oliveira, de Temporada, do outro lado da cidade, também numa área periférica. Como garotos de origem modesta, numa região que não tinha nem cinema – agora, tem -, tornaram-se cineastas? Autores?

Contagem ganhou o mundo por meio de seu cinema e hoje a Film Comment, para citar um exemplo – a revista do Lincoln Center, de Nova York -, segue os passos especialmente de Uchôa. Vai ter de seguir também os dos irmãos (de alma) Martins, de André.

Estreou na quinta-feira, 1.º, No Coração do Mundo, escrito e dirigido por Maurílio e Gabriel, com Grace Passô. A voz e a vez da periferia – um filme de gênero, mas não de terror. Assalto, faroeste. Trem bão demais da conta, como dizem os mineiros. Nesta terça, 6, após a sessão das 19h30 no IMS, Instituto Moreira Salles, haverá debate com os realizadores. Imperdível.

No Coração do Mundo nasceu da admiração de Maurílio e Gabriel pela Nova Hollywood, e por William Friedkin. Essa é a origem que o filme tem, digamos, na cinefilia, mas contou muito também a história que os diretores ouviram de um vigia, sobre o assalto a um condomínio.

Essa história compõe a trama central, o golpe engendrado pela personagem de Grace Passô. O repórter não se furta a elogiá-la. É uma atriz extraordinária, de Belo Horizonte, e, como quase todo o elenco do filme, não se encaixa num modelo dominante de beleza. “Nenhum de nós”, ressalta Maurílio. “Trazer esses corpos periféricos, que durante tanto tempo foram rejeitados ou segregados pelo audiovisual brasileiro, especialmente na TV, é muito gratificante. E a Grace é muito potente, é magnética. No final do filme, você não duvida nem um pouco que a personagem tenha feito tudo aquilo.”

A pergunta permanece – como esses garotos viraram cineastas? “Venho de uma família religiosa, a TV era proibida. Lia muito sobre os filmes que não podia ver. Só consegui ver o Touro Indomável já adulto. Um professor de História, secundarista, mostrou Ilha das Flores, de Jorge Furtado, na aula. Nem sabia que existia filme curto, mas pensei, até de forma arrogante, que aquilo eu conseguiria fazer.” Estava nascendo um cineasta.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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