Câmera na mão e resistência: saídas para a falta de verbas

Em meio à falta de incentivo público e crise da Ancine, cineastas da região filmam com elencos sem cachê, locação emprestada e projetos colaborativos


Em 2008, uma onda de deslumbramento pairava pelo setor do audiovisual da região de Campinas. Com um investimento de quase R$ 100 milhões, Paulínia inaugurava seu Polo Cinematográfico e ensaiava se tornar a “Hollywood Brasileira”. Em 2010, chegou a ter dez filmes rodados com sua estrutura e incentivo. Criou um festival que atraía estrelas nacionais e internacionais. Mas o tempo passou e o projeto foi abandonado.

“Paulínia não tem mais nada, morreu, sobrou só a gente aqui”, desabafa o cineasta Flávio Carnielli, que para driblar a falta de incentivo público, busca parcerias privadas diretamente, elencos que trabalham sem cachê e locações emprestadas.

Foto: Divulgação
Após anos de “fartura” cinema nacional passa por dificuldades em um cenário político cheio de incertezas

Predominante nas produções da sétima arte filmadas na região, este tipo de trabalho colaborativo e com orçamento baixo exige criatividade.

Mesmo com a limitação de recursos, Flávio teve seu curta “Boneca” selecionado para o BUT Film Festival, que ocorrerá na Holanda.

“Acredito que, no final das contas, produzir sem dinheiro público seja um gesto político, uma resistência”, afirma o cineasta.

Com a Ancine (Agência Nacional do Cinema) paralisada e até rumores de que ela possa ser extinta, há quem já acredite em crise, como Thiago Luciano, que já atuou em novelas da Globo e agora está dirigindo o filme “O Segundo Homem”, que tem parte das cenas sendo filmadas em Sumaré.

“É um cenário meio assustador, todo mundo massacrando a lei de incentivo sem saber o que ela gera, quanto é rentável para o País”, defende.

Ele também recorreu à iniciativa privada para viabilizar “O Segundo Homem”. “A gente vai criando alternativas fora do padrão”, afirma André Luís Camargo, ator e cineasta de Americana que iniciou o planejamento de seu terceiro longa.

Direção coletiva

Assim como outros dos diretores em atividade na região, para se manter na ativa no cenário independente o diretor americanense André Luís Camargo tem apostado em um modelo colaborativo de produção. Com isso já planeja seu terceiro longa-metragem no ano.

Enquanto nos dois anteriores, “Máscaras” e “Amor, Confuso Amor”, usou um formato de crowdsourcing (no qual a equipe recebe conforme o lucro da produção), em seu novo projeto, “O Que Mora ao Lado”, a ideia é criar uma trama que se passa em oito andares de um prédio e que a história dos moradores de cada apartamento seja filmada por diferentes cineastas, que para participar precisam contribuir com uma parcela de despesas do longa.

“É um investimento de nove diretores e a equipe técnica vai estar recebendo dentro do que a gente vai levantar. A ideia surgiu realmente desse momento tão difícil de se produzir cinema no Brasil. Foi uma forma criativa que a gente achou de ter uma produção na qual parte da equipe e da produção já receba e tenha uma contrapartida antecipada. Depois, a gente vai definir ainda como vai ser a lucratividade para o diretor e esses profissionais envolvidos”, conta o cineasta.

Foto: Divulgação
André Luís nas filmagens de ‘Amor, Confuso Amor’

O tipo de formato, segundo ele, possibilita prezar pela qualidade e conteúdo autoral, saindo do padrão de comédia que vem sendo o predominante no grande circuito quando o assunto são longas-metragens nacionais.

Em relação ao roteiro, a intenção é que cada andar tenha um gênero definido, seja suspense, drama ou comédia. O nono diretor vai dirigir o zelador do prédio, que será o elo de ligação entre os condôminos.

“Ele vai fazendo a vistoria nesses apartamentos e vai apresentando a história de cada personagem e os conflitos de cada um. A gente já falou com alguns diretores e tem tido um interesse muito rápido”, acrescenta André. A escolha de uma única locação também se dá para enxugar o orçamento.

O roteiro de “O Que Mora ao Lado” é assinado por James Salinas, um dos sócios do projeto, junto com Bárbara Mascarenhas. “Eles [diretores associados] vão ter uma liberdade mínima de talvez mudar alguns diálogos, mas a narrativa já está estruturada e pronta. Cada um vai imprimir seu estilo dentro de uma história pré-determinada. Eles não vão poder mudar a sequência dos eventos dentro da narrativa”, ressalta o diretor.

A intenção do americanense é criar ao menos mais dois projetos colaborativos nestes moldes no futuro, porém com cenários mais requintados. Um deles seria uma ficção científica. O outro, possivelmente, vai ser baseado no curta “Lux”, do próprio André Luís, que tem como base o uso da luz como elemento do mal, possuindo atores durante uma produção.

“Vão ser algumas histórias no mesmo ambiente, no mesmo momento, talvez em alguns pontos da cidade, com a luz intervindo de alguma forma negativa na vida dessas pessoas. Aí tem todo um porquê de como surgiu esse elemento do mal através da luz, em uma história construída no século 18”, conta.

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