Alegoria de ‘Dogville’ chega ao palco

A premissa do filme "Dogville", do cineasta dinamarquês Lars von Trier, de 2003, é - após o barulho de tiros…


A premissa do filme “Dogville”, do cineasta dinamarquês Lars von Trier, de 2003, é – após o barulho de tiros à distância – a chegada repentina da misteriosa e paradoxal personagem Grace (interpretada por Nicole Kidman) na cidade fictícia Dogville. Tom, um habitante local, oferece ajuda à recém-chegada para tentar inclui-la na comunidade. Por ora, essa “vila canina” ainda não mostrou seus dentes.

Quando escrevo literatura, penso com insistente frequência no território de Dogville – seu espaço cênico é uma espécie de mapa (da pequena cidade “nas montanhas rochosas dos Estados Unidos”) composto por plantas baixas minimalistas marcando ruas e residências; uma espécie de mapa desenhado em branco, giz?, no chão negro: onde atores-personagens aparecem inseridos.

Dentro da cenografia radical, dentro do estilo particular, a arte escancara-se arte: a proposta de Lars von Trier, subvertendo verossimilhanças, quebra imediatamente qualquer expectativa de encontrarmos, na tela, um espelho perfeito da plateia; ao mesmo tempo, em contexto ficcional, emergem os sentimentos mais humanos e contraditórios possíveis, emergem situações presentes em nossa vida e sociedade.
Compaixão e raiva; melancolias, ambições; relações de trabalho, difíceis decisões coletivas; proteção e punição; estupros, vinganças e assassinatos.

Pensar na cidade Dogville, durante páginas em preenchimento, está relacionado, suponho, às diferentes perspectivas – incontornáveis – entre autor e personagens e, a posteriori, leitores.

Há, no jogo narrativo, sombras e luzes que, simultâneas, revelam-se e escondem-se para um ou para outro. Elementos que podem funcionar feito as marcações delimitando ambientes (que existem, mas não existem): onde pessoas (que respiram, mas não respiram) aparecem inseridas.

Zé Henrique de Paula, diretor da adaptação brasileira para o teatro de “Dogville”, que estreia nesta segunda-feira, 5, no Rio de Janeiro, no Teatro Clara Nunes (e em São Paulo, no Teatro Porto Seguro, em 25 de janeiro de 2019), é arquiteto de formação. Para manter o impacto da cenografia, segundo o diretor, “o ponto de vista foi quase invertido”. Ao passo que o filme flerta com a linguagem teatral, Zé Henrique foi instigado por Felipe Lima, idealizador do espetáculo, a “fazer com que o espectador assistisse a uma peça que flertasse com a linguagem cinematográfica.”

Há, portanto, diversos instantes em que determinados atores – incorporando certa estética rudimentar, através do figurino opaco, espesso, desbotado – contracenam com projeções pré-filmadas; ou instantes em que captações ao vivo, por exemplo, exibem closes concomitantes aos acontecimentos do palco.

Entrecruzando linguagens, o espaço cênico da cidade – mapa com plantas baixas -, tão impressionante no filme, transforma-se em telas e cadeiras. Uma cadeira para cada cidadão de Dogville. Catorze cidadãos; acrescenta-se a forasteira Grace (interpretada por Mel Lisboa) e um narrador, que deixa de ser John Hurt, em off, para integrar o elenco e materializar-se ao redor da mobília. De repente, as cadeiras são dispostas simulando o interior de uma igreja; de repente, criando, no imaginário, uma fila de macieiras.

Para Zé Henrique, a dinâmica “vai ressignificando a própria cadeira, dando vida nova a esse objeto”. Sem o cenário realista, “pronto”, estimula-se a cognição espacial do espectador. “É uma peça de raciocínio, embora possa haver momentos de catarse.” E, no âmbito quimérico, raciocínio ou catarse, capítulo a capítulo – feito uma partida de xadrez em que todas as peças, progressivamente, ficam em xeque -, intercalam-se e emaranham-se várias vozes.

Enquanto a protagonista Grace, ambulante interrogação, oculta elementos biográficos significativos; Chuck (Fabio Assunção) pode ser encarado como seu contraponto, o polo oposto na tensão dramatúrgica. Talvez Chuck seja o personagem mais áspero, com a personalidade mais violenta, em Dogville; talvez, o mais honesto em relação à própria personalidade.

Características evidentes desde a obra de Lars von Trier, que foram incorporadas pelos atores brasileiros; mas, também, com experiências de expansão. Tanto pelo fato de o roteiro original conter, de acordo com Felipe Lima, “lugares de abertura para inovações”, quanto porque a direção orientou que os atores não assistissem ao filme. “Para caminharmos com liberdade”, explica Assunção. “Ninguém reviu o filme no início do processo”, completa Mel Lisboa.

Sobre a dificuldade de transportar para o teatro uma das interpretações mais fortes de Nicole Kidman, e uma das personagens mais icônicas do cinema recente, Lisboa afirma ter percebido “que o simples fato de ser teatro – a linguagem teatral (mesmo tangenciada pela cinematográfica) – faz com que a emissão da voz e o trabalho de corpo sejam distintos; nota-se que, em Kidman, é tudo sussurrado, miúdo, calcado no detalhe. Não se consegue fazer isso em teatro. Basta uma questão de linguagem para modificar a personagem.”

Dentre os polos da tensão dramatúrgica, permeado por microdilemas individuais, oscila Tom (Rodrigo Caetano) e o microcotidiano ambíguo da cidade. Caldeirão para que a “vila canina”, capítulo a capítulo, dentes à mostra, comece a morder. Nesse ponto da montagem – além do brutal primeiro estupro da trama – duas cenas relacionadas destacam-se: o menino Jason, com traços masoquistas, chantageia Grace para que ela o espanque (a solução do espancamento funciona muito bem); e Vera (Bianca Byington), mãe de Jason, revida, simbolicamente, destruindo objetos dos quais Grace gosta (criados com as cadeiras-curingas).

Próximos ao sopé da ladeira, prosseguiremos observando tal trágico tabuleiro; e é inútil alimentarmos ilusões: nada restará, para Dogville, exceto o xeque-mate. No entanto – mais do que o filme, do que o território do filme, que dialoga, na forma, com minha produção literária -, a peça compeliu-me à seguinte dúvida: de modo imprevisível e incontrolável, o conteúdo de Dogville poderia relacionar-se com a circunstância política e social do Brasil contemporâneo?

“Acredito que Dogville”, diz Fabio Assunção, “seja uma das possibilidades que existem na sociedade. Mas a sociedade é mais ampla. Acredito que aqui, Dogville é uma cidade onde não há esperança.” Bastante sutil, pela frase, demonstra-se o envolvimento do ator com seu personagem; afinal, não estávamos na pequena cidade fictícia: conversávamos no café do Teatro Núcleo Experimental, após um dos últimos ensaios antes da estreia.

E Assunção finaliza: “Em Dogville, é o caos total. É a perversidade escorada na fragilidade do outro. No Brasil, contudo, ainda há esperança: lutamos por uma política na qual acreditamos, tentamos valorizar o ser humano. E há vários lugares, várias cidades no Brasil; hoje, algumas são Dogvilles – outras são Hairs; é muito grande, o Brasil, para comprarmos peça e realidade, como se fosse apenas isso.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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