‘Adeus à Noite’ traz Deneuve como avó de garoto que abraça a causa da Jihad


Em sua oitava parceria com a estrela Catherine Deneuve, André Téchiné volta-se para um tema visceral – a radicalização política e religiosa que está no centro dos talvez maiores cataclismos atuais.

Catherine interpreta uma avó e Muriel ainda é uma bela mulher, como a própria atriz, de 75 anos. Possui uma fazenda de criação de cavalos, uma escola de equitação. Tudo nos conformes, e aí chega o neto, que vem se despedir. Diz que está indo para o Canadá, mas Muriel o surpreende fazendo suas orações. Descobre que ele se converteu ao islamismo e, na verdade, está partindo para a Síria, para se integrar à Jihad muçulmana.

LAdieu à la Nuit, Adeus à Noite, título do filme, dialoga muito bem com Meu Filho Querido, do tunisiano Mohamed Ben Attia, um dos mais belos filmes lançados este ano no País. O de Ben Attia era sobre um pai desesperado que seguia a trilha do filho na Síria, depois que o garoto partia, sem sequer dizer adeus. Se pudesse, ou se soubesse dos planos do jovem, ele muito provavelmente faria o mesmo que Muriel – teria, a qualquer custo, tentado impedi-lo de partir. Para complicar, no de Téchiné, o neto se apropria de dinheiro da avó para entregá-lo ao grupo que financia os jihadistas e, com isso, a narrativa ganha uma dimensão de thriller.

Deneuve, na coletiva do filme, em fevereiro, em Berlim – Adeus à Noite concorreu ao Urso de Ouro -, disse que não via nada demais, em sua idade, em interpretar uma avó. Como atriz, os anos de A Bela da Tarde ficaram para trás.

Encarar o tempo não é uma dificuldade – difícil é expressar o sentimento dessa avó. “É um dilema hamletiano que ela vive. Ao impedir o neto de partir, ela pode achar que está agindo certo, mas o está impedindo de viver a vida dele, de ser ou não ser o que quer.” E Téchiné: “Esse filme nasceu de um mal-estar profundo. Cresci meio isolado, numa pequena cidade do sul da França, numa família de ascendência espanhola. Era como se a gente vivesse num feudo. Foi o cinema que me fez descobrir o mundo, e a cidadania, primeiro como crítico, depois como diretor. Sempre gostei desses personagens que não se integram e carecem de pertencimento, porque eu próprio muitas vezes me senti assim”.

Intelectual de formação católica e marxista, ele naturalmente se interessou pelas questões dos refugiados e imigrantes, dos povos do Magreb na França. “Como todo mundo da minha geração, sofri com todos esses ataques da Jihad, que colocam à prova noções de humanidade e tolerância. Tentava me informar, manter atualizado. O filme nasceu da convergência de vários fatores. Havia esse desejo de entendimento, mas creio que fundamental foi o livro de David Thomson, Les Français Jihadistes, feito de entrevistas com jovens que aderiram à causa islâmica e à Jihad. São diálogos muito crus, muito diretos, que ficaram comigo. Comecei a pensar se seria capaz de criar uma mise-en-scène para eles, se seria possível transformar esse material de reportagem em ficção cinematográfica. E foi assim que o filme começou a nascer.”

O que realmente lhe interessava era entender a psicologia desses jovens. “Numa era de tanto individualismo, eles elegem o sacrifício. Morrer por uma causa – por quê?” Embora a palavra dos jovens tenha lhe fornecido o impulso inicial, Téchiné explica seu ponto de vista. “Sentia que só conseguiria ser honesto adotando o olhar de uma pessoa da minha geração, e foi assim que Muriel se foi delineando. Antes mesmo de contatar Deneuve, sabia que teria de tê-la nesse projeto. Conheço Catherine há muito tempo e conheço sua inquietação. Nisso somos iguais – gostamos de arriscar, de nos renovar. É um tema perigoso, e sabia que teria de contar com ela.” E Téchiné disse mais: “Foi, de nossa já longa colaboração, o filme em que mais exigi de Catherine. Espero que não tenha sofrido muito (Ela retrucou que não foi nada que não pudesse aguentar).

Muriel é muito forte no seu lado profissional, mas é vulnerável no afetivo, em relação a esse neto que desconhece. Era o que queria colocar na tela, e sem carregar na boa consciência da nossa geração. Esse filme não é para dizer como somos melhores.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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