Série traz amizade sem preconceito


Por volta de 2012, a designer Maria Elisa Soto-Aguilar rabiscava, em Santiago, o desenho de uma viola e um tambor dotados de pernas e olhos. Na mesma época, em Porto Alegre, o arquiteto Gabriel Garcia lutava para materializar Ed (2013), o primeiro curta-metragem do Hype – até então, um estúdio focado em produzir maquetes em 3D para o mercado imobiliário.

Mal sabiam os dois que, cerca de cinco anos depois, seus caminhos acabariam se cruzando para dar vida à animação Viola e Tambor, coprodução entre Brasil e Chile que estreia nesta terça-feira, no canal por assinatura Disney Junior.

“Achamos que seria uma forma simples de mostrar como esses personagens, muito diferentes um do outro, são melhores amigos e realmente se complementam”, explica Maria Elisa. “Desde então, houve algumas mudanças, mas a essência do que queríamos se mantém a mesma.”

Foi justamente essa simplicidade que fez com que Garcia se apaixonasse pelo projeto em 2017, quando, durante uma viagem de férias ao Chile, visitou o Punk Robot, estúdio fundado por Maria Elisa em parceria com a prima Antonia Herrera, com quem divide a direção de Viola e Tambor, e os sócios Gabriel Osório e Pato Escala.

Naquele momento, o estúdio chileno havia acabado de receber o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação – além de outros 60 reconhecimentos internacionais – por A História de Um Urso, que ilustra a vida nos tempos da ditadura de Augusto Pinochet. O curta-metragem Ed (2013), por sua vez, tinha sido exibido em 33 países, selecionado para 105 festivais, recebido 28 prêmios e lançado o nome do agora Hype.CG no mercado internacional de animação.

“Eu conversei com o Paco, que gostou muito do nosso trabalho. Quando ele mostrou a série que eles estavam começando a desenvolver, foi amor à primeira vista, e ali começou um namoro”, brinca Garcia, que, tão logo voltou da viagem, já tratou de substituir por Viola e Tambor um outro projeto para o qual estava tentando financiamento pelo programa ProCult, do BNDES. A alteração não só foi aprovada como agilizou o processo de captação da verba, visto que o estúdio chileno já tinha 20 episódios da série prontos. A parceria foi tão frutífera que rendeu outros 32 episódios de 5 minutos – 12 a mais do que o planejado inicialmente.

“Graças à nossa parceria, pudemos crescer e produzir mais episódios, então estamos muito felizes e animados com a chance de expandir e atingir uma maior audiência no Brasil”, celebra Maria Elisa.

Enquanto os estúdios brasileiros têm o privilégio de contar com a Lei da TV Paga, a qual estabelece que os canais de TV por assinatura devem exibir pelo menos três horas e meia semanais de conteúdo brasileiro, sendo metade produzido por produtora nacional independente, os chilenos não podem dizer o mesmo.

“O mercado de animação no Chile está crescendo, mas ainda é relativamente pequeno. Temos muito conteúdo ótimo sendo criado e desenvolvido localmente, mas, infelizmente, não há muito suporte de entidades privadas ou governamentais”, lamenta Maria Elisa. “Nós temos algum suporte financeiro do Conselho Nacional de Televisão (CNTV), mas ainda falta um canal público para crianças ou alguma lei de cotas, então é difícil conseguir tempo de tela em nosso país”, completa Antonia.

O sucesso da colaboração entre os dois países latino-americanos reitera o mote da série, que, conforme o nome indica, acompanha as aventuras cotidianas da dupla de amigos Viola e Tambor em um universo povoado por instrumentos musicais.

“Viola e Tambor é sobre mostrar como nossas diferenças nos tornam especiais e nos empoderam para construir um mundo melhor”, explica a diretora Antonia Herrera. “A ideia por trás da série é que cada instrumento musical tem um som único, mas, quando vários se unem, são capazes de produzir uma linda melodia.”

Voltado para o público pré-escolar (de 3 a 6 anos), o programa trabalha temas como aceitação, empatia e respeito de forma divertida e simples, buscando gerar identificação nas crianças e ajudá-las a desenvolver as habilidades emocionais necessárias para conviver em harmonia em um mundo repleto de diversidade.

“A série se passa em um universo de instrumentos musicais, mas, no meio deles, tem também a personagem Abacaxi, que é uma fruta. Mesmo sendo de um universo quase à parte, ela está ali, dança, canta e é amiga de todo mundo”, exemplifica Garcia. “Também consideramos importante ter uma presença equilibrada de personagens masculinos e femininos, criando situações com que tanto meninos quanto meninas podem se identificar, evitando estereótipos e preconceitos de gênero. Encaramos como uma oportunidade de fazer algo com um impacto positivo na vida de uma pessoa jovem, então é uma grande responsabilidade”, completa Antonia.

Além da animação, que estreia nos outros países da América Latina no dia 30 de janeiro de 2020 e estará disponível também na plataforma de streaming Disney+, também estão previstos o lançamento de um canal no YouTube com videoclipes exclusivos e o desenvolvimento de um jogo educativo para celular.

“Como estamos falando de instrumentos musicais e temos uma mensagem muito forte de aceitação à diversidade, a nossa ideia é, de algum jeito, inspirar crianças a ter o primeiro contato com instrumentos musicais pelo nosso aplicativo”, finaliza Gabriel Garcia.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora