Ricardo Pereira: Em algum lugar do passado

Como o Almeida de “Éramos Seis”, Ricardo Pereira reforça trajetória recente marcada por tipos de época


Pode-se dizer que os personagens de época viraram uma constante no trabalho de Ricardo Pereira. O ator, que interpreta o desquitado Almeida em “Éramos Seis”, vem praticamente emendando trabalhos no gênero desde 2013, quando integrou o elenco de outra novela das 18h da Globo, “Joia Rara”.

“Eu até brinco que, se meu próximo trabalho for muito contemporâneo, já não saberei fazer. Acho que teve ‘A Regra do Jogo’ no meio, mas foram muitos trabalhos de época em um curto período de tempo”, reconhece.

Foto: Divulgação / TV Globo
Surgiram rumores de que Ricardo Pereira estava planejando a mudança de sua família para Portugal; o ator tratou de desmentir os boatos

Os conflitos dos personagens, no entanto, têm sempre mudado. Desta vez, é justamente o fato de ter se separado da primeira mulher a principal questão do vendedor de tecidos. Afinal, o divórcio no Brasil só foi legalizado em 1977 e a trama se encontra agora nos anos 1930.

Na história, Almeida é apaixonado por Clotilde, papel de Simone Spoladore, irmã de Lola, vivida por Gloria Pires. Sua amada, no entanto, não aceitou o fato de ele não poder se casar com ela. “A sociedade nos impõe algumas regras e olhares críticos demais. Acho que temos de fazer as nossas escolhas, porque só temos uma vida. Precisamos entender o que é melhor para nós, sem aquela preocupação com o que os outros pensam”, defende.

A versão do SBT de “Éramos Seis”, que serve como base para a atual, foi exibida em Portugal. Você chegou a ver?

Ricardo Pereira
Vi isso agora, no Youtube. Talvez eu até tenha assistido, mas não me lembro. Eu era muito fã das telenovelas daqui. “Roque Santeiro”, por exemplo, eu gravava em fitas para assistir com meus pais. E sem imaginar que, um dia, eu estaria fazendo parte disso.

Você sequer sonhava com a carreira de ator?

Ricardo
Não. Eu era atleta de judô, não pensava nisso. Adorava estudar, fiz faculdade de Psicologia. Só que comecei a trabalhar com moda e viajei o mundo assim. Amava desfilar, mas queria fazer mais. Quando rolavam comerciais, eu via que curtia. Uma amiga era atriz e pedi para me levar em um workshop. Dali, fui para o teatro e gostei. Começou uma carreira lá, isso aos 18 anos.

Você completou 40 anos recentemente. Como se sente?

Ricardo
Muito de boa. Eu achava que teria uma crise de idade. Há muitos anos, estava com meu pai, no quarto dele, enquanto ele pendurava um quadro que dizia: “A vida começa aos 40”. Nunca esqueci. Foi chegando e, hoje, nossos 40 não são os mesmos de outra época. A gente consegue ter uma noção mais importante de saúde e, embora as cobranças sejam enormes em relação ao trabalho, você precisa se encontrar no seu universo.

Eu procuro desacelerar, mesmo sendo workaholic, mas consigo ter tempo na vida pessoal. Me sinto bem, realizado, tendo bastante trabalho e com uma família que me completa. Cheguei bem, quero me cuidar para poder continuar acompanhando a minha família com a mesma intensidade e disponibilidade.

Você já tem uma carreira internacional, visto que nasceu em Portugal, trabalha tanto aqui quanto lá e ainda participa de projetos em outros países da Europa. Pensa em expandir ainda mais esse alcance?

Ricardo
Trabalho no cinema francês, espanhol, holandês, italiano, mas isso é meio óbvio. Tive oportunidades de ser chamado porque Portugal é um país próximo desses e isso abriu portas para experiências em outros lugares. Quero viver isso ainda nos Estados Unidos, mas minha casa é o Brasil, minha base é essa e é a minha prioridade hoje. O mundo é global.

Com esse currículo extenso que você já tem, sente que falta algo em sua carreira?

Ricardo
Sempre falta. Tanta gente com quem não trabalhei! Às vezes, estou em casa e consigo a tevê da sala para mim – porque, com três filhos, isso é complicado (risos) – e é nesses momentos que vou ver séries e filmes brasileiros. Aí, começo a analisar atores, diretores, pessoas com quem eu começo a querer muito trabalhar. O Calloni, por exemplo, tenho trabalhado mais com ele e isso tem sido ótimo. Com a Gloria eu já tinha atuado. Mas eu sinto que falta tanta gente ainda para eu conhecer.

O sotaque é realmente algo resolvido para você ou improvisar em português do Brasil ainda é mais difícil?

Ricardo
Todo dia, em casa, eu falo português de Portugal. Acho que o público pode pensar que já me esqueci, mas não é assim. Minha mulher é portuguesa, minha mãe vem aqui e fica comigo, então não tem como esquecer. Mas, no trabalho, eu aqueço antes. E mesmo o improviso já sai. Só que eu continuo trabalhando a prosódia.

Instantâneas

# Ricardo está no Brasil desde 2004, quando protagonizou a novela “Como uma Onda”, na Globo.
# Nesses 15 anos de trabalhos por aqui, chegou a atuar na Record, na novela “Prova de Amor”.
# Depois de 10 anos morando na capital fluminense, Ricardo recebeu, em 2014, o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro.
# Sua primeira novela foi na RTP, emissora portuguesa, em 2001. O título do folhetim era “A Senhora das Águas”.

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