Público anseia pelo imponderável

Propostas e públicos mais abrangentes para interagir de forma mais íntima com o telespectador


“Adaptação” foi uma expressão amplamente utilizada pela televisão em 2018. Na linha de shows, os significados passearam pelo poder de adaptar ideias antigas a um contexto atual, as táticas para adequar formatos de fora ao mercado brasileiro, a força de profissionais experientes em adaptarem suas linguagens e continuarem relevantes ou a total inabilidade de se adaptar aos novos tempos. Sucesso desde os anos 1950, a “Escolinha do Professor Raimundo” mostrou que é possível reciclar um humorístico sem perder a essência.

Em um ano onde Marcos Mion voltou aos holofotes por conta de um ótimo desempenho em “A Fazenda”, da Record, e Tatá Werneck driblou os concorrentes e beijou diversos convidados na melhor temporada do “Lady Night”, do Multishow, é possível entender que o público anseia pelo imponderável. Foi esse tom surpreendente que fez com que a terceira temporada do “Shark Tank Brasil”, do Sony, buscasse propostas e públicos mais abrangentes, tudo para interagir de forma mais íntima com o telespectador e mostrar o poder de fogo das produções da tevê paga.

Foto: Divulgação
Lady Night é um dos sucessos de 2018 na televisão brasileira

Programa com o viés nobre de arrecadar fundos para a Associação de Assistência à Criança Deficiente, o “Teleton 2018” foi palco de atitudes que evidenciam que o retrocesso do SBT vai além de suas eternas reprises.

“Escolinha do Professor Raimundo”: Bela homenagem a Chico Anysio

A ideia mais bem-sucedida do Canal foi o “remake” da “Escolinha do Professor Raimundo”. No ar desde 2015 e produzido em parceria com a emissora, o humorístico logo ganhou prestígio entre o “casting” global, escalando atores como Marco Ricca, Matheus Solano, Ângelo Antônio e Marcos Caruso, nomes disputados internamente e que fazem questão de participar do projeto. O destaque afetivo fica por conta da atuação eficaz de Bruno Mazzeo como Raimundo, personagem antes vivido por seu pai, o genial Chico Anysio. “Melhor Produção Humorística”

“Altas Horas”: De volta ao jogo

Poucos programas de tevê respeitam tanto seu auditório como o “Altas Horas”. Célebre vencedor desta categoria na lista de “Melhores e Piores de TV Press” – venceu de 2001 a 2015 -, o programa apresentado por Serginho Groisman passou os últimos dois anos em baixa. Além do conteúdo fraco, a produção parecia querer se adequar a um estilo popularesco que não é bem o seu forte.

Por fim, ao longo de 2018, Groisman parece ter recolocado o programa nos eixos. Além de uma série de entrevistas especiais com figuras que pouco abrem suas vidas, como o apresentador Fausto Silva e o rabino Henry Sobel, a pluralidade musical do “Altas Horas” foi devidamente retomada. “Melhor Programa de Auditório”.

“Lady Night”: Beijo cômico

O criativo e frenético “Lady Night”, do Multishow, chegou para mostrar que o humor ainda é a melhor “arma” para transformar uma simples entrevista em um evento de entretenimento. Sob o comando de Tatá Werneck, a produção é completamente livre de amarras, apresenta quadros totalmente incomuns – caso do “Conversa com Especialista” – e deixa os convidados falarem realmente o que pensam.

Mérito de Tatá, que não tem qualquer receio em abordar assuntos espinhosos com seus convidados, como a fama de prepotente de Susana Vieira e as personagens extremamente sensuais de Juliana Paes. Para completar, Tatá também tascou diversos beijos na boca de seus convidados, uma intimidade despretensiosa e que rende grandes momentos. “Melhor Programa de Entrevista”

“Shark Tank Brasil”: Ideias certas

Importado do Japão pelo canal Sony, em 2016, o “Shark Tank Brasil” demorou a engrenar no Brasil. O esquema é bem simples: um pequeno empreendedor mostra suas ideias a um grupo de empresários com disposição e dinheiro para fazer o negócio crescer. Se a proposta for aprovada, a sociedade está formada.

A diversidade falou alto na terceira temporada da competição e soluções para a mobilidade urbana. A equipe de roteiristas entendeu que não adiantava apenas “jogar” as ideias para o público, e o programa ganhou um tom mais sedutor e informativo, valorizado pela presença de Erick Krominski nos bastidores. “Melhor Programa de Competição e/ou Reality Show”

“Mais Você”: Fogo amigo

Ana Maria Braga e seu “Mais Você” já passaram por diversos momentos de “altos e baixos” dentro da emissora. A ponto de ter perdido espaço na grade para a estreia de Fátima Bernardes no entretenimento, em 2012. Boa de lábia, com mente empreendedora e ciente de seu público, Ana Maria Braga resolveu evitar picuinhas internas e melhorar o antes estagnado conteúdo de seu programa.

Com a culinária em alta, o “Mais Você” deixou pautas de comportamento descabidas e o jornalismo sensacionalista de lado e investiu em diversas competições gastronômicas de anônimos e famosos. O resultado foi aumento na audiência e prestígio interno. À vontade, Ana também passou a ser mais natural na condução da produção, ficando em paz com suas gafes e exageros. “Melhor Programa de Variedades”

Marcos Mion: Volta por cima

A Record não explicou muito bem a razão de tirar o “Legendários” do ar, no final de 2017. Quem apostou que esse seria o fim de Marcos Mion na tevê aberta, errou feio. Escalado para apresentar uma “nova” versão do “reality” “A Fazenda”, Mion mostrou todo seu poder de adaptação como comunicador. Diferentemente da postura mais sisuda de outros nomes que já passaram pela competição, o apresentador abraçou o “reality”.

Foi forte nos momentos necessários, se emocionou com os participantes e fez as críticas que achou cabíveis a cada nova eliminação. Com um time de subcelebridades bom de briga, o programa acabou conquistando a audiência perdida ao longo dos anos e boa repercussão elevou o prestígio de Mion dentro da Record. “Melhor Apresentador”

As gafes do “Teleton 2018”: Improviso errado

Maratona televisiva em prol da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente -, o “Teleton” é exibido pelo SBT desde 1998 e mantém seu formato intacto. Durante dois dias de programação ao vivo, recebe boa parte do elenco da “casa”, além da participação de nomes de outras emissoras, cantores, bandas e celebridades diversas. Sem um roteiro muito elaborado, o programa deixa boa parte de sua exibição sob a responsabilidade do improviso.

Com isso, é comum que algumas gafes sejam transmitidas sem qualquer filtro. Raul Gil protagonizou um momento sério de divergência com Maisa Silva, ao defender o Presidente eleito Jair Bolsonaro. Sem cerimônias, Maisa ignorou Raul e visivelmente incomodada, mudou de assunto e causou a fúria do experiente apresentador.

Por fim, Silvio Santos deixou a cantora Claudia Leitte totalmente desconcertada ao dizer repetidas vezes que seu vestido o deixava excitado. “Momento Bizarro 2017”

Silvio Santos: Patrão sem graça

Do alto de seus 88 anos, Silvio Santos parece não querer parar de trabalhar. Considerado por muitos como divertido e espontâneo, há tempos que as piadas de Silvio ultrapassaram o limite do bom senso. Cheio de preconceitos e extremamente machista, o alvo preferido de Silvio são as mulheres e os gays.

Ao longo do ano, o pretenso humor politicamente incorreto do apresentador foi utilizado para ridicularizar a cantora “drag” Pabllo Vittar e o promoter David Brazil no quadro “Jogo das Três Pistas”. Em outro momento, ironizou a forma física da cantora Preta Gil, que ficou visivelmente constrangida. Entre uma “piada” e outra, Silvio deixa claro que, apesar de sua importância histórica como comunicador, sua aposentadoria é mais que necessária. “Destaque negativo – Personalidade”

“Os Melhores Anos das Nossas Vidas”: Passado enfadonho

Importado da tevê italiana, “Os Melhores Anos das Nossas Vidas” tem todos os ingredientes para conquistar a audiência: um apresentador carismático, elenco de caras conhecidas e a temática saudosista que pode transportar o telespectador para um período de boas lembranças.

Disputa entre décadas comandada por Lázaro Ramos e com integrantes do porte de Ingrid Guimarães, Lúcio Mauro Filho, Marco Luque, Marcos Veras e Rafa Brites, o grande problema da produção é a chatice.

Com estética cafona, humor milimetricamente planejado, roteiro totalmente “chapa branca”, dancinhas e muitas “caras & bocas”, nem mesmo as boas participações especiais ao longo da temporada salvaram a produção de ser um fiasco. “Destaque Negativo – Produção”

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