Novelas em 2018: pés no presente e olhos no futuro

Produções que apostaram no estilo clássico se destacaram no gênero em 2018


A teledramaturgia tenta acompanhar os novos tempos. Seja através de uma temática que dialogue com questões contemporâneas, pela estética ou a partir de uma narrativa mais ágil. Mas não há tecnologia que substitua uma história bem-contada. Talvez por isso, produções que apostaram no estilo clássico se destacaram no gênero em 2018. As mais ousadas, no entanto, nem sempre foram compreendidas pelo público, como indica a eleição de “Melhores & Piores de TV Press”.

Um exemplo de novela que chamou atenção pela combinação entre personagens profundos, história bem construída, elenco azeitado e plástica no figurino foi “Orgulho e Paixão”. Por outro lado, “Segundo Sol”, que estreou cheia de expectativas, amargou como “Pior Novela”.

Foto: Divulgação / TV Globo
Orgulho e Paixão

Em alta nas plataformas de “streaming”, as séries também costumam fazer sucesso na televisão, mas ainda estão “tateando” para descobrir seu lugar nesse mundo tecnológico e veloz. Diante desse cenário, “Sob Pressão” conquistou a maioria das opiniões. Já “Treze Dias Longe do Sol” desmoronou junto com a história. Já nos canais fechados, “O Negócio” vem chamado atenção por sua qualidade desde a estreia, em 2013. Depois da quarta e última temporada este ano, a série protagonizada por Rafaela Mandelli, Juliana Schalch e Michelle Batista confirmou a preferência.

Algumas gratas surpresas no elenco das novelas fizeram toda a diferença. É o caso de Kéfera Bunchmann e André Dias, a Mariane de “Espelho da Vida” e o Groa de “Segundo Sol”.

Os dois se saíram tão bem em seus papéis que foram eleitos os melhores nas categorias “Atriz Revelação” e “Ator Revelação”, respectivamente. Ao mesmo tempo, Adriana Esteves brilhou mais uma vez como vilã de uma trama de João Emanuel, por sua debochada e malvada Laureta. Luana Borges_TV Press

“Orgulho e Paixão”: Época atemporal

O clima leve e romântico tomou conta do início das noites quando “Orgulho e Paixão” entrou no ar. Mas a novela escrita por Marcos Bernstein foi muito além do esperado para a faixa das 18 horas, conhecida por exibir tramas no estilo água-com-açúcar.

Baseada na obra da inglesa Jane Austen, a trama equilibrou a doçura de uma história de época com crítica social bem embasada. Sem radicalismos ou um discurso doutrinador cansativo, “Orgulho e Paixão” uniu o melhor que uma novela pode ter: boas tramas, estética adequada com o período retratado e personagens fortes, principalmente as femininas, que levantaram questões presentes até hoje. “Melhor Novela”

“O Segundo Sol”: Nada de novo sob o sol

Desde o sucesso de “Avenida Brasil”, João Emanuel Carneiro parece ter “perdido a mão” para escrever suas novelas. A obra mais recente do autor foi “Segundo Sol”. A princípio, o elenco de peso, composto por nomes como Adriana Esteves, Giovanna Antonelli, Deborah Secco e Vladimir Brichta, tinha tudo para atrair a atenção. Mas de nada adianta se a história não é envolvente.

Quando se deparou com aquele momento em que nada mais de novo poderia acontecer, João Emanuel optou por caprichar na enrolação para só oferecer as soluções definitivas de sua história no último capítulo. Mesmo assim, as cenas finais foram esquecíveis. Assim como as do meio da novela. E, pensando bem, as cenas iniciais também. “Pior Novela”.

“Sob pressão”: Realidade nua e crua

Ambientada em uma emergência pública do Rio de Janeiro, “Sob Pressão” aposta em cenas detalhistas de procedimentos cirúrgicos que são dignas de cinema, de tão caprichadas. Além disso, a narrativa, apesar de ágil, cria um envolvimento com os dramas narrados a cada episódio.

O roteiro bem amarrado de Jorge Furtado e a direção artística eficaz de Andrucha Waddington contribuem para o bom andamento, assim como o elenco azeitado. Na pele do protagonista Evandro, Júlio Andrade mostra versatilidade e, a cada trabalho, conquista mais espaço na teledramaturgia, ao mesmo tempo em que é generoso com os colegas de cena. “Melhor Série de TV aberta”

“Treze Dias Longe do Sol”: Distância segura

“Treze Dias Longe do Sol” tinha tudo para ser uma série daquelas em que é impossível tirar os olhos da tela. A forma como os ganchos entre os episódios era construída levava o telespectador a querer ver sempre o próximo. Na pele do protagonista, Selton Mello fez mais do mesmo, com uma voz sussurrante e trejeitos do Emanuel, personagem que interpretou em “A Indomada”, em 1997, e que parece não ter saído de seu corpo. Caso tivesse sido bem pensado, talvez o episódio final pudesse “salvar” todo o resto da história e justificar as situações. Mas nem para isso. “Pior Série de TV Aberta”.

“O Negócio”: Mundo do sexo

Falar do submundo da prostituição virou lugar-comum em séries, principalmente nas exibidas por canais fechados. Mas a HBO alcançou outro patamar com o lançamento de “O Negócio”, em 2013. A partir de uma estética elegante, a produção apostou no bom gosto para mostrar uma vertente do tema que ainda não havia sido explorada. Durante quatro temporadas, Rafaela Mandelli, Juliana Schalch e Michelle Batista interpretaram as protagonistas Karin, Luna e Magali. E não se deixaram acomodar em nenhum momento. “Melhor Série de TV Fechada”

“Pacto de Sangue”: Perdidos na noite

O “mundo cão” ganhou espaço com “Pacto de Sangue”, do Space. A proposta de falar sobre a violência no Pará é relevante, já que a maior parte das produções nacionais se concentra no já manjado eixo Rio-São Paulo. Protagonizada por Guilherme Fontes, que vive um jornalista ambicioso e aético, a série mistura tráfico de drogas, corrupção na mídia e rituais espirituais.

No fim das contas, as cenas que exploram a violência e a nudez ficaram bem acima do tom em sua grande parte. Pareciam estar ali para captar audiência a qualquer custo e não a favor da história. “Pior Série de TV Fechada”.

Kéfera Bunchmann: Fruto da internet

Do Youtube para a televisão. Esse seria apenas um resumo raso da trajetória de Kéfera Bunchmann até chegar ao elenco de “Espelho da Vida” como a venenosa Mariane. Ela enxergou na plataforma de vídeos justamente uma oportunidade de divulgar seu talento cênico. Acabou que a carreira de “digital influencer” tomou conta de sua vida.

Mas a alma de atriz permaneceu intacta. Tanto que ela esbanja carisma, naturalidade e confiança em suas cenas na novela das seis. Kéfera sabe exatamente como se portar no vídeo e consegue se despir da figura histriônica que os jovens se acostumaram a ver no Youtube. “Atriz Revelação”

André Dias: Tipo exportação

Quando André Dias apareceu pela primeira vez em “Segundo Sol”, houve quem pensasse que ele fosse realmente um ator de outro país. Na pele de Groa, amigo inseparável da protagonista Luzia, vivida por Giovanna Antonelli, ele esbanjou um sotaque islandês bastante convincente e, pouco a pouco, foi ganhando mais espaço na trama. Logo em seu primeiro trabalho de maior relevância na televisão, ele teve a oportunidade de integrar o elenco de uma novela exibida no horário mais nobre da Globo. E deu conta do recado com louvor. “Ator Revelação”.

Adriana Esteves: Avesso do avesso

Logo que “Segundo Sol” estreou, a presença de Adriana Esteves na pele da grande vilã da história levantou dúvidas. Afinal, a atriz ainda era bastante lembrada pela Carminha, de “Avenida Brasil”, outra vilã de João Emanuel Carneiro.

Mas ela soube se reinventar e provar que pode exercer de forma completamente diferente uma mesma função em tramas de um mesmo autor. Apesar de algumas semelhanças entre as personagens, como o humor sarcástico, Adriana não só apresentou um novo trabalho como roubou a cena com o passar dos capítulos. A atriz, mais uma vez, conseguiu dar vida a uma vilã que as pessoas amam odiar. “Melhor Atriz”

Cleo Pires: Espelho meu

Interpretar a si mesma é algo com o qual Cleo Pires já se acostumou. A cada papel que vive na teledramaturgia, a atriz se repete, dando a impressão de que a sua “persona” sempre se sobrepõe. E em “O Tempo Não Para” não é diferente. Na pele da vilã Betina, ela parece ter se preocupado apenas com a caracterização. Mas até isso causa um certo estranhamento.

O cabelo desconectado e a maquiagem amarronzada são os elementos que mais chamam atenção em Cleo na novela das sete. No que diz respeito à qualidade cênica, falta composição de personagem e naturalidade. Pior Atriz

Fábio Assunção: Fora da curva

A figura de Fábio Assunção costuma se sobrepor em relação aos personagens que interpreta. Mas o fato é que Fábio subverteu totalmente essa lógica quando deu vida ao Ramiro, em “Onde Nascem Os Fortes”.

Com um visual transformado por uma vasta barba branca que o distanciou dos galãs que sempre interpretou, o ator incorporou a personalidade de um coronel do sertão detestável. E com o passar dos capítulos, conseguiu até humanizar o personagem. Sua experiência e longa trajetória na televisão fazem diferença nessas horas. “Melhor Ator”

Luiz Fernando Guimarães: Sem graça

A comédia sempre dominou a trajetória de Luiz Fernando Guimarães. E foi interpretando tipos cômicos que ele construiu sua imagem na cabeça do público. Por isso, as expectativas de que ele vá arrancar risadas em qualquer produto em que esteja são altas.

Mas, logo nas primeiras cenas em que apareceu como o Amadeu, em “O Tempo Não Para”, elas não foram atendidas. O desconforto de Luiz Fernando salta aos olhos. Talvez o perfil do personagem não o tenha permitido extravasar o seu melhor. Ao mesmo tempo, ele parece não fazer muita questão de se empenhar. “Pior Ator”

Fabiula Nascimento: Baianidade sulista

O clima “paz e amor” da Bahia tomou conta de Fabiula Nascimento ao longo de “Segundo Sol”. A atriz curitibana incorporou o sotaque de sua personagem Cacau de forma natural. O jeito de falar fez toda a diferença para a construção do carisma da irmã de Luzia, protagonista de Giovanna Antonelli.

Mas a atriz foi bem além da prosódia e compôs um papel com nuances e complexidades. Ela entendeu perfeitamente a trajetória de Cacau, que começou como empregada doméstica e terminou como dona de um restaurante, e não se limitou a estereótipos “Melhor Atriz Coadjuvante”

Ary Fontoura: Medalhão de ouro

Quando um ator é bom, o tamanho do papel não impede que ele brilhe. É exatamente isso o que acontece quando Ary Fontoura entra em cena. Em “Orgulho e Paixão”, ele ganhou um personagem secundário: Afrânio Cavalcante, o Barão de Ouro de Verde. Mesmo assim, conseguiu roubar a cena.

O veterano soube construir um velho rabugento de forma divertida. Poderia ter soado caricato, mas ficou no tom perfeito da novela. Ary tirou proveito de sua extensa trajetória na teledramaturgia para driblar uma situação que poderia muito bem tê-lo atrapalhado. O personagem ficava o tempo inteiro em uma cadeira de rodas. Por isso, não tinha tanta mobilidade no cenário. Mas se apropriou do Barão a tal ponto que cresceu e “ocupou” todo o espaço com seu talento. “Melhor Ator Coadjuvante”

Marcos Bernstein: Volta por cima

Marcos Bernstein é a prova de que nem sempre a primeira impressão é a que fica. Depois de estrear como autor principal de novela na Globo com a estranha e confusa “Além do Horizonte”, ele ficou cinco anos sem tocar projetos de teledramaturgia na emissora. Mas o tempo lhe fez bem e Bernstein voltou com “Orgulho e Paixão”.

Livremente inspirado na obra da escritora inglesa Jane Austen, o autor conseguiu reunir tramas interessantes e personagens com profundidade em um horário que abriga histórias mais amenas. Mesmo sendo uma proposta de folhetim leve, houve levantamento de discussões contemporâneas, apesar de se tratar de uma trama de época. “Melhor Autor”

Amora Mautner: Toque de mestre

Já no seu primeiro episódio, “Assédio”, transmitido pela Globo, mostrou a intensidade da direção de Amora Mautner nas cenas. Inspirada no livro “A Clínica: A Farsa e Os Crimes de Roger Abdelmassih”, a série gira em torno do famoso ex-médico, especialista em reprodução humana, condenado por estuprar pacientes em seu consultório.

A crueldade das histórias exige delicadeza por parte de quem conta. E isso Amora demonstra ter de sobra nos trabalhos que conduz. Em “Assédio”, ela se apropria das sequências fortes para provocar reflexões no público, sem esquecer de detalhes técnicos e artísticos que deixam a produção com cara de cinema. “Melhor Diretor”

“O Sétimo Guardião”: Tijolo por tijolo

A cidade cenográfica de “O Sétimo Guardião” recebeu uma atenção especial por parte da Globo. Com 18 mil m², ela conta com 38 edificações que representam com riqueza de detalhes uma cidadezinha do interior de Minas Gerais. Capitaneada pela cenógrafa Anne Bourgeois, a cidade da novela é espaçosa e, no vídeo, parece até uma locação. Mas o ponto alto é a fonte.

São 7 metros de queda d’água e uma piscina que precisa ser aquecida, já que os atores mergulham nela. Além da “água milagrosa”, esse canário ainda conta com uma gruta com labirintos que não deixa a desejar para nenhuma gruta verdadeira. “Melhor Cenografia”

“Orgulho e Paixão”: Moda da época

A elegância das roupas do início do Século 20 foi fielmente reproduzida pelo figurino de “Orgulho e Paixão”. A equipe, liderada por Beth Filipeck, conseguiu reproduzir a personalidade de cada personagem através do figurino. Em uma trama feminista, era preciso diferenciar as motivações de cada uma das mulheres que faziam parte do núcleo central. Além do texto, as roupas tiveram suma importância nessa tarefa. “Melhor Figurino”

“O Sétimo Guardião”: Lá e cá

Logo nos primeiros capítulos de “O Sétimo Guardião” foi possível notar a presença de músicas antigas, como “Entre A Serpente e A Estrela”, de Zé Ramalho. A canção já havia sido parte da trilha sonora de “Pedra Sobre Pedra”, novela também escrita por Aguinaldo em 1992.

A trilha sonora também é composta por músicas atuais, como “Vim Pra Ficar”, interpretada por Iza. Esse contraponto entre o novo e o antigo cria uma mistura interessante entre as canções. “Melhor Trilha Sonora”

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!