Melhores e Piores: Baú revirado na teledramaturgia

"Éramos Seis", novela das 18h da Globo, é consagrada como a grande surpresa do ano na teledramaturgia


Muito se fala sobre novas tecnologias, com exigências de mais ação e originalidade nos folhetins, para fugir de tramas clichês. Mesmo assim, o clássico não perde seu valor. Prova disso é a eleição de “Melhores & Piores de TV Press”, que consagra “Éramos Seis”, novela das 18h da Globo, como a grande surpresa do ano no que diz respeito à teledramaturgia.

A novela, escrita por Angela Chaves, acertou justamente ao investir na história e na bela estética das décadas de 1920 e 1930 e ao fugir de grandes ousadias, muitas vezes incompreendidas – quando não mal executadas.

Foto: Divulgação
Éramos Seis

Coube à quinta versão televisiva do romance de Maria José Dupré, publicado em 1943, arrebatar as categorias “Melhor Figurino”, “Melhor Ator Coadjuvante”, para Cássio Gabus Mendes, “Melhor Ator”, para Antonio Calloni, “Melhor Atriz”, para Gloria Pires, e a mais cobiçada, de “Melhor Novela”. Calloni, aliás, pode se considerar vitorioso em outro quesito. Afinal, ele foi o protagonista da “Melhor Série de TV Aberta” da eleição, “Assédio”, da Globo.

Na contramão, sobrou para “A Dona do Pedaço”, também da Globo, cheia de situações inverossímeis, o título de “Pior Novela”, apesar de ter garantido vitória nas categorias “Melhor Atriz Coadjuvante”, com Paolla Oliveira, e “Ator Revelação”, com vitória de Rafael Queiroz. Outras produções não passaram despercebidas – para o bem ou para o mal, quando não os dois. “Verão 90” rendeu a Dandara Mariana a votação de “Atriz Revelação” do ano, mas colocou Isabelle Drummond, com tantos trabalhos elogiados em seu currículo, na posição de “Pior Atriz”.

Em “Bom Sucesso”, chama atenção o texto de Rosane Svartman e Paulo Halm, considerados os melhores autores do ano. “Órfãos da Terra” também ganhou destaque positivo, pela cenografia impecável. Mas Renato Goés não convenceu como o mocinho e termina 2019 como o “Pior Ator” eleito por “TV Press”. “Amor de Mãe” não teve tanto tempo para cativar a equipe, mas não sai sem nada: José Luiz Villamarim conquistou a equipe e se despede 2019 como o “Melhor Diretor” e a novela levou a melhor também na trilha sonora.

Melhor Novela: “ÉRAMOS SEIS”, DA GLOBO

Fórmula de sucesso

Apostar no que já deu certo pode ser um diferencial e “Éramos Seis” mostra isso. Apesar da trama central densa, o clima romântico, doce e muitas vezes singelo, cativa. Baseado na quarta adaptação do texto produzida para a tevê, de 1994, assinada por Silvio de Abreu, o remake de Angela Chaves conserva o que de melhor o original tinha: a saga de uma dona de casa que, diante de tantos problemas corriqueiros da classe média brasileira, tem apenas um sonho: a felicidade da família.

Além disso, a reflexão que a novela propõe remete a uma triste realidade: em quase um século, a sociedade brasileira evolui muito aquém do que deveria. Principalmente no que diz respeito às questões do universo feminino, presentes e discutidas até hoje.

Pior Novela: “A Dona do Pedaço”

Walcyr Carrasco pesou demais a mão na ingenuidade de sua mocinha, Maria da Paz, vivida por Juliana Paes, e nas maldades de Josiane, a filha amarga interpretada por Agatha Moreira. Em diversos momentos, a “cegueira” da boleira diante dos golpes que sofria parecia distante demais da realidade.

A ideia de criar vilões e heróis atípicos, como o matador que se transforma em mocinho e a quase freira que coleciona pecados capitais, foi boa. Mas os equívocos na trama central acabaram sobressaindo mais que algumas boas tramas paralelas.

Melhor Série de TV aberta: “Assédio”

A violência contra a mulher é um assunto que ganha cada vez mais destaque nos veículos de comunicação. E “Assédio” parece ter sido programada para ser exibida no momento certo.

Além do tema forte e de interpretações primorosas – favorecidas por um elenco que juntou nomes como Antonio Calloni, Adriana Esteves, Paolla Oliveira e Mariana Lima, entre muitos outros – a produção foi uma forma de se posicionar contra um problema que movimenta manifestações pelo mundo todo. E isso a partir de um cidadão tido como “de bem”. Mas, principalmente, com uma história contada sob o ponto de vista das vítimas.

Melhor Série de TV Fechada: “Homens”

As piadas sem graças e clichês saíram quase que completamente de cena e uma função crítica começou a imperar no gênero.

Em “Homens”, o mais surpreendente é que, apesar do título, há uma reflexão proposta de forma leve, mas muito inteligente, sobre o machismo. E com uma inusitada inspiração clara no universo feminino – e em inúmeras produções que apostam nas questões amorosas e sexuais como mote principal.

Atriz Revelação: Dandara Mariana, a Dandara De “Verão 90”

Tudo conspirou para que Dandara Mariana se destacasse em “Verão 90”. Afinal, até o nome de sua personagem era o mesmo da atriz. Na trama nostálgica das 19 horas, a atriz conseguiu espaço abordando duas características marcantes da década retratada na novela: o sucesso que a lambada conquistou no Brasil e o racismo estrutural. Dandara soube aproveitar tanto o lado sensual e solar da dançarina quanto os dramas enfrentados por uma jovem negra e de origem humilde que se apaixona pelo rapaz branco e da alta sociedade. E acabou se transformando em uma das melhores surpresas do folhetim.

Ator Revelação: Rafael Queiroz, o Rael de “A Dona Do Pedaço”

Rafael Queiroz não é um novato na tevê. Mas foi com o destemido Rael de “A Dona do Pedaço” que o ator se tornou conhecido. Na pele de um matador que só chegou mesmo a entregar alguma “encomenda” no final da trama, ele se mostrou um profissional estrategista.

Afinal, foi justamente no jeitão pacato e esquisito do sobrinho do mocinho Amadeu, vivido por Marcos Palmeira, que seu intérprete investiu. Garantiu sequências sensuais com Deborah Evelyn, parcerias importantes com Agatha Moreira e, no fim, com Nathalia Dill, e saiu de cena deixando o anonimato que vivia em sua carreira televisiva. O trabalho de construção de Rafael fica ainda mais evidente quando o ator aparece despido de qualquer personagem, esbanjando simpatia e bom-humor.

Melhor Atriz: Gloria Pires, a Lola De “Éramos Seis”

A Globo deixou Gloria Pires longe das novelas por um ano e meio especialmente para que ela pudesse descansar sua imagem para “Éramos Seis”. Agora, com o remake no ar, não resta dúvida: todos sabiam que seria dela a novela das 18 horas da emissora.

A atriz emprestou à personagem toda a sua bagagem de vida, utilizando inclusive memórias pessoais na composição da personagem e referências da avó e da própria mãe. Em um papel que poderia muito bem cair na chatice e conflitar com a ânsia por agilidade e ousadias na teledramaturgia, Gloria se destaca justamente no lado mais puro e sensível de uma dona de casa de época.

Pior Atriz: Isabelle Drummond, a Manuzita de “Verão 90”

Aos 25 anos, tem mais tempo de carreira que muitos atores com os quais contracena em seus trabalhos. Tanta experiência, no entanto, não foi suficiente para que a atriz conseguisse controlar o clima histriônico empregado pelo saudoso Jorge Fernando na direção de “Verão 90”. A niteroiense pecou ao apostar em uma interpretação pautada excessivamente no exagero, deixando que outros nomes femininos se destacassem muito mais que ela no folhetim que protagonizava. A proximidade com Claudia Raia, uma inspiração e tanto diante do clima nostálgico e vários tons acima da trama, evidenciou ainda mais suas derrapagens.

Melhor Ator: Antonio Calloni, o Júlio de “Éramos Seis”e o Roger de “Assédio”

Antonio Calloni não deixou mesmo espaço para outros atores em 2019”. Não bastasse sua atuação impecável em “Assédio”, a participação especial que fez nos 54 primeiros capítulos de “Éramos Seis” ficou marcada na novela. Aos 58 anos, Calloni é um dos medalhões da Globo e suas aparições, sejam em poucos ou muitos capítulos, sempre se tornam marcantes em qualquer projeto. Sua entrega aos papéis é visível e tanto a série quanto a novela mostraram isso em 2019.

Pior Ator: Renato Góes, o Jamil de “Órfãos da Terra”

Renato Góes está longe de ser um ator ruim. Porém, em “Órfãos da Terra”, o pernambucano acabou perdendo espaço demais. A história era boa, mas a aposta em tramas paralelas densas acabou tirando as atenções do conflito amoroso principal. Do triângulo principal, na verdade, apenas Alice Wegmann surpreendeu. Depois de longas férias na tevê, era natural esperar mais do ator, que foi dispensado, no ano passado, do elenco de “Deus Salve o Rei”, logo depois de suas primeiras gravações na pele do protagonista Afonso. O papel acabou ficando com Romulo Estrela.

Melhor Atriz Coadjuvante: Paolla Oliveira, a Vivi Guedes de “A Dona Do Pedaço”

Influenciadores digitais estão na moda. E Paolla Oliveira liberou toda a veia “blogueirinha” que estava escondida na atriz para dar vida à desinibida Vivi Guedes de “A Dona do Pedaço”. A atriz mandou tão bem que fica difícil creditar a Juliana Paes o posto de mocinha da novela de Walcyr Carrasco. Seu carisma foi tamanho que nem mesmo a profissão de matador de seu par romântico, Chiclete, papel de Sergio Guizé, foi empecilho para o êxito da trama romântica. Conseguiu o final feliz para sua personagem com um assassino redimido e levou o carisma da influenciadora para as redes sociais.

Melhor Ator Coadjuvante: Cássio Gabus Mendes, O Afonso De “Éramos Seis”

Cássio Gabus Mendes é um desses atores que dificilmente fica muito tempo fora do ar. Mesmo assim, não passa despercebido em seus trabalhos ou, muito menos, cai na mesmice. Em “Éramos Seis”, havia dois caminhos para explorar: o carinho intenso com a filha adotiva e a amizade e admiração por Lola. Pois Cássio acertou em ambos. Garantiu, assim, a chance de fazer mais um par romântico com Gloria Pires, com quem já contracenou na época de “Vale Tudo”, quando ele interpretava o ingênuo Afonso Roitman e ela, a dissimulada Maria de Fátima. Cássio, tantas vezes escalado para papéis cômicos, cada vez mais se destaca em tipos mais dramáticos.

Melhor Autor: Rosane Svartman E Paulo Halm, De “Bom Sucesso”

Rosane Svartman e Paulo Halm já se deram bem trabalhando juntos em “Malhação: Sonhos” e em “Totalmente Demais”. Em “Bom Sucesso”, porém, a dupla criou uma ligação entre a teledramaturgia e a literatura que possibilitou mostrarem um texto mais rebuscado. Isso, no entanto, sem perderem o tom popular de suas novelas. Prova disso é que conseguem mesclar trechos de clássicos literários – inclusive encenados pelo elenco – com a batalha diária de uma típica suburbana carioca. O folhetim não é o que mais impressionou no ano, mas certamente foi o que mais inovou em relação aos diálogos.

Melhor Diretor: José Luiz Villamarim, de “Amor De Mãe”

Dificilmente uma novela que estreia quase no “apagar das luzes” do ano se destaca em premiações que respeitam o calendário. Pois bem, “Amor de Mãe” entra na lista de exceções. De cara, ao entrelaçar as vidas das três protagonistas e apresentar seus dramas e frustrações flashbacks e não em fases divididas, a autora Manuela Dias deu a José Luiz Villamarim a chance de apostar em uma direção delicada, mas cheia de sequências fortes capazes de provocar reflexões no público. Era de se esperar que um projeto com esse título e temática fosse parar nas mãos de uma diretora, mas Villamarim não deixa a nada a desejar na hora de retratar universos femininos tão distintos e, ao mesmo tempo, tão próximos.

Melhor Cenografia: “Órfãos Da Terra”

A temática delicada de “Órfãos da Terra” exigiu da equipe a difícil missão de retratar cenários complexos, como a suntuosa residência do poderoso Sheik Aziz Abdallah, papel de Herson Capri, cidades bombardeadas e campos de refugiados. Para as cenas do campo, uma área de 15 mil m² foi construída em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A busca por uma reprodução fiel da realidade foi tanta que se estabeleceu um acordo de parceria técnica com o Acnur – Agência da ONU para Refugiados, garantindo a colaboração de uma arquiteta da agência, a disponibilização de uniformes e tendas reais de operações humanitárias – que foram substituídas pela Globo por novas unidades habitacionais – e o compartilhamento de informações sobre o contexto de deslocamento forçado e a integração sociocultural das pessoas refugiadas.

Melhor Figurino: “Éramos Seis”

Tramas de época costumam mesmo levar vantagem. Com “Éramos Seis” não foi diferente. Mas é nas vestimentas das mulheres que o intenso trabalho de pesquisa é notado. O visual delas varia bastante, de acordo com a personalidade, o poder aquisitivo e o período retratado, já que houve uma mudança de fase na trama. Vestidos com franjas, bordados, rendas e tricô também ajudaram a marcar bem tanto as diferenças de ambientes quanto de época na história. E mesmo entre os homens, muitos trajando ternos, há diferenças. Cortes mais finos e elegantes aparecem em quem tem a carteira e conta bancária mais recheada.

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