Em ‘Cine Holliúdy’, saiba por que Letícia Colin é ‘ispilicute’


Letícia Colin é aquela graça que o público sabe. Brilhou em novelas como Novo Mundo e Segundo Sol, coestrelou o melhor filme de Júlia Rezende, que, por um desses paradoxos da cinematografia nacional, registrou a menor bilheteria da diretora – Ponte Aérea, também com Caio Blat e Sílvio Guindane. Júlia fez milhões de espectadores com Meu Passado Me Condena 1 e 2 e teria arrebentado com De Pernas Pro Ar 3, se a carreira de blockbuster do longa com Ingrid Guimarães não tivesse sido atropelada pelo arrasa-quarteirão Vingadores: Ultimato.

Letícia grava atualmente em São Paulo a nova série de George Moura e Sérgio Goldenberg. Onde Está Meu Coração?, dirigida por Luísa Lima, ainda demora para chegar à tela da Globo, mas nesta terça prepare-se para ver Letícia como a Marilyn do sertão, na série que o cineasta cearense Halder Gomes realiza a partir de seus filmes Cine Holliúdy 1 e 2.

‘Ispilicute’

Como? Você pode não ter entendido nada, mas é “cearensês” e, a partir de terça, com o primeiro dos dez episódios de Cine Holliúdy, tudo ficará perfeitamente claro. Traduzindo, é como o caboclo sertanejo “traduz” she is pretty cute. Portanto – ispilicute = “ela é gracinha”. E a gracinha é Marilyn, a filha do prefeito Olegário e da primeira-dama Maria do Socorro, personagens interpretados por Matheus Nachtergaele e Heloisa Périssé. Na trama que se passa em Pitombas, no interior do Ceará, nos anos 1970, Francisgleydisson possui o único cinema local, o Cine Holliúdy. Em nome da modernidade, e convencido pela mulher, Olegário instala uma TV no meio da praça. A nova maquininha de produzir imagens atrai o público e ameaça a sobrevivência do cinema de Francisgleydisson. Ele reage realizando filmes para exibir na sala, e cada um – ou sua feitura – está no centro de cada episódio da série. Onde entra Marilyn nisso?

Quem explica é a própria Letícia Colin, numa entrevista por telefone, durante folga nas gravações. “Marilyn é da cidade grande, uma mocinha de muita personalidade, que não está nada contente de chegar a esse fim de mundo. Ela é do tipo que não leva desaforo pra casa e que pulsa muito forte. Como garota da capital, se acomoda mal na cidade pequena e rejeita isso.” Só que as circunstâncias da trama aproximam Marilyn de Francisgleydisson e ela entra no mundo de sonhos do cineasta do sertão. Aceita ser sua musa, a estrela dos filmes que ele faz. Ao acessar esse mundo sonhado de criação, tem a chance de se salvar. “Marilyn é salva pela arte”, explica Letícia. É uma linda história de amor, essa de Letícia com o personagem interpretado por Edmilson Filho, que fez o papel de Francisgleydisson nos filmes e o repete na série. Há um complicador. “Marilyn vai tomando gosto pela arte, se tornando uma verdadeira estrela e, como tal, é assediada com convites para fazer televisão”, antecipa Letícia. Agora, que faço eu da vida sem você? Não é preciso lembrar os versos de Você não Me Ensinou a Te Esquecer, lindamente cantados por Caetano Veloso em Lisbela e o Prisioneiro, o belo filme que Guel Arraes adaptou da peça de teatro de Osman Lins. Por se tratar de um desenvolvimento do argumento original de Halder Gomes, Cine Holliúdy, a série, não deve ter nada a ver com Lisbela, exceto pelo olhar do repórter, baseado na sensibilidade da história ficcional de amor relatada pela atriz Letícia Colin.

Na entrevista que deu ao ‘Estado’, na estreia de Cine Holliúdy 2 nos cinemas, Halder Gomes havia definido o “cearensês” como “uma maneira de encarar a vida com leveza e fuleragem”. Se procurar no dicionário você não vai encontrar definições muito lisonjeiras para fuleiro. 1. Que ou aquele que age irresponsavelmente, sem seriedade; que ou quem não se mostra confiável; 2. Que ou o que não tem valor, que ou o que é medíocre, reles. Nada disso se aplica à forma como Halder Gomes encara o cinema e o utiliza como ferramenta para refletir o mundo, no caso, o Brasil. “Eu gostei muito de Cine Holliúdy e, quando fui chamada para a série, achei que poderia ser uma experiência enriquecedora. Gravamos entre o fim de 2017 e o início de 2018 em locações no interior de São Paulo, em Areias, e em Quixadá, no Ceará, um lugar agreste, belíssimo. Foram três meses filmando com uma câmera só, uma coisa de cinema. Já havia feito comédia, não na TV, mas o que mais me impressionou foi o método do Halder.” O repórter a interrompe para lembrar que, na entrevista ao ‘Estado’, o diretor e roteirista falara muito sobre o tempo da piada, e sobre como ele buscava esculpir esse tempo com seu elenco.

“É isso. Halder sabe aonde é preciso ir para que o que ele escreveu tenha o efeito que pretende. Com o Edmilson (Filho), ele já tinha familiaridade, mas havia todo um elenco com quem ele trabalhava pela primeira vez. É impressionante ver como ele teoriza sobre o humor e depois o constrói com a gente, de forma a que aquilo pareça perfeitamente natural.” E Letícia conta que Cine Holliúdy, a série, prolonga os filmes como atos de amor ao cinema. Kung fu no primeiro, ficção científica no segundo. Cada episódio é narrado segundo um gênero, o que lhe permitiu testar a diversidade do seu registro de atriz. O segundo episódio será de terror, com Ingrid Guimarães se apossando do corpo da prefeita. Os demais episódios terão participações de Nei Latorraca, Miguel Fallabela, Chico Diaz, Falcão, Tonico Pereira, Bruno Garcia, Rafael Infanti, Rafael Cortez, etc.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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