Mais de duas centenas de desenhos raros da Tarsila serão expostas em Itu


Entre as 2 mil obras pertencentes ao acervo da fundação mantida pelo colecionador e galerista Marcos Amaro, figuram 203 desenhos originais da modernista Tarsila do Amaral (1886-1973) que, a partir de março, estarão expostos na Fama – Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, espaço mantido pelo empresário sem ajuda governamental.

Com 50 funcionários trabalhando no espaço cultural – uma antiga fábrica de jeans tombada pelo Patrimônio, que está sendo restaurada -, a Fama já recebe 15 mil visitantes por ano, número que tende a crescer com a futura exposição de Tarsila organizada pelas curadoras Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros. Essa previsão se justifica após o êxito da retrospectiva da pintora (Tarsila Popular) no Masp, que bateu recorde de visitação em 2019.

Mais conhecida como pintora, Tarsila foi também exímia desenhista, formada no ateliê do acadêmico Pedro Alexandrino (1856-1942), onde conheceu Anita Malfatti (1889-1964), de quem se tornou amiga. Alexandrino, aluno de Almeida Júnior (1850-1899), foi formado – a exemplo do amigo professor – no rigor da academia francesa, dando muito valor ao desenho, que considerava a base fundamental da boa pintura.

Curiosamente, foi o projeto racional do desenho que levou Tarsila a desenvolver sua expressão cromática livre e sensual, como provam alguns esboços da futura exposição da Fama. Também com Alexandrino, lembra a curadora Regina Teixeira de Barros, Tarsila criou o hábito de carregar caderninhos de anotações e esboços, origem de muitos dos desenhos que serão exibidos a partir de 14 de março em Itu, cidade vizinha onde nasceu Tarsila, Capivari.

Esses desenhos serviriam, segundo a Academia, como esboços preliminares de futuras pinturas, mas, no caso de Tarsila, eles representam obras autônomas que registram suas impressões dos vários lugares que visitou, tanto no Brasil (Minas Gerais, Rio de Janeiro) como no exterior (Egito, Grécia, Israel, Líbano, Palestina e Turquia, entre outros).

Menos fiéis à representação e mais às impressões subjetivas dessas paisagens, esses desenhos de traços sintéticos unem percepção acurada à reflexão sobre o que significa, afinal, a tentativa da pintora de traduzir o clima de cada ponto do planeta que visitou – e Tarsila viajou muito, tanto na fase próspera (os anos 1920, quando estudou em Paris) como na minguante (anos 1930, quando, casada com o psiquiatra Osório César, visitou Moscou).

Os desenhos que fez na capital russa ilustrariam mais tarde um livro de Osório César, Onde o Proletariado Dirige (1933). Embora tenha sido seu companheiro por pouco tempo, o psiquiatra, comunista, teve enorme influência na trajetória artística de Tarsila – seria impensável a “fase social” da pintora e a existência de obras suas como a tela Operários (1933) sem essa relação com um intelectual como ele. Osório entendia muito de música e foi precursor no estudo da arte praticada por doentes mentais.

Ótima retratista – e basta citar o autorretrato com o manteau vermelho (1923) e o retrato de Luís Martins (1940) -, Tarsila exercitou sua técnica nas muitas ilustrações feitas para o jornal O Estado de S. Paulo entre 1947 e 1948, que não estão na mostra de Itu. A coleção de Marcos Amaro não tem telas de Tarsila. Em contrapartida, guarda em seu valioso acervo o esboço de uma de suas mais conhecidas pinturas, A Negra (1923), que ela realizou quando estudava em Paris com o cubista Léger.

Tarsila manteve fidelidade ao desenho em mais de meio século de carreira, deixando como legado 1.750 obras entre croquis, estudos e ilustrações que ajudam a entender o projeto artístico do modernismo brasileiro. Na exposição, segundo Aracy Amaral, foram reunidos estudos, esboços de futuras obras, paisagens urbanas e rurais, ilustrações para livros e até projetos de figurinos para um balé. Desenhos do período modernista são revisitados na fase final da vida da artista, reiterando os traços sintéticos característicos dos primórdios da Antropofagia.

A coleção de desenhos de Marcos Amaro cobre o período que vai de 1910 a 1940. Entre eles, figuram peças raras, como os estudos que fez para a ópera Thaïs, de Massenet, a história de uma cortesã convertida por um monge. Revelador: como Thaïs, também Tarsila abandonou o formalismo por uma viagem interior, que teve início justamente com seus desenhos de paisagens.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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