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Teatro

Arte feita para o palco

Por Agência Estado

02 jan 2020 às 08:00 • Última atualização 27 abr 2020 às 11:32

Começa tudo com um sorriso. “A felicidade que transparece no rosto das crianças, jovens, adolescentes e suas famílias por termos uma casa própria não tem preço.” Quem diz é o pianista e maestro Ricardo Castro. Músico de carreira internacional, ele voltou em 2007 para sua Bahia natal. O objetivo era criar um projeto de formação e, em pouco mais de uma década, o Neojiba, Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia, tornou-se referência internacional ao aliar educação musical e inclusão social. Em 2019, o projeto inaugurou sua sede – e, para 2020, montou uma temporada ambiciosa, que inclui mais uma turnê internacional.

“Costumo dizer que tocamos para o palco, não para plateia”, diz o pianista, que também é professor de piano na Haute École de Musique de Lausanne, na Suíça, em conversa com o Estado. Isso quer dizer que a meta é sempre o aluno, “para que dele parta a transformação”, nas palavras de Castro. “O critério para a definição do repertório no Neojiba sempre é formativo. Nossos grupos musicais preparam obras que ajudam na evolução de capacidades”, explica.

Para 2020, o projeto selecionou um impressionante time de convidados. Além do próprio Castro, a Orquestra Juvenil da Bahia vai se apresentar ao lado de artistas como a pianista argentina Martha Argerich, conhecida tanto pelo talento descomunal quanto pela presença cada vez menor sobre os palcos (sua última vez no Brasil foi em 2004, para recitais ao lado do amigo Nelson Freire na Sala São Paulo); a também pianista Maria João Pires; o violoncelista Antonio Meneses e o violinista Claudio Cruz; e os maestros Isaac Karabtchevsky e John Neschling, que volta em dezembro ao País pela primeira vez desde que deixou a direção do Teatro Municipal de São Paulo.

Argerich já participou de uma turnê internacional da orquestra, em 2018, apresentando-se em palcos como a Philharmonie de Paris, em 2020 atua com o grupo em uma nova viagem, desta vez por países da América do Sul. “Este ano eu quis trazer para a Bahia o retrato do que já acontece com o Neojiba desde a nossa primeira turnê internacional, que é nossa comunhão em público com alguns dos melhores músicos do planeta. Será também ocasião para celebrar a beleza com muitos dos que fazem ou fizeram parte de nossa caminhada, direta ou indiretamente. Cada convidado, além de ser referência no repertório escolhido, tem uma relação ou significado especial para e com o Neojiba”, explica Castro.

Por conta dos 250 anos de nascimento do compositor, Beethoven deve dominar a série de concertos sinfônicos da orquestra, com sinfonias, concertos para piano e o concerto tríplice para piano, violino e violoncelo. “Quando tratamos de personagens centrais da civilização ocidental, e Beethoven é seguramente um deles, celebrar nos ajuda a contextualizar e aprofundar o significado de sua obra”, diz Castro. “O legado de Beethoven, além de paradigmático, é atemporal, inovador, variado e inclusivo. Não conheço muitos compositores que tenham resumido tão bem, e com tão poucos elementos técnicos e sonoros à disposição, a complexidade da existência humana. Só sei que, mesmo depois de 250 anos do nascimento de Beethoven, ser palco ou plateia de música de concerto no Brasil ainda é um privilégio de poucos, ou seja, temos um longo caminho pela frente.”

Ensina quem aprende. O Neojiba trabalha com o conceito de multiplicação e aposta na prática coletiva, encampando o lema “aprende quem ensina”. Um jovem, ao iniciar o aprendizado de um instrumento, já começa a passar o conhecimento que recebe a novos colegas. Há um sentido de compartilhamento do fazer musical importante – e o projeto hoje já contempla em torno de 6 mil crianças, em Salvador e em outros cinco municípios baianos.

A preocupação social está presente também na inauguração da sede, construída no Parque do Queimado, um bairro vulnerável de Salvador, a partir da estrutura arquitetônica da primeira distribuidora urbana de abastecimento de água do Brasil, em meados do século 19. O palco pode abrigar uma orquestra de câmara, plateia para 140 pessoas e há ainda salas de ensaio. O projeto acústico foi feito pela Nagata Acoustics, responsável por salas como o Walt Disney Concert Hall, de Los Angeles, ou a Elbphilharmonie, de Hamburgo. Em novembro, o Neojiba realizou também campanha de arrecadamento na internet para construir a Arca Neojiba, um palco externo “aberto a todos os talentos da comunidade” para “garantir um espaço que abrigue diferentes linguagens artísticas, para aproximar a comunidade local”.

Com a nova sede, inaugurada em agosto, “houve um avanço na gestão pedagógica e organizacional” no projeto, acredita Castro. “E a felicidade dos integrantes do projeto e de suas famílias é algo que nos inspira e fortalece para continuarmos a investir na mesma direção. Beethoven já dizia: não há nada mais belo do que distribuir a felicidade para muitas pessoas. O Neojiba também é isso. Primeiro conseguimos abrir as portas do melhor teatro da cidade (O Teatro Castro Alves, onde acontece a série sinfônica do projeto) para nossa juventude e agora estamos juntos construindo nossas catedrais para as futuras gerações.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.