A potência do frevo entre gerações


O carnaval está presente na vida de Pupillo desde que ele se entende por gente. Todo ano, a família do baterista fazia fantasias e adereços para a festa. Os desfiles de agremiações de cultura popular no litoral e no interior de Pernambuco também foram importantes para sua formação. Essa “herança foliona”, como define o músico, fez com que ele se apaixonasse pelo frevo.

Já profissional, Pupillo pensava em formas de fazer com que o ritmo tradicional pernambucano pudesse ser ouvido o ano inteiro, em todos os cantos. De preferência dialogando com a estética do pop, o que também era uma das propostas da Nação Zumbi, grupo do qual o baterista fez parte por 23 anos.

Produtor de trabalhos recentes de Céu, sua mulher, Gal Costa, Paulo Miklos e Erasmo Carlos, Pupillo reconstrói a ponte entre o frevo e o pop no álbum Orquestra Frevo do Mundo, idealizado por ele e Marcelo Soares. Repleto de convidados, o disco mostra em oito faixas um panorama do estilo, e para onde ele pode ir.

Orquestra Frevo do Mundo já está pronto há dois anos. O repertório do projeto lançado no início deste mês havia sido testado anteriormente em uma festa chamada Enquanto Isso na Sala de Justiça, no pré-carnaval do Recife, para milhares de pessoas. Durante uma viagem a Salvador, Pupillo se lembrou que os compositores da Bahia foram importantes para consolidar o frevo nos anos 1970, época em que o gênero andava em baixa até mesmo em Pernambuco.

“Sempre fui muito intrigado com essa história do frevo ser ouvido apenas no carnaval. Há frevos lindos que não falam só sobre o período carnavalesco. Quis fazer um disco longe do bairrismo. Queria juntar frevos pernambucanos e da Bahia, porque grandes clássicos do gênero ficaram conhecidos nacionalmente por causa de Caetano Veloso, Gal Costa e Moraes Moreira. Eles tiveram um papel importante na renovação do frevo”, diz o músico, que participa de todas as faixas tocando bateria e percussão, além de fazer programações eletrônicas.

Caetano está presente no disco, interpretando uma música que fez para animar o carnaval de 1976, A Filha da Chiquita Bacana, ao lado de Céu. No álbum mais recente da cantora, há uma inédita do baiano, Pardo, feita especialmente para ela. Pupillo conta que juntar os dois na mesma faixa celebra e aprofunda a boa relação de ambos. “Era a melhor hora de juntar os dois”, afirma Pupillo. Ícone do frevo pernambucano, o Maestro Duda colore a faixa com seu naipe de metais.

A mistura de intérpretes e músicos de várias gerações e lugares distintos permeia o disco.

“Ao longo do tempo fui conquistando a amizade desses artistas, me vejo como uma pessoa que tem um trânsito bacana entre essas gerações. Eles têm a disposição em dialogar com gêneros diferentes, o caráter de experimentar está na formação deles”, diz o baterista, que juntou Maestro Duda e Otto a Roberto Barreto, do BaianaSystem, que toca guitarra baiana em Ciranda de Maluco, registrada originalmente no primeiro disco solo de Otto, o celebrado Samba pra Burro (1998).

Duda também fez o arranjo de metais de Ela é Tarja Preta, interpretada por Arnaldo Antunes, que fez a música ao lado de Betão Aguiar (filho de Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos) e dos paraenses Luê, Felipe e Manoel Cordeiro. A nova versão aproxima a guitarrada do Pará à força dos sopros.

“Não é frevo, mas conseguimos trazer para esse universo”, conta Pupillo.
Duas revelações da música pernambucana participam de Orquestra Frevo do Mundo. Duda Beat ficou com a missão de interpretar Bloco do Prazer, música de Moraes e Fausto Nilo, sucesso com Gal Costa. Lançada pela banda Eddie em 2006, Vida Boa retorna na voz do performático Almério.

Capiba e Levino Ferreira, grandes nomes do frevo em Pernambuco, também são lembrados. O primeiro é autor de Linda Flor da Madrugada. Siba, cantor e compositor que trabalha com as tradições pernambucanas, mas também a aproxima de outros estilos, canta o frevo canção lançado pelo sambista Ciro Monteiro em 1941. A instrumental Último Dia, de Levino, ganha ares contemporâneos mesclando os metais de Henrique Albino às programações de Pupillo e Luccas Maia.

Outro clássico marcante do carnaval brasileiro, Frevo Mulher foi gravada por Tulipa Ruiz, com arranjo guiado pelos metais orquestrados por Roque Netto.
Neste domingo, 23, Pupillo coloca a Orquestra Frevo do Mundo na rua. O baterista comanda o bloco Eu Quero é Frevo, com participações já confirmadas de Céu, China e Tulipa Ruiz. O desfile ocorre na Avenida Sumaré, a partir de 11h.

O músico, que estará acompanhado por Pedro Dantas (baixo), Davi Bovee (guitarra), Guri (guitarra) e Ângelo Medrado (MPC), conta que há tempos tinha vontade de se integrar ao carnaval paulistano. “Quero ser uma pessoa que colabora com uma cidade que adoro e que me recebeu. Já toquei muitos anos no carnaval de Pernambuco e trazer para o carnaval um pouco desse background do frevo é um compromisso que resolvi assumir.”

Um segundo volume do álbum também está nos planos do baterista. Algumas canções já estão escolhidas.

Serviço

BLOCO EU QUERO É FREVO
PARTICIPAÇÕES DE CÉU, CHINA E TULIPA RUIZ.
DOMINGO (23), 11 HORAS, NA AVENIDA SUMARÉ.
GRÁTIS

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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