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Histórias do Coração

Yolanda e Orlando

As histórias que não são contadas, são esquecidas. Por isso, junto os pedaços agora para que a história da Yolanda e do Orlando possa ser lembrada por aqueles que me leem.

Por Carla Moro

25 abr 2021 às 19:14 • Última atualização 25 abr 2021 às 19:17

Yolanda e Orlando (002)

Liev Tolstói, no livro Anna Kariênina, afirma que todas as famílias felizes se parecem, mas as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. Quando ouço uma história de amor, tenho a impressão de que todas elas se parecem, mas os começos acontecem cada um a sua maneira. A história desse casal começou assim: em 1929, a Bolsa de Nova York quebrou, destruindo a economia mundial.

Bem longe dos Estados Unidos, em uma cidade do interior de São Paulo chamada Rio das Pedras, Yolanda vivia com a família, dona de fazendas de café. O café, como se sabe, era o principal produto de exportação brasileiro, e sua venda foi afetada com a quebra da Bolsa.

Em 1931, quando o presidente Getúlio Vargas decidiu queimar sacas e sacas de café numa tentativa de elevar o preço da mercadoria, a família da Yolanda também foi afetada. No ano seguinte, quando já tinham perdido as fazendas para pagar as dívidas, mudaram-se para Carioba.

Carioba também foi o destino da família do Orlando na mesma época. Vindos de Araras, a família dele, como a de Yolanda, havia perdido tudo. Só que a culpa não tinha sido do presidente e de sua política econômica desastrosa, mas do patriarca da família que, conta-se, gostava de jogar e apostar. Endividados, também venderam o que tinham e juntaram-se aos trabalhadores das fábricas de Carioba.

Não se sabe como Yolanda e Orlando se conheceram. Entre a história vivida e a história contada cabe um mundo de possibilidades. Para eles, no final da década de 1940, as possibilidades não eram muitas. Talvez tenham se conhecido na Igreja de Carioba ou passeando na praça aos fins de semana. Seria possível que tenham trocado olhares em um baile no Clube Recreativo Sportivo de Carioba ou na saída da matinê do cinema?

Histórias do Coração merecem ser contadas toda semana.

Orlando era eletricista em uma das inúmeras tecelagens da Vila Operária. Yolanda trabalhava em uma fábrica de fitas. Quando a sirene tocava indicando o fim do expediente, teriam eles se encontrado no caminho de volta para casa? E depois de se conhecerem, como decidiram se casar?

Faço perguntas como se lançasse iscas para o tempo, tentando adivinhar seus acontecimentos. Yolanda e Orlando casaram-se em 21 de junho de 1952. Mudaram-se para uma casa igual a todas as casas daqueles que trabalharam na Vila Operária de Carioba. A deles, ficava perto do ponto final do ônibus. Tiveram três filhos.

Quantas possibilidades existiam nos primeiros anos da década de 1950? Para o amor, talvez não muitas. Aquilo que não se sabe, é aquilo que se perde. As histórias que não são contadas, são esquecidas. Por isso, junto os pedaços agora para que a história da Yolanda e do Orlando possa ser lembrada por aqueles que me leem.

As histórias de amor nem sempre falam sobre amor. Elas podem falar sobre a quebra da Bolsa de Nova York, sobre perdas, sobre mudanças e recomeços. O amor, muitas vezes, é apenas uma fita colorida que amarra pessoas e memórias. Olho para minhas mãos segurando as duas pontas da história da Yolanda e do Orlando. Dou um laço amarrando história vivida e história contada, torcendo para que não escapem dos dedos a história lembrada que acabei de contar.

Carla Moro

Formada em Letras pela Unesp, Carla Moro faz neste blog um registro da trajetória dos casais! Quer sugerir sua história para a coluna? Envie um e-mail para colunahistoriasdocoracao@gmail.com