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Cotidiano & Existência

Quaresma

Diante de tudo que a humanidade tem passado, ouso dizer que estamos de fato há mais de um ano percorrendo a Via Crucis

Por Gisela Breno

16 fev 2021 às 08:19 • Última atualização 16 fev 2021 às 09:05

Nos quarenta dias que antecediam a Semana Santa e a Páscoa, minha avó Carmela desligava o rádio (não havia TV naquela época), pedia que nossas brincadeiras e algazarras fossem menos barulhentas e deixava acesa a lamparina que iluminava um pequenino altar mantido em seu quarto.

Esse ritual familiar e o de cobrir as imagens dos santos com panos roxos nas igrejas apesar de misteriosos, não somente me encantavam mas despertavam em meu ser um profundo respeito mesclado de temor pelo sagrado.

Tornei-me adolescente e apesar da admiração por esse tempo marcante do ano litúrgico me acompanhar, achava desnecessários estes cuidados e rituais.

Há décadas minha avó fez a travessia para a eternidade, não vivendo portanto neste mundo conturbado, acelerado, desprovido de pureza, simplicidade, povoado por gente conectada com o mundo virtual e profundamente desconectada da alma.

Diante de tudo que a humanidade tem passado, ouso dizer que estamos de fato há mais de um ano percorrendo a Via Crucis. E, desafortunadamente, mesmo diante de mais de duzentas e trinta mil mortes em nosso País, há uma multidão de homens e mulheres que não se compadecem com os sofrimentos alheios, pois ilhados se encontram em mares de egocentrismo e imobilismo.

Os mais velhos normalmente têm uma sabedoria invejável diante da vida e dos enormes desafios que ela carrega. Por isso, me inspirando em vó Carmela, quero nessa caminhada quaresmal não apenas revestir de roxo meu coração em memória das pessoas que não resistiram à Covid-19 e demais Causa Mortis, mas acender a vela da solidariedade em quaisquer espaços tomados pela escuridão da incompreensão, do desamparo, do desamor.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.