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Cotidiano & Existência

Os verdadeiros culpados

Professora Gisela Breno escreve sobre a nossa arrogância com a geração mais jovem; leia o artigo desta semana

Por Gisela Breno

18 ago 2020 às 09:01 • Última atualização 18 ago 2020 às 09:03

Detentores do poder, dos rumos da nação, olhamos do alto de nossa arrogância para a geração de hoje e descarregamos sobre seus ombros as mais variadas e ousadas inverdades.

Escandalizamo-nos com seu vocabulário repleto de palavras de baixo calão, mas nos esquecemos de que a família aplaudiu, riu, pediu que as repetissem, quando, pequeninos, as disseram pela primeira vez.

Proclamamos aos quatro cantos que esses jovens são indolentes, não tem determinação para abandonar vícios, reforçando que o Ministério da Saúde adverte que fumar e beber é prejudicial à saúde, enquanto apagamos nosso dileto cigarrinho para abrir uma cerveja.

Reclamamos que os jovens não têm mais amor aos estudos, não valorizam a cultura, porém exaltamos os ricos, os jogadores de futebol que nem sequer concluíram o primeiro grau.

Tachamos adolescentes de maliciosos, mas na calada da noite nos extasiamos com pornografias recomendadas pela roda de amigos.

Entristecemo-nos porque os filhos não reconhecem os esforços que os pais fazem para mantê-los, todavia os entupimos com sapatos, roupas, tênis, smartphones.. sepultando o ensinamento de que o ser humano valoriza, de fato, aquilo que foi conseguido com esforço, lutas e dificuldades.

Rotulamos essa geração de inculta, sem memória, sem tradições, porém pouco fazemos para que reverenciem os mais velhos, para que se maravilhem e aprendam com sua sabedoria, suas histórias, levando-os a crer que lugar de velho é asilo, bancos de praça ou casa de repouso.

Queremos que nossos filhos frequentem missas, cultos, mas dificilmente colocamos os pés, dobramos os joelhos nas igrejas, nos templos.

Desejamos que sejam justos caridosos com seus semelhantes, contudo, no dia a dia, observam nossos empregados serem tratados com indiferença, preconceitos e a pão e água.

Subestimamos seus sofrimentos com a ladainha de que é coisa da idade, dos hormônios, nos esquecendo de que um dia tivemos esses sentimentos e a dor no coração e na alma era dilacerante.

Concordamos com teses que discorrem sobre a apatia, falta de foco, sobre a geração “ nem nem” (nem estuda, nem trabalha) mas o que está impresso em nosso curriculum vitae?

Indignados ficamos com o fato de que logo abandonam ou não valorizam os presentes recebidos não entendendo ou não querendo entender que os presentes que lhes são mais preciosos, marcantes por toda vida, não estão à venda, mas armazenados, de graça, em nossos corações com etiquetas de carinho, atenção, presença amiga, colo protetor, ombro fraterno, zelo, cumplicidade santa.

Pobres crianças, pobres adolescentes, pobres jovens, ilhas de incertezas e de carências cercadas de incoerências, hipocrisias, maus exemplos por todos os lados.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.