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Alessandra Olivato

O vírus e nós

Não é plausível pensar que centenas de cientistas, enfermeiros e médicos tenham, em uma tarde de tédio, inventado juntos uma história para nos assustar

Por Alessandra Olivato

10 mar 2021 às 08:52 • Última atualização 10 mar 2021 às 08:54

Relutei muito em escrever sobre a Covid-19, simplesmente porque além de ser muito polêmico, é um assunto que pode ser abordado de tantos ângulos que parece prepotente dizer algo sobre.

Como já abordei em texto anterior, não obstante a importância de nossa subjetividade sobre a vida, existe um conhecimento, o científico, que serve para trazer à tona fatos independentes de nossas opiniões. Então, ainda que eu respeite e jamais vou brigar com alguém que acredita que a Terra é plana, fato é que ela é redonda e isso pode ser constatado por qualquer que deseje ter acesso aos meios que o comprovem. A possibilidade de comprovação é uma prerrogativa científica.  

No caso da Covid-19, cientistas e profissionais têm repetido constantemente que usar máscara, fazer higienização de mãos, utensílios e locais com álcool gel e evitar contato corporal são as melhores formas de prevenir a contaminação. Mas mesmo que não tenhamos acesso direto aos estudos científicos, uma dose de raciocínio e bom senso podem nos ajudar muito. Não é plausível pensar que centenas de cientistas, enfermeiros e médicos dos mais diferentes lugares do planeta tenham, em uma tarde de tédio no trabalho, inventado juntos uma história para nos assustar – e muito menos que todos tenham concordado com isso. Tampouco que os administradores de hospitais de todas as cidades do país estejam mentindo sobre os números de óbitos ou taxas de ocupação de leitos, a despeito de todos os interesses que possam existir em torno da pandemia.

De minha parte, não consigo mensurar a dor de perder um ente ou amigo para a doença porque não passei por essa experiência, mas sei a dor de perder uma pessoa fundamental. Ocorre que parece menos difícil aceitar a morte quando ela resulta de um processo natural do que por algo que nos acomete de repente ou, pior, por falta de vaga ou equipamento em hospitais. Quando achamos que podemos controlar ou prorrogar a morte, fica muita mais difícil digeri-la.  

Assim, acredito que boa parte dessa raiva generalizada e desse ressentimento mútuo vem da ideia de que seria possível evitar muitas mortes, e uma sensação de injustiça que se volta tanto contra o governo quanto contra pessoas que, em nossa opinião, não estão fazendo sua parte. E, aqui, vou arriscar a minha opinião ciente das possíveis críticas: não existe uma resposta simples para isso! Embora pareça óbvio que a competência e a união dos governos em todas as instâncias poderia evitar mortes e um maior cuidado com as medidas de prevenção por um maior número de pessoas evitaria contaminações, não há consenso sobre a maioria das questões.

Uma delas pode ser: temos certeza em afirmar como cada pessoa que adoeceu contraiu o vírus? Lembro que confio totalmente na avaliação de cientistas e profissionais sobre os melhores métodos de prevenção. Quero apenas pensar num outro ponto.

Em uma família de cinco pessoas, por exemplo, em que duas ou três se contaminam, podemos afirmar com certeza quem se contaminou primeiro, se todos os demais se contaminaram a partir dessa pessoa e, também, qual foi a forma de contaminação da primeira?  Com todo o risco de estar errada, eu acredito que não dá pra afirmar com certeza. Verifica-se, então, um fato que se repete a cada dificuldade que enfrentamos: a pandemia se tornou mais um motivo para apontarmos o dedo uns pros outros e para acusações mútuas, a ponto de alguns afirmarem “se isso acontecer com fulano, ciclano é o culpado”.

Até o sofrimento revela nossa falta de imparcialidade. Quantos perderam pessoas queridas e quantos perderam empregos ou fecharam seu negócio? O que é mais importante? Viver ou ter o que comer? Viver ou ter onde morar? Por mais que pareça absurdo, também não acho fácil responder! Para aquele que perdeu alguém, é a perda, para aquele que não tem conseguido pagar suas contas e não sabe como sobreviverá daqui pra frente, pode beirar o insuportável.

Tenho quase certeza que pouco contribuí para melhorar qualquer sentimento com essas poucas palavras. Mas me pareceu legítimo tocar em alguns pontos que tem muito a ver conosco, a despeito dos erros do governo federal ou estadual: a raiva que nos acomete quanto percebemos que não podemos controlar tudo, inclusive a atitude de outras pessoas, a falta de noção de que a morte ou a necessidade financeira podem ser igualmente difíceis dependendo da situação de cada um e, finalmente, a nossa capacidade de falar mal dos outros e apontarmos culpados por tudo o que nos acontece.

*Importante lembrar que minhas opiniões não refletem, necessariamente, a posição de O Liberal nem de quaisquer de seus funcionários 

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.