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Estúdio 52

‘O Pagador de Promessas’ e a atemporalidade do preconceito

Primeiro filme 100% brasileiro a concorrer ao Oscar traz rica reflexão para este 21 de janeiro, Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa

Por Rodrigo Alonso

21 Janeiro 2022, às 11h40 • Última atualização 21 Janeiro 2022, às 15h09

Zé do Burro não queria provar nada para ninguém. Só queria pagar uma promessa feita para que seu burro fosse curado. Ele não era fanático por nenhuma religião. Também não se rebelava contra a poderosa Igreja Católica. Mesmo assim, foi vítima de intolerância religiosa.

Historicamente nociva, essa forma de preconceito é lembrada todo 21 de janeiro, Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa, e retratada com excelência no entorno de Zé do Burro, protagonista do filme “O Pagador de Promessas (1962)”.

Zé do Burro foi vítima da intolerância religiosa no longa, sucesso do cinema nacional – Foto: Reprodução

Pouco popular nos dias atuais, mas um marco no cinema nacional, “O Pagador de Promessas” foi a primeira produção 100% brasileira a concorrer ao Oscar. À época, em 1963, esteve entre os candidatos ao prêmio de melhor filme internacional, vencido pelo francês “Sempre aos Domingos”.

O “O Pagador de Promessas”, que está disponível na Globoplay, não quebrou esse tabu à toa. O longa dirigido por Anselmo Duarte teve muitos méritos para chegar aonde chegou.

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Com um enredo simples, mas genial, o filme traz uma rica reflexão sobre assuntos atemporais, como a intolerância religiosa, tema destacado neste texto.

Interpretado pelo piracicabano Leonardo Villar (que era conhecido do meu avô, aliás), Zé do Burro prometeu à Santa Bárbara carregar uma cruz nas costas até uma igreja se seu burro fosse curado.

A graça é atendida, e Zé está disposto a fazer sua parte. Porém, quando chega à escadaria da igreja, ele acaba barrado pelo padre Olavo (Dionísio Azevedo), pois a promessa tinha sido feita num terreiro de candomblé.

Padre Olavo é um exemplo de como os intolerantes se colocam acima dos outros – Foto: Reprodução

Mesmo assim, Zé continua na escadaria, na esperança de que, em algum momento, o padre autorize sua entrada no templo. A situação desperta a curiosidade de populares e da imprensa, e um circo midiático se instala no entorno do protagonista.

Fruto de puro preconceito, esse alvoroço todo se torna um problema que atrai até a atenção da polícia. Tudo isso, no entanto, poderia ter sido evitado com um simples ato de empatia do padre, que, depois, ainda recebe o apoio de seus superiores.

Que bom seria se o fanatismo religioso não existisse. Que bom seria se uma religião não se colocasse acima da outra. Que bom seria se Zé do Burro pudesse cumprir sua promessa em paz, palavra esta que é tão pregada pela Igreja.

Reação à tragédia
Criado em 2007, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa é celebrado em alusão à morte da ialorixá baiana Gildásia dos Santos e Santos, conhecida como Mãe Gilda, fundadora do terreiro de candomblé Ilê Asé Abassá.

Mãe Gilda sofreu ataques de preconceituosos – Foto: Divulgação / Fundação Cultural Palmares

Em 1999, o jornal Folha Universal, veículo de comunicação da Igreja Universal do Reino de Deus, usou uma foto da Mãe Gilda em uma reportagem intitulada “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.

Após a publicação dessa matéria, a ialorixá e seu marido foram perseguidos e sofreram agressões físicas e verbais. Acusada de charlatanismo, ela teve a casa e o terreiro invadidos por um grupo de outra religião, que depredou o espaço religioso.

Com a saúde fragilizada em decorrência desses ataques, Mãe Gilda sofreu um infarto fulminante e morreu em 21 de janeiro de 2000, 38 anos após “O Pagador de Promessas” ter mostrado o perigo da intolerância religiosa. Que bom seria se o cinema fosse uma mera ficção.

Rodrigo Alonso

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde 2017. É “fifeiro” desde criança e, se puder, passa horas falando de filme e série, então nada melhor do que unir o útil ao agradável.

Estúdio 52

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