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Alessandra Olivato

O dilema social

Google, Apple, Facebook, Microsoft são as empresas mais caras do mundo porque comercializam as mercadorias mais valiosas de todas: nossas opiniões

Por Alessandra Olivato

16 jun 2021 às 08:54

Muita gente já se perguntou como usamos tanto as redes sociais e aplicativos como WhastApp sem pagar por isso, afinal quase nada é de graça no mundo. Uma das frases mencionadas no filme “O dilema social” responde à dúvida: “Se você não paga pelo produto, o produto é você.”

No documentário (título original The social dilemma), ex-funcionários de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo como Google, Facebook e Pinterest, além de professores de renomadas universidades mundiais mostram como a internet e em especial as redes sociais servem a fins outros que não apenas permitir que nos comuniquemos. Como assim?

Por exemplo, a maioria de nós já percebeu que imediatamente após pesquisarmos um produto em uma loja virtual recebemos a propaganda da loja em nossa rede social ou em nosso e-mail. Já caiu um pouco no senso comum a existência de algoritmos que não apenas direcionam produtos e serviços para nossas páginas como também priorizam que vejamos algumas notícias e perfis. O filme nos permite entender isso mas vai além. Os entrevistados expõem a existência de mecanismos de manipulação do nosso comportamento nas redes, baseados em teorias como capitalismo de vigilância e mineração de dados. Não sou de forma alguma especialista nesses assuntos, mas vou tentar explicar com base no que procurei saber a respeito.

De forma muito simples, mineração de dados, como o próprio termo sugere, é a coleta de dados. Como estamos falando de tecnologias de informação e comunicação (tic’s), esses dados são as informações sobre nós, seus usuários, que somos observados por meio de todas as ações que realizamos no mundo virtual. Desde o perfil de sexo e gênero, idade, profissão e onde moramos, até as buscas que fazemos, o que compramos, nossas viagens e hobbies, os vídeos que assistimos, as opiniões e debates dos quais participamos e toda a nossa rede de relacionamentos. Cada clique, curtida e comentário são capturados de forma a montar um gigantesco banco de dados vendido a empresas que os analisarão minuciosamente para poderem criar e direcionar ações de marketing de forma o mais eficaz possível. A estratégia é certeira: mecanismos que nos atingem de forma subconsciente e nos induzem a navegar o maior tempo possível, acrescentar amigos e ficarmos expostos o máximo possível a publicidades.

Já o termo capitalismo de vigilância é cunhado pela PhD em Psicologia Social da Universidade de Harvard Shoshana Zuboff que em sua tese busca explicar a nova forma de ganho financeiro baseado na comercialização dos nossos dados, com exposto no documentário. Desse modo, o próprio desejo de ficar navegando pelas páginas e acessando imagens, perfis e propagandas seria induzido no nível do nosso subconsciente. Então, para os que temem que um dia colocarão um chip sob nossa pele para saber tudo o que fazemos e pensamos, pergunta-se: que chip seria mais eficaz e inovador do que um gatilho invisível que funciona sem percebermos?

Se o que você leu até aqui não te causou algum impacto, leia de novo. Porque não é apenas impressionante, é uma inflexão, um novo mundo no qual já estamos inseridos até o topo da cabeça. Não que seja uma forma de ganhar dinheiro totalmente nova. Os bancos, por exemplo, sabem muita coisa sobre nós a partir do que compramos ou dos lugares que visitamos. Mas sem dúvida as tecnologias virtuais de comunicação propiciaram um salto tanto no volume de informações pessoais comercializadas como nas estratégias de manipulação sobre nós. Claro, para que ela funcione muito bem ela permite uma ótima contrapartida, que é o de podermos nos comunicar sem fronteiras físicas.

Como tudo na vida, há um custo embutido nesse processo e nesse caso é o de não sermos nem livres nem termos tanta privacidade quanto imaginamos. De uma vez por todas, se você pensa que tudo o que você pensa e todas as suas ações são totalmente conscientes, reveja, pois desde há muito tempo não é, e agora muito menos. O que está ao nosso alcance escolher é, uma vez conscientes disso, controlarmos em parte até que ponto nos deixamos ser manipulados.

Não à toa entre as empresas mais caras do mundo figuram gigantes da tecnologia de comunicação como Google, Apple, Facebook, Microsoft. Simplesmente porque elas comercializam uma das mercadorias mais valiosas de todas: nossas opiniões, pensamentos e sentimentos. Quem puder, assista ao filme.

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.