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Alessandra Olivato

Nossa responsabilidade

Refiro-me aos valores de nossa sociedade, especificamente ao valor dado ao estudo e conhecimento

Por Alessandra Olivato

20 de julho de 2022, às 08h26

Não é errado dizer que o exemplo dos de cima influencia os que os sucedem ou devem-lhe obediência, como na relação pais e filhos ou, na vida em sociedade, de como as atitudes de governantes exercem influência sobre os cidadãos. Entretanto, mesmo exemplo vindo de casa não é garantia de virtudes nos filhos e sempre achei que na relação governantes e cidadãos, menos ainda. Isso posto, uma matéria e um artigo no jornal Folha de S. Paulo da semana passada me lançaram para uma daquelas questões sobre a qual a gente pensa a vida inteira e só depois de muito tempo começa a clarear. Refiro-me aos valores de nossa sociedade, especificamente ao valor dado ao estudo e conhecimento.

Uma matéria trata do estudo feito pelo pesquisador Yuri Lima sobre a mudança na contratação de professores universitários nos últimos anos – leia-se crescimento da demissão de professores – junto a uma ampla migração de cursos presenciais para cursos remotos. Já o artigo de Laiz Soares trata do velho tema da necessidade de a sociedade estimular o interesse político entre os jovens. Estudos citados por Soares mostram que assuntos políticos não figuram nas conversas de 72% dos jovens brasileiros. Nesse caso, o estudo só atesta o eu percebemos ao olhar à nossa volta: de como a maioria dos nossos jovens dispendem boa parte do tempo do seu dia com bate-papo no celular, memes, vídeos dos mais diversos tipos e demais eventos “lúdicos”.

Começo a desenvolver uma tese pessoal de que o entusiasmo pelo entretenimento entre nós, e em detrimento do gosto pelo estudo, é algo cultural e profundo e não conjuntural ou tampouco culpa de nenhum governo. Nunca me esqueço de uma estrangeira entrevistada à época das Olímpiadas no Rio de Janeiro. Ao comentar sobre a abertura dos jogos, disse algo como “Sabemos que o Brasil tem muitos problemas, mas se é uma coisa que vocês sabem fazer é festa.” É óbvio que nossa alegria é uma grande aliada frente aos reveses da vida. Mas desde muito jovem eu tinha impressão de que nos faltava um pouco mais de seriedade em alguns aspectos.

De minha maneira muito particular de ver, nosso gosto cultural pelo “lúdico” ou, dito de outro modo, por tudo que seja mais “descompromissado”, “leve”, “de boas” se mostra de várias maneiras e com muitos meandros. Pode ser percebido, por exemplo, na chatice com que parte de nós classifica tudo o que lembre regras e mais chata ainda as pessoas que lembram da existência delas. Exemplo bobo, só pode ser chato alguém que reclama do barulho na praça e frente de casa em pleno dia da semana, depois das dez da noite. Pôxa, a gente não pode nem ouvir uma música em alto volume. Se você gosta de debater ideias ou puxar um assunto mais elaborado em uma roda de conhecidos é quase que automaticamente recebido com uma torcida de nariz. Graças a Deus que não temos que falar coisas sérias o tempo todo, mas pelamor, só conversar sobre que carro o fulano comprou, com que roupa fulana foi na festa, o quanto aquela cantora famosa emagreceu, quem pegou quem, ou só de futebol ou de chapinha no cabelo e batom, valha-me!

Provavelmente só o Criador deve saber o quanto procurei toda a vida destituir-me de meus próprios preconceitos. Mas, infelizmente, com esse meio século de vida que carrego, recaio na tentação de confirmar a análise barata de que para o brasileiro estudo só tem valor se fizer alguém ganhar mais dinheiro. Não preciso lembrar a cara quase de dó que alguém faz quando uma pessoa diz que é professor, salvo os que lecionam em colégios e faculdades caríssimas e têm altos salários.

Comecei esse texto falando dos exemplos para dizer que acredito que qualquer um pode se interessar por algum conhecimento, não precisa depender de o pai ou a mãe nem o Estado jogarem-lhe um livro ou um jornal na mão. Acho lindo um pessoa usar o português corretamente, mas não acho que não ser expertise na língua seja o pior problema do mundo, há qualidades bem mais importantes em um ser humano. Mas que é horrível a grafia de verbos sem “r” no final (vou “come”, “vou dormi”, “vou fala”) e cansativa demais a futilidade dos assuntos no dia-a-dia, me desculpem, isso é. Generalizando, claro, não temos pouco conhecimento ou diversidade de cultura só por causa de nossos governos não, ainda que seja fato que nenhum deles até hoje tenha priorizado a educação. É muito por falta de valor e interesse mesmo.

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.