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Alessandra Olivato

Não existe fora

É um conceito ambiental, de preservação e ligado especificamente à questão de como descartamos todos os resíduos que geramos

Por Alessandra Olivato

29 de junho de 2022, às 09h14

Sim, eu sei, já falei e inclusive já expliquei porque já falei: porque vamos envelhecendo e repetindo as coisas e acho que a teimosia também colabora. Eu, por exemplo, teimo – muito pretensiosamente – em achar que essa coluna pode ter um pouco de objetivo educativo ou de esclarecimento, entre outras coisas. Além de achar – também pretensiosamente – que eu possa ter algo útil a dizer.

Hoje quero falar sobre uma ideia não muito conhecida pela maioria apesar de já não tão nova assim e suma importância para nossa vida: “Não existe fora.” A que se refere isso? É um conceito ambiental, de preservação e ligado especificamente à questão de como descartamos todos os resíduos que geramos: lixo doméstico, industrial e eletrônico, orgânicos e recicláveis etc

Quando se diz “não existe fora” se aponta para um erro comum sobre a ideia do lixo, de que uma vez descartando-o, ele não existe mais. Um erro porque não existe fora, uma vez que o lugar onde jogaremos tudo o que não nos serve mais continua sendo o nosso planeta. Ou seja, o lixo continua aqui, só não está dentro de nossa casa ou de nosso comércio ou da indústria, vai para os lixões, aterros, e infelizmente também para nossos rios, florestas, ar, mar etc. É impressionante o tanto de lixo que produzimos, consequência de uma sociedade que considera absolutamente normal e um direito inquestionável consumir tudo o que for possível e extrair o máximo dos recursos naturais, como se não houvesse amanhã. O trocadinho cabe muito bem.

Não me considero uma pessoa super consumista, diria até que faço algumas tentativas de “consumir o menos possível.” Mas em minha casa somos dois e todo dia produzimos um saquinho de lixo orgânico e um de lixo reciclável, no máximo, a cada dois dias. É muito lixo pra duas pessoas! Tento aliviar a dor na consciência fazendo a separação do orgânico e do reciclável.

Mas me assusta muito como em pleno século XXI muitos de nós não se preocupam em nada com questões coletivas e claras como a relação entre cuidar do meio-ambiente e o nosso futuro. Muito sequer um dia já pensaram em questões tão evidentes e importantes como a de o planeta estar sobrecarregado de lixo, o quanto nossos mares estão poluídos de plástico, o quanto nossos rios estão sujos por dejetos industriais, se não mortos e já sem vida. É com se nada disso tivesse a ver conosco.

Me surpreende – pra evitar de pronto a palavra estarrecimento – o quanto ainda têm pessoas que não dão a mínima a valores desse tipo, que não devem prestar atenção em qualquer noticiário sobre o assunto; de como vivemos em um país em que muitos nem sequer se lembram que existe um meio-ambiente, que acha que qualquer assunto ligado à natureza ou à conservação é uma besteira ou perda de tempo ou, no máximo, acham que é responsabilidade única dos governos – ressaltando um dos aspectos mais emblemáticos de nosso paternalismo político.

Semana retrasada voltava eu para casa no final da tarde quando em menos de três minutos presenciei uma lata de cerveja e em uma de coca-cola serem jogadas pela janela de dois carros. Menos de três minutos, no mesmo bairro. Latinhas de metal!! Na rua! Que podem cortar o pneu de um carro ou machucar alguém, podem entupir bueiros ou acumular resto de água parada que virará foco para mosquitos, além de enfeiar a rua e a cidade, pra início de conversa.

Certamente não me engano de pensar que as duas pessoas que jogaram suas latinhas naquele dia devem apreciar ter um bom carro para andar, vestirem-se bem para sair, ter uma aparência. De que adianta tanta coisa por fora – para falar de uma maneira bem clichê, com uma conduta tão antiquada e fora de moda? Tão ultrapassada? Que sonho meu se pelo menos essas duas pessoas pudessem ler essa humilde coluna e talvez pensar sobre o assunto.

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.