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Histórias do Coração

Maria e Eris

A beleza do nome da cidade trouxe este casal até aqui, onde viveram felizes por 57 anos, até que o Seu Eris falecesse em 2016; em Americana, Seu Eris fez a vida vendendo sonhos

Por Carla Moro

16 Maio 2021 às 07:00 • Última atualização 16 Maio 2021 às 10:46

“Ah, ele veio de encomenda para mim”. É assim que a Dona Maria, uma senhora bonita e de sorriso fácil, começa a me contar a história desse amor que nasceu em meados da década de 1950, na porta de uma padaria em Santo André.

Eris, um jovem vindo de Bom Repouso, Minas Gerais, estava na porta da padaria em que a Maria, junto com a sua mãe, tinha parado para fazer um lanche. Aquela padaria não era perto da casa delas, tampouco caminho, mas foi ali que descansaram depois de um passeio pelo centro de Santo André.

O moço parado na porta da padaria era confeiteiro e fez um sinal para a moça que chegava com a mãe, um sinal que indicava que queria conversar com ela. Eris, talvez prevendo quanto tempo ainda demoraria para finalmente conseguir falar com a Maria, teve seu sinal ignorado. A moça foi embora e por mais de um ano não voltaram a se encontrar.

Maria é filha de mãe brasileira e pai turco. Nasceu em Jundiaí e, logo cedo, se viu sozinha com a mãe. O pai, saindo com a roupa do corpo e dizendo que faria uma viagem rápida, nunca mais voltou. Quando se mudaram para Santo André, Maria trabalhava em uma fábrica para sustentar a si e a mãe. Foi um dia, saindo do trabalho e esperando o ônibus para voltar para casa que ela viu o Eris. O moço estava no mesmo ponto de ônibus que ela. Neste dia, já fazia um ano desde aquele primeiro encontro na porta da padaria.

Das muitas lembranças do tempo em Jundiaí, Dona Maria me conta de um vizinho confeiteiro que fazia bolos. Ainda criança, ela achava aquela profissão tão bonita que pensou que quando fosse moça e pudesse se casar, se casaria com um confeiteiro. Essa história é feita de muitas belezas: a beleza dos caminhos que se encontram, do interesse correspondido, do moço confeiteiro parado na porta da padaria. Confeiteiro como Dona Maria sonhava desde criança.

Maria e Eris – Foto: Arquivo Pessoal

No ponto de ônibus, Eris fez de novo sinal dizendo que gostaria de conversar com a Maria. Nesse momento, ela aceitou o gesto, e ele, mais do que depressa, como ela conta, subiu no ônibus e foi embora junto com a moça. O namoro durou quatro anos. Por quatro anos, Eris ia buscar a Maria no trabalho, levava presentes, doces e, juntos, iam guardando dinheiro para poder fazer o casamento.

Casaram-se em 25 de junho de 1960, na Paróquia de Santa Teresinha, em Santo André. Quando decidiram se mudar para o interior, foram primeiro para Limeira, mas a Maria não gostou da cidade. O Eris, então, foi falando o nome de todas as cidades ao redor: Piracicaba, Santa Bárbara D’Oeste, Nova Odessa até que o último nome era Americana.

“Eu achei o nome tão bonito”, diz sorrindo Dona Maria. A beleza do nome da cidade trouxe este casal até aqui, onde viveram felizes por 57 anos, até que o Seu Eris falecesse em 2016. Em Americana, Seu Eris fez a vida vendendo sonhos.

“Você vê como é o amor, minha filha, eu fiquei conhecendo o Eris e ele ficou me conhecendo”. Enquanto ouvia a história do coração deste domingo, eu pude sim ver como é o amor, Dona Maria. E o amor era também isto: a menina que sonhava em se casar com um confeiteiro e que construiu casa, família e uma história de amor com o Seu Eris, o confeiteiro que vendia sonhos em Americana.

Carla Moro

Formada em Letras pela Unesp, Carla Moro faz neste blog um registro da trajetória dos casais! Quer sugerir sua história para a coluna? Envie um e-mail para colunahistoriasdocoracao@gmail.com