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Pelas Páginas da Literatura

Lançamento 2021: ‘Belo Mundo, Onde Você Está’, por Sally Rooney

Novo livro da escritora irlandesa, que é considerada a “voz” da geração millennial, chegou às livrarias no mês passado; leia a resenha

Por Marina Zanaki

14 out 2021 às 11:09

O termo alemão Zeitgeist quer dizer “espírito do tempo”. Ele abarca a soma do contexto histórico, cultura, desejos e pensamentos de uma época. A escritora irlandesa Sally Rooney é considerada por muitos a voz da geração millennial porque consegue capturar em seus livros o Zeitgeist atual.

Não sei se concordo com uma definição tão intensa, mas sem dúvida sua literatura conversa muito comigo. Nos livros de Sally, encontro descrições de relacionamentos, desejos, medos e contradições que soam muito pessoais e verdadeiros. É como se ela estivesse falando sobre a minha realidade e do meu círculo social, mesmo se tratando de um contexto diferente.

Belo Mundo, Onde Você Está: novo livro da Sally Rooney – Foto: Divulgação

Seu novo livro, “Belo mundo, onde você está”, lançado pela Companhia das Letras, traz a história de quatro personagens: Alice, Felix, Elieen e Simon. Alice é uma escritora famosa e Eileen trabalha em uma revista literária. Felix conhece Alice pelo tinder, e Simon é amigo de Eileen desde a infância.

Ao se relacionarem, os quatro mostram o comportamento de uma geração que conseguiu evoluir em relação às anteriores, vivendo com menos preconceitos, com mais consciência de classe e tentando fugir do conformismo.

Contudo, Sally mostra que se os padrões anteriores foram quebrados, nada de novo ainda foi criado. Os personagens então vagam à deriva, sem modelos e pontos de referência. Mesmo considerando superados alguns conceitos conservadores, acabam reproduzindo-os em suas vidas por falta de outras opções. Nesse contexto, a autora parece perguntar: onde está o belo mundo que foi prometido pelos ideais que nossa geração acreditou?

Alice e Eileen são amigas que trocam longos e-mails contando acontecimentos sobre suas vidas e fazendo reflexões sobre questões contemporâneas – assuntos que facilmente aparecem em conversas entre amigos em uma mesa de bar ou uma janela do WhatsApp.

Nessas correspondências, Sally Rooney insere comentários sobre sua própria condição de escritora famosa tendo que lidar com o interesse repentino em sua vida pessoal e o papel social da “autora”. Ela também revela seu pensamento marxista, que nas obras anteriores é somente sugerido.

Essa transparência é a principal diferença entre “Belo mundo” e os livros anteriores. Se em “Pessoas normais” e “Conversas entre amigos” a sutileza compunha um quadro denso de significados, sua nova obra é mais clara. Não acho que tenha perdido profundidade, mas foi uma outra abordagem – e confesso que eu preferia a leveza disfarçada dos livros anteriores.

Algo que muito me agradou em “Belo mundo” são as passagens poéticas. Com descrições de cenas e paisagens, me lembrou “As Ondas”, de Virginia Woolf. As duas obras trazem muitos significados para esses momentos, fazendo deles cenário do mundo interior dos personagens.

Ler Sally Rooney foi, mais uma vez, uma experiência marcante. Eu estava bem ansiosa para a estreia desse livro, mas curiosamente a leitura foi lenta e demorei para concluí-lo. Por coincidência, o período da leitura foi marcado por muitas mudanças na minha vida, o que só reforçou minha crença de que os livros realmente nos encontram na hora certa.

Marina Zanaki

Repórter do LIBERAL, a jornalista Marina Zanaki é aficionada pela literatura e discutirá, neste blog, temas relacionados ao universo literário.